Complicações pós-cirurgia afetam planos de Bolsonaro, e viagens devem ser revistas

Desde internação, presidente quase não utilizou escritório em hospital; alta ainda não tem data

Talita Fernandes
São Paulo

​As complicações no processo de recuperação do presidente Jair Bolsonaro (PSL) após a cirurgia frustraram os planos do governo de transferir temporariamente o centro de comando do país para um escritório improvisado no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

O Palácio do Planalto montou uma sala ao lado do quarto onde o presidente está internado há 14 dias para que ele pudesse estar pronto para despachar assim que o Legislativo retomasse as atividades, em 1º de fevereiro.

O presidente Jair Bolsonaro durante reunião no gabinete montado no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Internação posterga tomada de decisões e evidencia falta de autonomia no novo governo - Presidência da República - 8.fev.2019/Reuters

A sala, com computador, impressora e um sistema para videoconferências, foi usada apenas duas vezes: uma para encontro presencial com o ministro Tarcísio Freitas (Infraestrutura) e outra para conversa em vídeo com o ministro Augusto Heleno (GSI).

Bolsonaro ficou ausente do cargo só por 48 horas, período em que o vice, Hamilton Mourão, assumiu como interino. Inicialmente, a estimativa era de alta após dez dias de internação, completados na quarta (6). Mas complicações como acúmulo de líquidos no estômago e na cavidade abdominal e uma pneumonia levaram ao aumento de cuidados e à postergação da alta —sem previsão ainda.

A cirurgia para reconstrução do trânsito intestinal à qual Bolsonaro foi submetido em 28 de janeiro foi a terceira em cinco meses, desde que foi vítima de uma tentativa de assassinato em setembro de 2018. Por ser uma operação planejada e o presidente demonstrar boa recuperação desde a facada, assessores esperavam um processo mais tranquilo.

Tanto que antes da internação, sua equipe já buscava datas para duas viagens ao exterior entre março e abril, aos EUA e a Israel. Essas viagens já são vistas como improváveis. Depois que tiver alta, ele deve ter uma rotina reduzida de atividades em Brasília.

O tratamento por antibióticos, que começou após uma febre, deve fazer com que ele permaneça internado por pelo menos mais uma semana, totalizando quase 20 dias, próximo ao dobro do estimado inicialmente. Diferentemente do que ocorreu em setembro, quando Bolsonaro ficou 23 dias no Einstein, desta vez a movimentação na porta do hospital se restringiu praticamente à imprensa. Os apoiadores quase onipresentes do ano passado não apareceram.

Dentro do hospital, a movimentação também foi reduzida. No primeiro período de internação, os médicos e familiares tiveram que pedir a interrupção de visitas ao então candidato. Gerou incômodo à época a divulgação de imagens por aliados, como o ex-senador Magno Malta (PR-ES), que filmou a cicatriz de Bolsonaro para combater notícias falsas de que ele não havia sofrido uma facada.

Desta vez, as primeiras imagens do presidente só foram publicadas dias depois da internação e coincidiram com os dias em que o boletim médico trazia alguma piora em seu estado de saúde.

Para reverter as notícias ruins, seus assessores adotaram cautela ao relatar qualquer piora na recuperação. O porta-voz Otávio Rêgo Barros disse que Bolsonaro ficou triste com a notícia de uma pneumonia, mas rapidamente afirmou que ele logo recuperou o ânimo e humor em seguida.

A cada dia em que o boletim médico trazia uma piora, o presidente e seus filhos recorriam às redes sociais para fazer publicações que demonstravam que ele estava bem e criticar indiretamente a cobertura da imprensa.

No dia seguinte à divulgação do quadro infeccioso, Bolsonaro foi ao Twitter pela manhã e postou uma foto sorrindo em frente a uma bandeja com gelatina e água, em comemoração à retomada da alimentação por via oral após mais de dez dias de jejum.

Mesmo tendo intensificado a agenda na última sexta, com conversas por telefone e despachos presenciais, Bolsonaro foi aconselhado pelos médicos a não se exaltar muito.

Pessoas próximas relatam que ele se está ansioso para retomar as atividades normais e familiares e médicos tentam limitar o contato com assessores para que isso não retarde mais a alta.

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