Descrição de chapéu
Rita de Cássia Hipólito

Dia de Iemanjá: da festa à resistência

Livrai-nos da perseguição ao candomblé, nosso principal elo com a ancestralidade africana

Rita de Cássia Hipólito

Mestre em sociologia pela USP, é filha de santo do Tumbenci (Salvador)

​Nesta terça-feira (2) teremos os olhares voltados para uma das mais representativas festas de rua do repertório afrorreligioso, a comemoração daquela que é a nossa rainha do mar, Iemanjá. Aos desavisados, os holofotes sobre a maior festa de largo da Bahia poderá sugerir a aclamação de nossas raízes africanas pela sociedade, o que, infelizmente, não é verdade.

Há poucos dias, a mesma imprensa que hoje documenta a alegria festiva deste 2 de fevereiro trouxe o grito de socorro de uma tradição religiosa que sofre violentamente a perseguição de segmentos neopentecostais. O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, em 21 de janeiro, expõe a árdua batalha das religiões afro-brasileiras pelo simples direito de existir. Porém, ainda que a realidade seja árdua, temos repertório de sobra para deixar as manchetes policiais e ocupar os cadernos de cultura dos grandes jornais do país.

O ano de 2020 fez muito bem a ponte entre resistência e encantamento que sintetizam o cotidiano do candomblé. Logo em fevereiro, Tiganá Santana, que além de intelectual, é cantor, compositor, instrumentista, produtor musical e a tradução mais próxima do que podemos imaginar de um orixá em terra, lançou o álbum "Vida e Código". A canção em kikongo “Disu ye Mvula” ("Olho e Chuva") dá a tônica de todo o potencial deste artista ímpar no cenário nacional.

Ainda no campo do audiovisual, dois documentários são fundamentais para quem quer conhecer a história das religiões afro-brasileiras por meio da arte: “Dorivando Saravá: o preto que virou mar”, de Henrique Dantas, que, para além de mostrar a relevância das águas para a obra de Caymmi, primeiro garoto-propaganda das festas de Iemanjá, resgata a negritude de um artista que não viu seu nome imortalizado pela Academia Baiana de Letras exatamente em razão de sua cor; e “Obatalá”, disco de 2019 roteirizado por Cristina Aragão e que veio a público agora em 2021.

O registro do álbum traz entre simpatizantes e seguidores do candomblé nomes de peso como Gilberto Gil, Alcione, Daniela Mercury, Jorge Benjor, Nelson Rufino, Marisa Monte, Zeca Pagodinho, Carlinhos Brown, Lazzo Matumbi, Margareth Menezes e Mateus Aleluia —que empresta sua voz potente para cantar a "Obatalá"; pai da criação nos candomblés de tradição Ketu, orixá de Mãe Carmem, a grande matriarca do Gantois, homenageada em seus 90 anos de vida.

Falando de orixás da criação e Mateus Aleluia, nosso eterno Tincoãs lançou em julho de 2020 o álbum “Olorum” e ainda tem participação decisiva em um dos melhores discos do ano passado: “Orin – a Língua dos Anjos”, da Orquestra Afrosinfônica, magistralmente regida por Ubiratan Marques. Aos que ainda torcem o nariz para toda e qualquer referência do universo afrorreligioso, a canção “Nabeleli Yo”, do congolês Dodó Miranda, ganhou prêmio de melhor música gospel do primeiro “Angola Music Awards” em 2012.

Marcelo D2 também reserva grande dose de surpresa a um ano que, a despeito de toda tristeza e dificuldade imposta por uma pandemia, ainda nos presenteia com pérolas como “Assim tocam os meus Tambores”. A faixa “Tambor, o senhor da alegria”, letra do brilhante e incansável soldado de Ogum Luiz Antonio Simas, na voz de Criolo, é uma aula sobre o papel fundamental dos tambores e da festa para as religiões de matriz africana.

Não podemos deixar de mencionar a beleza de “Dos Santos”, de Fabiana Cozza, que sempre retrata o universo afrorreligioso em seus álbuns, mas que em 2020 empresta seu sobrenome para um trabalho inteiramente voltado às divindades afro-brasileiras.

Por último, e não menos importante, o aclamado documentário “Amarelo”, de Emicida, tem a perspicácia de trazer uma passagem que ilustra muito bem a astúcia e sabedoria do povo de santo com o provébio: “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”. Que o grande senhor da comunicação e dos caminhos continue nos guiando e livrando da maldade dos que insistem em perseguir aquele que ainda é nosso principal elo com a ancestralidade africana, o candomblé.

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