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Ascensão de Castillo no Peru é mais um desafio para a democracia na região

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Pedro Castillo, mais votado na eleição para presidente do Peru - Sebastian Castaneda/Reuters

A aparente vitória do esquerdista Pedro Castillo para presidente do Peru seleciona uma das duas vertentes do autoritarismo e do obscurantismo que se apresentaram ao eleitorado no segundo turno.

A candidata menos votada, a direitista Keiko Fujimori, representava a corrente fundada pelo pai, Alberto, golpista e ditador nos anos 1990. A filha, às voltas com investigações que podem levá-la de volta à cadeia, questiona os resultados do apertadíssimo escrutínio.

Castillo não se sai melhor no campeonato de credenciais democráticas mínimas. Promete dissolver a corte homóloga ao Supremo Tribunal Federal e instalar um regime centralizador e intervencionista por meio de uma nova Carta.

Nos costumes, o professor de 51 anos vestiria sem necessidade de ajustes o traje bolsonarista: fervorosamente religioso, é contra a legalização do aborto, do casamento homossexual e da eutanásia.

A julgar pela debilidade do poder presidencial no Peru —no último ciclo de cinco anos quatro políticos diferentes ocuparam o posto—, Pedro Castillo, sem maioria no Congresso, terá mais dificuldades para manter-se no cargo do que para subverter as regras do jogo.

Ainda assim, o prenúncio de impasses envolvendo uma figura com claro pendor autocrata requer atenção para uma possível eclosão de violência política no Peru.

A doença global do populismo iliberal incide com particular preocupação nas Américas. A fortaleza democrática dos Estados Unidos pôde resistir com danos mínimos à aventura de Donald Trump.

O Brasil também atravessa a tempestade da aparição de Jair Bolsonaro, adversário ideológico da Constituição de 1988, com relativo aprumo, embora não sem desgastes. Há mais cartilagem e complexidade no tecido institucional brasileiro do que no peruano, no venezuelano ou no boliviano.

Insurreições pretorianas não mais ameaçam a consolidação do Estado democrático de Direito na América Latina. Foi-se, felizmente, o tempo em que as Forças Armadas, nos famigerados “pronunciamientos”, escolhiam vencedores e vencidos nas disputas políticas.

A cartilha do arbítrio em voga, inaugurada aliás por Alberto Fujimori, prega a cooptação paulatina pelo chefe do Executivo das organizações estatais e sociais incumbidas de controlar, limitar e fiscalizar as ações do presidente.

Não há monopólio doutrinário entre filotiranos. À direita —com Keiko e Bolsonaro— e à esquerda —com Castillo e Nicolás Maduro—, exemplares farejam oportunidades para inocular o veneno cesarista.

Como ocorre na biologia, o organismo institucional corre risco de infecção apenas quando o sistema imune da democracia fraqueja.

editoriais@grupofolha.com.br

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