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Mariella Augusta Masagão

A nova retórica de Gilmar Mendes

No 'Roda Viva', ministro promove acerto de contas com instituições

Mariella Augusta Masagão

Comunicar é o que há de mais político no homem —a palavra é o princípio. As maiores transformações da humanidade, sem contar o fogo e a eletricidade, aconteceram para ligar os homens pelo tempo, pelo espaço e pelo significado.

Algumas tendências, como a de sentir e a de criar, saíram da fome, do frio e da libido para se tornarem mensagem. O animal virou cultura graças a seu espírito gregário de sobrevivência, ao encontrar no corpo algo que chamou de alma —uma espécie de consciência da saúde e da doença que pôde produzir a ideia do outro e de justiça.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal - Adriano Machado - 22.ago.19/Reuters

Com um desejo de saúde, a inteligência inconteste do ministro do Supremo Gilmar Mendes, usando de sua eloquência, protagonizou uma atuação de paz e amor com propriedades catárticas na edição do "Roda Viva" (TV Cultura) que foi ao ar na segunda-feira (7.)

Deixou entrever, ao menos em tese, a possibilidade de os ventos insulares da "common law" (sistema jurídico predominante nos países anglo-saxões, que valoriza os precedentes) arejarem a cidadela romano-germânica de nossa legalidade estrita —sem condescender, no entanto, com o ativismo.

Com muitos planos, seu discurso foi, mais que conciliador, uma anistia ampla e irrestrita. Esteve magnânimo como um sacerdote e jovial como um estudante.

Evidente que sua segurança se arrimou em notório saber jurídico e expressivo. O desempenho do magistrado, entusiasmado pelas filhas de sua memória, confirmou seu manejo das palavras, além de ter traçado, como um desenho balzaquiano, muito do poder e do querer, da gravidade e da fanfarronice –somente quem domina a fala tem a razão.

Orgulhoso de jogar duro “na bola”, autuou a mídia, os pares e convocou o "eixo Ministério Público-Receita Federal-Polícia Federal" para um acerto de contas em rede nacional.

Embora este artigo não possa asseverar a veracidade das palavras do ministro, servirá, quem sabe, como testemunho do tom de arenga com o qual Gilmar Mendes vestiu sua nova aliança e boa vontade com os homens de bem.

Contudo, em que pese a seriedade e o talento da bancada, faltou um inquiridor de equivalente conhecimento jurídico —embora nada pudesse contra a noite de almirante vivida pelo magistrado, valeria a arguição de um advogado do diabo que, dos princípios aos casos concretos, tivesse o mesmo acesso ao processo inteiro.

Inclusive, a atenta Dora Kramer reivindicou que o ministro não recorresse ao "juridiquês", ao que ele, quase com doçura, disse que estava chateado com a má recepção de seu português.

Num esforço de civilidade, o ministro fez, a seu modo, um mea culpa e confessou suas melhores intenções em prol das instituições, bem como das mudanças necessárias ao melhor Estado democrático de Direito —aquele que, outrora desprezado pelos nossos socialistas, é agora incluído em suas orações.

Era um ministro remoçado, não tanto pela maquiagem quanto pela sua inusitada solicitude ungida em farta esperança.

A nova retórica daquele Gilmar Mendes deveria servir de modelo aos que têm mais opinião do que juízo —que, na era da comunicação, sobretudo nas redes sociais, tornaram a palavra tão cínica quanto barata, confusa e arrogante.

De fato, não há como negar que, se agora somos cada vez mais médicos, não restou nenhum louco. A Casa Verde está vazia, enquanto nossos espaços públicos são como uma babel de certezas e intolerâncias, de preconceitos e obsessões.

Nossa sociedade, sem coleira, grunhe quando coloca em pé de igualdade os crimes do regime militar e a nova linguagem de almas preconceituosas; grunhe quando, sem constrangimento, publica seu amor à violência ou ocupa-se de lençóis alheios. Assim, parece descuidar que, na Segunda Guerra Mundial, enquanto soviéticos e alemães disputavam o mundo com suas ideologias e crueldades, os EUA, correndo por fora, dominaram o mundo, não só com dinheiro, duas bombas e o jazz, mas acima de tudo com o seu cinema —pois quem domina a linguagem domina tudo.

Ainda que o discurso do ministro não fosse do seu coração, é certo que adotou o bom senso que a Justiça merece. E, ao apontar soluções, de certa forma consentiu com o nosso direito bulimíco de rejeitar todos os culpados.

Mariella Augusta Masagão

Escritora, bacharel em direito, mestre em literatura brasileira, doutora em literatura portuguesa (USP) e pós-doutora em teoria literária (Unicamp)

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