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Mika Lins

Uma das mais antigas profissões

'Novo exibir', espetáculo sem público de corpo presente também é teatro

Mika Lins

Atriz e diretora de teatro

Junto com aquela atividade em que se oferece o corpo para o desfrute dos prazeres carnais, o teatro é a mais antiga das profissões. Levando o espírito ao êxtase, mais do que o corpo, desde que o homem é homem ele transa e encena.

De Brecht e Diderot a Stanislavski, o teatro vem absorvendo outras linguagens artísticas para se pôr em cena. Nós não nos amedrontamos com experimentações: já colocamos e tiramos a quarta parede, anulamos o texto e voltamos com ele. E essa não é nossa primeira pandemia.

A diretora Mika Lins e a atriz Maria Ribeiro
A diretora Mika Lins e a atriz Maria Ribeiro - Arquivo pessoal

Mas, com a chegada do novo coronavírus, a arte que junta gente para encenar e gente para ver encenação foi das primeiras a parar. Só que a vida não anda em linha reta e, com o confinamento, a disponibilidade de novas tecnologias nos trouxe a possibilidade de encenarmos textos virtualmente e sermos vistos por plateias via streaming.

Zé Celso, o mais jovem de todos nós, 20 anos atrás, “avant-garde” como só ele, já havia transmitido “Cacilda!” por internet discada.

Confinados e dialogando, eu e Sergio Glasberg, diretor e montador de áudio visual, passamos dias discutindo saídas para a minha profissão. De pronto ele falou: “Ou você usa a nova tecnologia como linguagem ou vai ser o modorrento ‘teatro filmado’”. A partir daí começamos a gravar peças para o “7 leituras”, ciclo criado por Eugênia Andrade para o Sesc e que já existe há 14 anos.

Mas a minha primeira experiência com direção de vídeo e teatro foi em 2016, dirigindo a série comemorativa do aniversário de Shakespeare, a convite da Folha, para a TV Folha. Escolhi trechos de Shakespeare, e cenas foram criadas para atores convidados interpretarem em suas casas, como se fosse um texto de hoje. Depois dirigi “Terra Dois”, com Ricardo Elias, na TV Cultura.

No dia 12 de setembro último, estreamos "Pós-F", de Fernanda Young (1970-2019), contando com uma equipe de teatro e quatro câmeras, uma mesa de corte, computador potente e o desejo de usar o que poderia ser um empecilho como estímulo. Ao iniciarmos os ensaios, o mantra foi: usar como linguagem.

“Pós-F”, creio eu, parece ter atingido um resultado expressivo. A atriz Maria Ribeiro tem sido recebida em celulares e computadores de maneira surpreendente. O teatro, com sua própria gramática mesclada às possibilidades da captação em vídeo e transmissão ao vivo, pode trazer resultados interessantíssimos para um espetáculo.

A equipe de criação conta com o talento do corte ao vivo de Rodrigo Gava, a atuação potente de Maria Ribeiro e a iluminação de Caetano Vilela, também diretor de teatro e ópera.

Juntos construímos o que se vê via streaming. Criamos com liberdade e a serviço da dramaturgia. Há contudo, entre colegas, a discussão —para mim anacrônica— de que se peças sem público de corpo presente são mesmo teatro. Acho que sim. É teatro. Esse “novo exibir” e as novas tecnologias usadas a serviço da criação agora fazem parte do teatro e ampliam as expectativas de levar ao êxtase um público também de lugares distantes.

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