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Tabata Amaral

Carta às meninas que estão chegando ao mundo

Venham, e venham com coragem, é por vocês que nós lutamos hoje

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Tabata Amaral

Cientista política e astrofísica formada pela Universidade Harvard, é deputada federal e ativista pela educação.

8 de março de 2021

Às meninas que estão chegando,

Até no chão duro do asfalto, há rachaduras nas quais, vez ou outra, uma flor insiste em nascer. Ao darem seus primeiros respiros, tenho certeza de que trouxeram com ele um pouco de alívio e esperança aos seus familiares, sentimentos muito necessários nos dias de hoje.

Flores nascem à margem da marginal Pinheiros, em São Paulo - Juca Varella/Folhapress

“Deveríamos ter trazido nossas filhas ao mundo justo agora?”, alguns devem ter se questionado. As coisas nunca foram fáceis para nós mulheres, mas é verdade que os últimos meses vêm sendo especialmente difíceis.

Mães vão dormir pensando se no dia seguinte terão um prato de comida para dar aos seus filhos. Muitas estão à beira da exaustão tendo que cumprir uma jornada tripla de trabalho, casa e filhos que só fez se intensificar com o isolamento social. Outras, ainda, estão desesperadas por um emprego.

Quando penso em todos os impactos que a pandemia está tendo na vida das mulheres, como o aumento da violência doméstica, me pergunto de onde é que se tira forças para enfrentar esse pesadelo.

E é ouvindo a minha mãe e pensando sobre tudo que ela e minhas avós tiveram que enfrentar que eu entendo que, essa força, ela vem das que vieram antes de nós.

A minha avó Elza era extremamente inteligente, mas foi privada do que mais gostava —os estudos— por seu pai. Sem educação, ela, que nasceu em uma época em que as mulheres não podiam sequer votar, tampouco pôde escolher com quem se casaria.

Lisete, minha avó por parte de pai, sofreu uma série de abandonos ao longo de sua vida. A isso, se somou o estigma que por muito tempo a impediu de abandonar o marido que a agredia assim como receber tratamento para as doenças mentais que a atormentavam. Além disso, apesar de ser professora, ela corria o risco de ter que abandonar a sua profissão. Por lei, as mulheres só podiam trabalhar fora com a autorização do marido.

Quando a minha mãe, Reni, nasceu, essa lei já havia sido revogada. Mas o fato de ser mulher a impedia de fazer coisas básicas, como jogar futebol ou ter um cartão de crédito. Ela sofreu uma série de preconceitos por começar tarde sua educação básica e foi abandonada por grande parte da família, assim como pelo meu pai biológico, quando engravidou de mim.

Todas as famílias têm suas Elzas, Lisetes e Renis, cujas trajetórias nos lembram quão recentes são muitas das nossas conquistas, mas também quão constante e corajosa é a nossa luta. Elas com toda a certeza nos entregaram um mundo muito melhor e, apesar de todos as ameaças de retrocessos que enfrentamos hoje, nos lembram que o que estamos vivendo é um retrato, não o filme todo. Podemos perder algumas batalhas, mas estamos vencendo a guerra.

Não carrego ilusões de que o futuro de vocês será fácil, mas sei que, assim como nós chegamos aonde chegamos graças às mulheres que nos antecederam, é por vocês que nós lutamos hoje. Então venham, e venham com coragem, que estamos trabalhando incansavelmente para que esse mundo, cada vez mais, também seja de vocês.

Com carinho,

Tabata Amaral

TENDÊNCIAS / DEBATES
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