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Devagar com o andor

Epidemia arrefece, mas ainda é preciso cautela com o incentivo à circulação

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Fila para vacinação em São Paulo - Havolene Valinhos/Folhapress

O estado de São Paulo atingiu o pico da segunda e devastadora onda da epidemia de Covid-19 na primeira semana de abril, a julgar pelos dados de internações em UTIs monitoradas pelo governo estadual. Desde então o volume de doentes em cuidado intensivo vem caindo em ritmo mais intenso a cada dia.

Na quinta (15), havia 11.598 pacientes nessa condição, uma redução de 1.521 em relação ao auge, em 1º de abril. Os óbitos no estado ora divulgam-se aos 700 por dia, se computada a média de duas semanas de ocorrências, indicador que ultrapassou 800 em 8 de abril.

Ao anunciar o relaxamento paulatino das restrições a atividades no estado, o governo João Doria (PSDB) deu mais peso ao filme, que mostra o arrefecimento da infecção, do que à foto, que revela cifras ainda assustadoramente elevadas.

Não se devem menosprezar as motivações de empreendedores do comércio e dos serviços considerados não essenciais, que vêm sendo castigados pelo resguardo de clientes temerosos de contágio e também pelas restrições governamentais há mais de um ano.

O problema é que, a depender de como a abertura seja conduzida, permanecerá ponderável o risco de eclodir a terceira onda da pandemia, o que levaria a uma nova rodada de infecções evitáveis, de saturação nos serviços hospitalares e de interditos a atividades.

A nota preocupante do estímulo ao aumento da circulação neste momento é a falta de defesa de uma parcela ainda muito ampla da população contra o novo coronavírus. A vacinação, em que pese a colaboração decisiva do governo paulista e do Instituto Butantan para a campanha, caminha devagar em razão da negligência federal.

O Brasil, com 16% dos maiores de 18 anos vacinados ao menos uma vez, tem aplicado pouco menos de 600 mil doses diárias em média. Nessa marcha, demora 28 dias para injetar uma dose do imunizante em 10% da população adulta. Os EUA, que já têm metade dos adultos inoculados, levam apenas 6 dias para cobrir 10% desse público.

O recuo de casos e mortes nesse contexto brasileiro, de baixa imunização, não assegura o controle da epidemia, como já se demonstrou com o coronavírus e outros patógenos pandêmicos na história.

Por isso há que ser cauteloso com o abrandamento das quarentenas, privilegiando o filme, e não a foto, também em situações hipotéticas de reversão do quadro. O cuidado deve ser redobrado com a mensagem que as lideranças vão passar à população. Estimular o “liberou geral” seria receita para catástrofe.

A pressa deve ser canalizada para ampliar logo a vacinação, e a memória cívica, para guardar o nome do responsável pelo fracasso mortífero: Jair Messias Bolsonaro.

editoriais@grupofolha.com.br

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