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Alerta hídrico

Seca se agrava e já afeta preços da energia elétrica, pressionando a inflação

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Leito seco do Rio Grande, na região próxima à barragem da Usina Marimbondo, na divisa de São Paulo e MInas Gerais - Guilherme Baffi/Diário da Região

O Brasil esteve acossado nos últimos dias por notícias reminiscentes das tenebrosas crises de 2001 (racionamento de energia no país) e 2014 (falta de água em São Paulo). A estiagem se agrava e ressuscita perspectivas inquietantes.

Uma semana atrás, 70 milhões de brasileiros ficaram sem luz no Norte e no Nordeste. O blecaute não teve relação com a seca, e sim com falha na operação do linhão de Belo Monte, porém bastou para reativar a má memória.

O país anda longe de emergência no abastecimento, verdade, mas nessas horas se revela a capacidade de prevenir desastres futuros, por remotos que pareçam.

De preocupante tem-se o alerta de condições hidrológicas desfavoráveis emitido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) na sexta-feira (28). Reservatórios do Sistema Interligado Nacional adentram junho no nível mais baixo desde 2015, numa das piores secas no Sudeste e no Centro-Oeste.

Nessas regiões, inicia-se agora o período com menores índices pluviométricos; só após setembro retornam chuvas mais copiosas. Fala-se na maior crise hídrica em nove décadas. Não fosse a baixa de atividade com a pandemia, haveria risco de apagões já em 2022.

Um efeito se faz sentir de imediato, com o acionamento das caras usinas termelétricas e a consequente elevação das tarifas de eletricidade. As contas já vêm calculadas no nível vermelho patamar 1, e não será surpresa se escalarem em breve para o patamar 2.

A combinação de eletricidade cara para indústria e serviços com escassez de água para irrigar lavouras de commodities tende a elevar pressões sobre a inflação em alta. Tomara esse indicador acenda a luz vermelha no Planalto e instigue o que lhe resta de governo a adiantar-se ao agravamento previsível, não repetindo a inação criminosa na pandemia de Covid-19.

Outra notícia de mau augúrio: a destruição de mata atlântica segue maior que em tempos pré-Jair Bolsonaro, tendo consumido mais 130 km² em 2019-20, 14% acima do período 2017-18 (restam ao bioma mais devastado do país 12,4% da vegetação original). O cerrado também sucumbe, somando 1.200 km² de devastação de janeiro a abril.

Mata atlântica e cerrado abastecem a grande caixa-d’água para hidrelétricas do Brasil, no Sudeste e no Centro-Oeste. Não que o desmatamento recente seja a causa imediata da presente estiagem, mas há uma relação óbvia entre manutenção de cobertura florestal e reposição de recursos hídricos.

Acredite quem quiser que a iniciativa de preservar florestas para produzir água partirá do atual ocupante do Palácio do Planalto.

editoriais@grupofolha.com.br

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