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Galeno Amorim

Leitura no cárcere

Livros na prisão mudam a forma de pensar e de agir

Galeno Amorim, presidente do Observatório do Livro e da Leitura - Gabo Morales - 06.12.12/Folhapress
Galeno Amorim

Parece um paradoxo, e é. Em tempos de quedas insistentes na venda de livros, fechamento de livrarias e recuperação judicial de grandes redes varejistas, a leitura literária tese revelado, nos dias atuais, um caminho consistente, simples e econômico para mudar leitores e o mundo ao seu redor.

Em que pesem a precariedade e a insuficiência da rede de bibliotecas públicas e o baixo índice de leitura (segundo Retratos da Leitura no Brasil, do Ibope/Instituto Pró-Livro, são lidos no país 4,97 livros por ano, bem abaixo dos países mais leitores), a quantidade de projetos de leitura de iniciativa de ONGs e voluntários nunca foi tão alta. E, sobretudo, as histórias de transformação, que se multiplicam por toda parte.

As práticas sociais de leitura atingem de menores em situação de vulnerabilidade a idosos e recém-alfabetizados, além, claro, de jovens e adultos sem acesso a livros, um dos maiores responsáveis pela não leitura —outro, fora o desinteresse, é a falta de habilidade, ou seja, o analfabetismo absoluto e o funcional.

Um grupo que ganha notoriedade é o de pessoas privadas de liberdade (730 mil adultos em 1.400 presídios), segmento em que os projetos sociais de leitura crescem em quantidade e qualidade. Em novembro, a Jornada da Leitura no Cárcere, feita com financiamento coletivo, vai mostrar e discutir os principais deles.

Alguns são longevos, como o Clube de Leitura Palavra Mágica em Presídios, desenvolvido há dez anos pelo Observatório do Livro e da Leitura com a Funap (Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel”). Pelos 17 clubes implantados em penitenciárias do estado de São Paulo, já passaram 8.000 detentos, e os bons resultados têm inspirado outras ações.

Eles leem um livro por mês, duas vezes e meia a média nacional. E as boas notícias não param por aí. Entre os membros dos clubes, esse número pode chegar a quatro por mês, ou estratosféricos 50 livros por ano, alto demais até para os melhores padrões mundiais! Os resultados são facilmente percebidos. Além do entretenimento cultural de qualidade —são bons livros, e a escolha se dá pelo voto—, a leitura literária no cárcere mexe com esses leitores de várias formas, a começar pela ampliação e melhoria do vocabulário.

Mais importante, contudo, é o estímulo à reflexão, a expressão de sentimentos e, especialmente, o aprendizado que se dá a partir das histórias das personagens. Afinal, se aprender com os tropeços é saudável, fazer isso com os erros alheios é muito mais sábio. Durante esses anos, tenho visto, nas minhas idas às prisões, homens e mulheres condenados que mudaram a forma de pensar e de agir, reconquistaram a dignidade que julgavam perdida e, principalmente, a esperança e uma nova perspectiva para a vida fora das grades.

E tudo, como dizem, graças, literalmente, aos livros e às dinâmicas de leitura denominadas biblioterapia —ou, como o próprio nome diz, terapia pelos livros.

Galeno Amorim

Presidente do Observatório do Livro e da Leitura e ex-presidente da Biblioteca Nacional e do Cerlalc/Unesco (Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe)

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