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Carolina Ferreira Galdino

Muito além da Fundação Cultural Palmares

Urge mais negros como autoridades institucionais

Carolina Ferreira Galdino

Para negras e negros no Brasil, não há cavalaria reluzente que nos salve no final. Somos nossa própria salvação, razão pela qual nossa existência fundamenta-se na resistência e necessidade de independência.

No cenário organizacional, não contamos com apadrinhamentos. O nosso preparo intelectual nunca se mostra, pela perspectiva do outro, suficiente para a concreta inserção. Quando alcançada, não há permanência em funções de liderança. Em linhas gerais, não temos visibilidade, autonomia propriamente dita.

Carolina Ferreira Galdino - Professora e doutora em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp-Unicamp-PUC-SP)
A professora Carolina Ferreira Galdino, doutora em relações internacionais pelo Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais (Unesp-Unicamp-PUC-SP) - Divulgação

A árdua luta da população negra pela igualdade de oportunidades jamais se estagnou. Contamos com contribuições altamente significativas do professor Milton Santos, de Abdias do Nascimento, da dra. Iracema de Almeida —esta última uma das primeiras médicas negras do Brasil, formada pela Escola Paulista de Medicina. Milton Santos, Abdias do Nascimento e Iracema de Almeida, entre muitos outros, representam de forma exímia e digna a população negra —diferentemente do personagem que recentemente veio à baila como possível presidente da Fundação Cultural Palmares.

Objetivando preservar e valorizar os elementos culturais, históricos e sociais da população negra, o governo federal criou, em 1988, a Fundação Cultural Palmares. Nos últimos tempos, a fundação esteve sob ameaça do desmantelamento de seus princípios basilares, por conta da possibilidade de ter como novo presidente um indivíduo que nega um dos maiores horrores que acomete a sociedade brasileira —o racismo. Negar o racismo existente no Brasil transcende aquilo que se pode compreender como pernicioso.

Observa-se, em boa parte da sociedade brasileira, uma dificuldade de compreender três elementos fundamentais: o seu passado, os seus erros e aquilo que chamamos de debate. Se por um lado a luta da população negra jamais findou, por outro a sociedade tornou perene o alheamento sobre a temática racial. O Brasil do século 21 ainda pouco debate a questão da escravidão e a luta pela emancipação de fato, e não somente de jure. 

Sérgio Camargo, cuja nomeação à frente da Fundação Cultural Palmares foi suspensa pela Justiça - Reprodução/Facebook

A população negra permanece subinserida na sociedade. Isso significa que, no âmbito governamental, o processo decisório não conta com negras e negros. Urge a presença da população negra como autoridades institucionais. Essa necessidade de maior representatividade não é nenhuma novidade. A grande questão encontra-se na inabilidade de parte da população não negra em relação às relações raciais.

O debate sobre o racismo não pode ser unilateral, razão pela qual essa não é uma questão somente dos negros, é uma questão da sociedade como um todo. Debate pressupõe escuta, reflexão e, como consequência, ações. Nesse sentido, grande parte da sociedade brasileira pode até nos ouvir, mas não nos escuta. Tal falta de sincronicidade perpetua as ações discriminatórias, a invisibilidade do povo negro e a impossibilidade de uma sociedade equânime.

É necessário que a sociedade como um todo compreenda sua própria relevância nesse debate, possibilitando a implementação de ações e a construção de um cenário concretamente mais igualitário.

Para o desenvolvimento de um país que foi proletarizado em seu processo de edificação, como no caso do Brasil, é essencial que exista um debate racial concreto e cristalino —caso contrário, o desenvolvimento ficará aquém.

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