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Torneio de insensatez

Bolsonaro consegue mais tumulto com decisão temerária de aceitar a Copa América

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O presidente Jair Bolsonaro - Evaristo Sá/AFP

Embora a realização repentina da Copa América possa não representar grande risco sanitário adicional em um país já devastado pela irresponsabilidade de seu presidente, o próprio governo parece ter titubeado diante da empreitada.

Poucas horas depois de cancelado o torneio na Argentina, em razão do avanço da Covid-19, o Brasil foi anunciado como nova sede na manhã de segunda (31) —a Colômbia, que também abrigaria o evento, já havia desistido em razão da crise política que atravessa. Ao final do dia, entretanto, Brasília já não confirmava o sinal verde.

Em meio à má repercussão da notícia, o Palácio do Planalto afirmou estar negociando condições com as entidades futebolísticas do país e do continente. Nesta terça (1º), Jair Bolsonaro acabou por reafirmar a temerária decisão.

O mandatário confere visibilidade extra a seu desprezo pela precaução, enquanto o país marcha para a conta de 500 mil mortes provocadas pela epidemia sob a ameaça de uma terceira onda de contágio. As duas marcas, aliás, podem ser atingidas durante a competição.

É fato que o futebol acontece por aqui, sem público nos estádios, desde agosto do ano passado. Não obstante casos de equipes quase inteiras infectadas e aglomerações de torcedores, nenhum certame nacional ou continental foi cancelado. Ainda assim, o açodamento e a desnecessidade do novo compromisso carregam seu simbolismo.

O interesse financeiro em torno da Copa América, que por si só nada tem de errado, fica mais evidente em contraste com o duvidoso mérito esportivo desta edição do torneio —resultante de alteração de calendário e muito próxima da edição de 2019, realizada no Brasil.

Escancara-se ainda a tradicional aliança oportunista entre a política e o futebol, que não merece condescendência em um momento de tragédia nacional e inação do governo ante prioridades reais.

Bolsonaro, como de costume, busca instintivamente o tumulto, mesmo com riscos para si próprio. Põe em jogo seu capital político, dizimado pela pandemia, enquanto enfrenta aos desaforos uma CPI e a volta de manifestações populares contra sua administração. Será difícil dissociar a competição desse contexto deplorável.

editoriais@grupofolha.com.br

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