Descrição de chapéu

Justiça sem censura

A chamada cultura do cancelamento empobrece e dispensa ditador contra expressão

A escritora Margaret Atwood, que assinou manifesto pela liberdade de expressão - Tolga Akmen/AFP

Como a perpetuação da vida na Terra se beneficia da diversidade das espécies, a prosperidade material e espiritual da humanidade é favorecida pela pluralidade de ideias e pontos de vista em intercâmbio e entrechoque na sociedade.

Apesar de cristalina na teoria, a garantia à plena liberdade de expressar o pensamento, que decorre daquela premissa, levou muitos séculos para tornar-se prática consagrada numa parte das nações.

Isso porque ela colide com o que vai no âmago do ser humano: quase ninguém gosta de ver-se exposto à crítica, muito menos se ela for ácida. Poderosos, sem os contrapesos institucionais das modernas arquiteturas políticas, tendem a estrangulá-la e a adotar formas veladas ou explícitas de censura.

Se foi longo e acidentado o caminho até o regime em que um indivíduo não teme ser reprimido por suas ideias, também não é sem esforço a manutenção do statu quo.

A nova onda de ascensão de nacionalismos e populismos ameaça, e em alguns casos corrói, as bases que sustentam a livre expressão.

Do outro lado, uma franja radical de seus opositores, em nome de ideais nobres como a reparação de injustiças arraigadas, promove cruzadas contra quem ousa discordar de seus dogmas ou simplesmente dar voz a dissidentes.

A chamada cultura do cancelamento acaba de ser objeto, nos Estados Unidos, de um manifesto de repúdio por parte de um grupo amplo, diverso e representativo de escritores, artistas e intelectuais.

Publicado na revista Harper’s, o texto lembra que não há oposição entre justiça social e liberdade de expressão e que “o melhor modo de derrotar más ideias é pela discussão e a persuasão, não por tentativas de silenciá-las ou simplesmente desejar que não existissem”.

Os ataques raivosos e coordenados contra reputações de quem exprime o que o grupo não tolera produzem bem mais que cancelamentos nos ambientes digitais e demissões nos empresariais. Eles disseminam o veneno da autocensura em terrenos críticos para a evolução da sociedade como o acadêmico e o jornalístico.

Ideias deixam de ser veiculadas por medo de represália, linhas de pesquisa são abandonadas por ferir suscetibilidades, hipóteses sobre o que funciona ou não nas políticas públicas nem sequer são aventadas a título de evitar ondas de achincalhe contra os seus postulantes.

O ensimesmamento reduz a diversidade do debate e restringe o leque de inovações à disposição da sociedade. Quem fica mais pobre no intelecto não costuma escapar do empobrecimento material.

Numa bolha em que todos exprimem apenas o permitido pelo cânon coletivo, a censura se estabelece sem necessidade de ditador.

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