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O que a Folha pensa

Recuperar o ensino

Governantes e educadores precisam reagir, pois do ministério nada resta esperar

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Aula na Escola Estadual Major Marcelino, em São Paulo - Rivaldo Gomes/Folhapress

Com 191 dias de escolas fechadas, o Brasil se alinha, em matéria de incúria com a educação na pandemia, a vários países da América Latina e do Caribe. Essa região se destaca, segundo a Unesco, por ter deixado crianças e jovens com mais dias sem aula (158, em média) de março de 2020 a fevereiro de 2021.

A média mundial ficou em 95 dias de escolas fechadas. Outras regiões do planeta também se excederam ao dizimar o aprendizado por quase um ano, como sul da Ásia (146 dias) e sudeste da África (101) —países pobres em que a desigualdade se acentuará sobremaneira com o atraso imposto a estudantes mais desassistidos.

A tendência global se inverteu em setembro de 2020, quando a maioria das nações abriu portas de colégios. Não aqui: de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Educação, 20 unidades da Federação seguem quase inteiramente sem aulas presenciais, e as outras 7 realizam-nas só de modo parcial.

Estudo do Instituto Unibanco e do Insper estima que a perda de aprendizado para 35 milhões de alunos de ensino fundamental e médio implicará redução em sua renda de R$ 430 mil ao longo da vida. Tudo somado, um impacto de R$ 1,5 trilhão para o país.

No cálculo do economista Ricardo Paes de Barros, para cada dia fora da classe, o déficit no aprendizado equivale a quase dois (1,55). Um aluno que tenha progredido do 2º ao 3º ano do ensino médio na pandemia, estima o estudo, pode concluir esse nível com proficiência em português e matemática pior do que o da entrada.

Resta evidente a irresponsabilidade de preconizar reversão do que for possível em tamanho prejuízo apenas quando a pandemia acabar. Não existe tal opção, em que pese a omissão de um Ministério da Educação desmontado pelo presidente Jair Bolsonaro a golpes de desvario ideológico.

Cabe a governadores e prefeitos conter o descalabro. Mesmo que isso só seja factível em esquema híbrido, modulando a proporção entre aulas presenciais e remotas conforme a gravidade da epidemia de Covid-19 e o avanço da vacinação, seria crime de lesa-juventude permanecer paralisado.

O estudo Unibanco/Insper projeta que um esforço concentrado no segundo semestre pode recuperar 40% da perda de aprendizado. Não faltam tecnologias e métodos para tornar mais produtivo o ensino a distância, se inevitável for.

Mão à obra, portanto. Profissionais do ensino, sobretudo nas escolas públicas, precisam insuflar seu justo movimento por vacinação com zelo redobrado pelo resgate de seus alunos, pois nenhum educador que mereça o nome pode conformar-se com abandonar um único que seja pelo caminho.

editoriais@grupofolha.com.br

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