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Ainda o ministério

Trocas na Justiça e na AGU privilegiam aliados do bolsonarismo e preocupam

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André Mendonça, que volta a comandar a AGU - Isaac Amorim/MJSP

Como era de esperar, a crise militar que Jair Bolsonaro provocou com sua desastrada reforma ministerial ocupou todos os holofotes. Daí não decorre que outras mudanças promovidas pelo presidente se mostrem menos preocupantes.

Uma que causa particular inquietação é a troca de nomes no Ministério da Justiça. Isoladamente, a saída de André Mendonça seria uma boa notícia —o que de mais notável ele fez enquanto esteve à frente da pasta foi invocar a Lei de Segurança Nacional para perseguir desafetos do presidente, pelo qual demonstrou rara subserviência.

Mas Mendonça não foi despachado para casa. Retornou ao comando da Advocacia-Geral da União (AGU), de onde viera. Há motivos para recear que ficará ali por pouco tempo, pois é candidato a receber a indicação para a vaga no Supremo Tribunal Federal que se abre em julho com a aposentadoria de Marco Aurélio Mello.

Comandará a Justiça o delegado federal Anderson Torres. Ele conta com experiência na área de segurança pública (o que não é pouco para um governo que teve na Saúde um general que não sabia o que era o SUS), mas tem outros atributos que dão lugar a apreensão.

É ligado à bancada da bala, aos filhos do presidente e também está envolvido com as pautas corporativistas de associações de policiais. São motivos para suspeitar que se empenhará em fazer avançar o armamento da população e se esforçará para proteger a família presidencial de investigações.

Poderá atuar ainda como ponte entre o bolsonarismo e suas bases entre policiais e militares de baixa patente, além de milicianos.

Num outro lance revelador do real caráter da reforma ministerial de Bolsonaro, quem ficou sem emprego foi José Levi, que vinha à frente da Advocacia-Geral.

Ao que consta, Levi perdeu o posto por ter-se recusado a assinar a ação em que Bolsonaro pedia ao STF que anulasse decretos de governadores que estabelecem medidas mais rígidas de isolamento social para conter a pandemia.

Sem a assinatura de um advogado, só com a do presidente, que não tem capacidade postulatória, a causa infame sofreu uma derrota humilhante na corte. No Brasil de Bolsonaro, ministros que apresentam alguma virtude caem.​

Resta esperar que, de novo sob o comando de Mendonça, a AGU colecione fracassos caso se disponha a atender às arremetidas negacionistas do mandatário.

editoriais@grupofolha.com.br

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