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Ricardo Viveiros

Democracia em risco

É hora de, unidos, responsáveis e pacíficos nos preocuparmos com o futuro

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Ricardo Viveiros

Jornalista, professor e escritor, é conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da União Brasileira de Escritores (UBE); autor, entre outros, de ‘A Vila que Descobriu o Brasil’ (Geração), ‘Justiça Seja Feita’ (Sesi) e ‘Pelos Caminhos da Educação’ (Azulsol)

As cenas de selvageria na invasão do Capitólio, em Washington (EUA), mostraram o que acontece quando um presidente desrespeita as instituições, coloca em cheque a credibilidade do sistema eleitoral e ignora os limites de independência dos demais Poderes. Um vergonhoso exemplo da considerada maior democracia do mundo, um mau sinal do que pode ocorrer em outras nações.

Aqui no Brasil, em 2022, teremos eleições presidenciais. Jair Bolsonaro, desde sua posse, vem inflamando apoiadores contra o Legislativo e o Judiciário. Tem acusado o sistema eleitoral brasileiro de fraude, desacreditando as urnas eletrônicas. Como Donald Trump, sem apresentar provas. Vale lembrar que em Brasília houve uma tentativa de invasão ao Congresso Nacional, e foram lançados rojões contra o Supremo Tribunal Federal com a intenção de intimidar os ministros.

São recorrentes os ataques do presidente brasileiro à liberdade de imprensa, aos jornalistas. Houve um ato público de manifestantes pedindo o fechamento do Parlamento e do STF, que mereceu discurso presidencial. E muitas fakes ​news contra desafetos políticos que, segundo denúncias de ex-integrantes da cúpula do governo, têm origem no “gabinete do ódio” comandado por um filho de Bolsonaro. Outro filho, deputado federal paulista, sugeriu a necessidade de um novo AI-5, medida que suspenderia garantias constitucionais. Um terceiro filho, parlamentar fluminense, denunciado pela prática de “rachadinhas”, tenta obstruir o processo na Justiça.

Não existe revolução sem armas. O presidente da República está abastecendo civis radicais com leis que liberam a compra e o porte de armas e munições. Vários e diferentes fatos, não as versões deles, sinalizam intenções nada republicanas. Incluindo ameaças de repetir, em 2022, a trágica ação burlesca incentivada por Trump ao perder as eleições.


Bolsonaro tem aberto muitas oportunidades de trabalho, com salários e relevância de imagem, aos militares. Estão ganhando mais, com mais benefícios e mais importância do que nas Forças Armadas. Assim, protege e militariza o poder civil. Sem falar do grande número de colegas de farda que ajudou a eleger. Nem na ditadura militar pós-golpe de 1964 tivemos tantos militares deputados, senadores e governadores.

Lá na frente, esse pessoal não gostará de perder o espaço conquistado no poder, podendo assim gerar condições para qualquer tipo de ação que garanta Bolsonaro no “comando” do país. Por isso, ele faz populismo, agride os parlamentares que lhe contrariam, ofende a imprensa, critica a magistratura.
Cabe observar, ainda, que o presidente busca culpar governadores e prefeitos pelos erros que comete na condução da saúde.

O negacionismo do perigo da Covid-19 pode deixar o país em um caos que interessa para, “em nome da ordem”, ser necessário implantar “medidas especiais”. Ainda bem que, nas Forças Armadas, há oficiais superiores demonstrando responsável atenção a tudo isso. A sociedade também precisa estar ciente e consciente. É hora de, unidos, responsáveis e pacíficos nos preocuparmos com o futuro da ainda frágil democracia brasileira.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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