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Bruna Benevides e Keila Simpson

Março de todas as mulheres

Não há luta feminina se qualquer uma de nós for abandonada pelo caminho

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Bruna Benevides

Mulher trans, sargenta da Marinha, feminista e pesquisadora

Keila Simpson

Travesti, prostituta e presidenta da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais)

Em março celebramos a luta das mulheres por direitos, cidadania e igualdade, além do enfrentamento da desigualdade de gênero, direito ao corpo e questões relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos.

A violência de gênero aproximou vários segmentos feministas, que têm se debruçado sobre a violência doméstica, o feminicídio e o transfeminicídio —fenômenos que apresentam aumento na quantidade e na forma com que atingem as mulheres, especialmente durante a pandemia de Covid-19.

A sargenta da Marinha Bruna Benevides, uma das primeiras mulheres trans na ativa das Forcas Armadas - Zo Guimaraes - 21.mar.20/Folhapress

Bell Hooks nos instiga a lembrar de como as mulheres negras eram (e ainda são) tratadas em relação às mulheres brancas. E, assim como as mulheres negras reivindicaram o seu lugar no feminismo, as travestis e mulheres transexuais têm se organizado e feito o mesmo, em uma luta que traz aliadas importantes de um lado e de outro. Mulheres a serviço do patriarcado, que têm assumido o papel de tentar criminalizar ou excluir mulheres transexuais dos espaços feministas, felizmente, são minoria.

Os movimentos feministas passam por momentos de reflexão a fim de garantir a representação e inclusão de pautas que reflitam os anseios das mulheres, sem que pautas exclusivas de determinados grupos se tornem excludentes em relação a outras —e sem que haja hierarquias entre as diversidades de mulheres. De modo que todas as opressões sejam enfrentadas conjuntamente, por todas nós.

E nesse processo surgem movimentos dentro do feminismo que pretendem aprofundar questões de classe, raça e diversidades. Exatamente para que a interseccionalidade se torne, além da teoria, uma prática. O movimento negro tem um papel fundamental nesse processo, pois coloca a perspectiva racial no centro do debate para que possamos compreender que o lugar que as mulheres negras ocupam na sociedade está ainda mais precarizado do que o de mulheres brancas.

Na mesma perspectiva, o transfeminismo surge com uma proposta de humanização das travestis e mulheres transexuais e a inclusão de suas pautas dentro do feminismo. O objetivo é enfrentar qualquer tentativa de antagonizar as pautas das mulheres transexuais em relação às demais mulheres.

É nesse cenário que nos somamos às lutas das outras mulheres, sejam elas negras, indígenas, portadoras de deficiências, mães ou quaisquer outras. Temos construído uma atuação conjunta no sentido de afirmar que avançar nos direitos das travestis e mulheres transexuais em nada faz retroceder os direitos de quaisquer outras mulheres. Pelo contrário: quando uma de nós avança, avançamos todas. Urge que mulheres possam se sentir representadas pelas lutas de pessoas que enfrentam os piores processos de desumanização e precarização, mas que seguem resistindo e conquistando espaços.

Para a luta trans, o dia e o mês da mulher são fundamentais, visto que, dentro do feminismo, tratam da “dororidade” (conceito criado pela escritora Vilma Piedade de que “a dor que se transforma em potência”). Esse modelo nos leva a criar um compromisso ético em defesa dessas vidas com mulheres que têm se dado as mãos para que possam enfrentar a invisibilidade, a marginalização, a transfobia e suas formas, além da gestão da precariedade que vivem no dia a dia.

Vale ressaltar que, apesar de recentes conquistas, ainda há um longo caminho pela frente. O março de todas as mulheres traz um simbolismo enorme para a vida das mulheres transexuais. Apenas a aliança entre as mulheres poderá apresentar formas de enfrentamento eficazes contra as injustiças. Não há democracia plena sem a inclusão das mulheres negras embutida na estrutura da sociedade. E o feminismo precisa assumir o compromisso com a luta antitransfobia em seus espaços e na sua atuação.

Lutemos para que o mês da mulher celebre a vida. No que depender do transfeminismo, estaremos sempre dispostas e prontas para compor as trincheiras de luta ao lado das companheiras históricas. Pretendemos continuar caminhando juntas, em todos os dias do ano. Não existe luta de mulheres se qualquer mulher for abandonada pelo caminho.

TENDÊNCIAS / DEBATES
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