Descrição de chapéu

De Jânio a Bolsonaro

Atual presidente por vezes parece inspirar-se em seu excêntrico antecessor

Jair Bolsonaro durante cerimônia de assinatura de decreto que põe fim ao horário de verão
Jair Bolsonaro durante cerimônia de assinatura de decreto que põe fim ao horário de verão - Pedro Ladeira/Folhapress

No dia 3 de outubro de 1960, Jânio Quadros elegeu-se presidente com a promessa de varrer a corrupção e moralizar os costumes no Brasil.

Nos sete meses em que se manteve no poder, antes da renúncia, encontrou tempo para vetar a realização de corridas de cavalo nos dias de semana, as brigas de galo, a comercialização de lança-perfume no Carnaval e o uso de trajes de banho considerados indecorosos em concursos de misses.

Passadas mais de cinco décadas, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) por vezes parece inspirar-se em seu excêntrico antecessor para cumprir o intento de promover um governo conservador nos costumes.

Além de iniciativas polêmicas na esfera ministerial, o próprio mandatário coleciona declarações e atitudes extravagantes, não raro a alimentar preconceitos e incentivar a discriminação de minorias.

Dois casos recentes ilustram esse comportamento —a retirada do ar de um comercial do Banco do Brasil, voltado para o público jovem, com ênfase na diversidade racial e sexual, e a chocante declaração acerca do turismo de gays no Brasil.

No primeiro episódio, Bolsonaro, contrariado ao assistir à peça, determinou que a instituição financeira interrompesse a veiculação e demitisse o diretor de marketing.

A deliberação personalista por pouco não se transformou em novo protocolo governamental. Anunciou-se que as empresas estatais passariam a ser obrigadas a submeter suas campanhas mercadológicas à avaliação da Secretaria de Comunicação Social.

A ideia da centralização, que fazia lembrar regimes autoritários, acabou suspensa porque se constatou que estava em desacordo com a legislação —ao menos foi essa a explicação oficial para o recuo.

Evitou-se, de todo modo, um vexame maior. Cabe perguntar que orientação a Secom seguiria a esse respeito. Seria providenciado um manual para estabelecer o que pode ou não ir ao ar?

Já a manifestação sobre o turismo de homossexuais quase dispensa comentários. Em café da manhã com jornalistas, na quinta-feira (25), o presidente afirmou que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay”, porque aqui “temos famílias”.

Seria aceitável, conforme deu a entender, que heterossexuais viessem ao país com a intenção de manter relações com mulheres. Como se nota, é tênue a divisa entre a vulgaridade inconsequente e o estímulo abjeto à intolerância.

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