Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Divididos, evangélicos temem que embate com militares trave projetos

Apesar de insatisfação com militares, parlamentares reprovam declarações de Olavo de Carvalho

Ranier Bragon
Brasília

​ Um dos principais grupos que dá sustentação política a Jair ​Bolsonaro (PSL), a bancada evangélica no Congresso não tem reagido de forma unitária em relação aos recentes embates entre os militares e o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho.

Uma ala, capitaneada pelo deputado Pastor Marco Feliciano (Podemos-SP), apoia as manifestações do ideólogo diante do diagnóstico de que ministros e auxiliares oriundos da caserna têm representado obstáculo à implantação da agenda conservadora pela qual Bolsonaro se elegeu.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) participa de evento evangélico em Camboriú (SC)
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) participa de evento evangélico em Camboriú (SC) - Alan Santos - 2.mai.2019/PR/AFP

Essa agenda coincide em vários pontos com as bandeiras defendidas pela bancada e vai ao encontro de sua histórica tentativa de barrar qualquer projeto vinculado à esquerda ou considerado "progressista", como ampliação dos casos legais de aborto e criminalização da homofobia, entre outros.

Feliciano é um dos parlamentares mais atuantes da bancada evangélica —já presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em uma passagem repleta de polêmicas— e se aproximou bastante de Bolsonaro nos últimos tempos.

Embora diga que não usaria os termos usados pelo guru do bolsonarismo, ele apoia as críticas feitas por ele ao general Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo) e ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão. Segundo Feliciano, ambos têm atuado em linha diversa da que resultou na eleição de Bolsonaro.

Outros integrantes da bancada, porém, reprovaram a forma como Olavo atacou os militares, considerando-a extremamente desrespeitosa e não condizente com um ambiente de unidade que permita a aprovação de pontos dessa agenda conservadora no Congresso.

Eles dizem reprovar os termos de baixo calão empregados por Olavo e avaliam que o presidente deveria ter tentado colocar fim à crise em vez de exaltar um dos lados —no caso, o do seu guru.

"O governo precisa cuidar para pacificar o assunto. Eu, particularmente, não tenho nenhuma simpatia ao Olavo de Carvalho. Em algum momento já tive simpatia ideológica. Desde o momento em que ele fez fortes críticas aos evangélicos, ele deixou de me servir de inspiração", afirmou o deputado Sóstenes Cavalcanti (DEM-RJ).

O parlamentar é ligado ao pastor Silas Malafaia, que recentemente também se envolveu em uma troca de críticas pelas redes sociais com Olavo sobre quem teria tido mais importância para a eleição de Bolsonaro —Olavo ou os evangélicos.

"É péssimo para o governo, o governo precisa agir rápido para parar com esse tipo de coisa. Eu, no lugar do Bolsonaro, estaria buscando pacificar esses desentendimentos, nunca optaria por um lado", disse Sóstenes

Outro integrante da frente, o deputado Pastor Eurico (Patriota-PE) também disse ter se decepcionado com o ideólogo.

"Sempre fui um admirador do senhor Olavo de Carvalho. A partir do momento em que ele partiu para a baixaria contra os militares, principalmente contra uma figura como a do general Villas Bôas, eu deixei de ser um admirador, me decepcionei", afirmou.

Respeitado pela categoria, o ex-comandante do Exército general Eduardo Villas Bôas usou as redes sociais na segunda-feira (6) para para responder aos ataques feitos aos militares e se referiu a Olavo como "Trótski de direita".

 

Villas Bôas deixou o comando do Exército no início deste ano e passou a ocupar posto de assessor especial no GSI (Gabinete de Segurança Institucional). Nesta quarta (8), afirmou em evento em Brasília que o escritor participou de "praticamente todas as crises" da atual gestão.

"Praticamente todas as crises que nós vivemos desde que o presidente Bolsonaro assumiu têm a participação direta ou indireta do Olavo de Carvalho, que não contribui", disse.

O guru do bolsonarismo havia publicado nas redes que "altos oficiais militares" buscavam proteção "escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas." Villas Bôas sofre de grave mal degenerativo do neurônio motor e precisa de auxílio constante. Sua doença não afeta as faculdades mentais.

"Eu tenho ojeriza, pode usar essa palavra, aos procedimentos que ele [Olavo] está adotando. Todos os generais merecem respeito, acho um desrespeito muito grande com quem fez tanto pelo Brasil", prosseguiu Pastor Eurico.

Segundo ele, caso estivesse na posição de Bolsonaro, procuraria o silêncio ou apaziguar a situação. Em suas manifestações sobre a crise, o presidente da República nunca desautorizou Olavo, chegando a chamá-lo de "ícone".

Coordenador da bancada evangélica, o deputado Silas Câmara (PRB-AM) não quis se manifestar. A colegas tem dito que a situação é ruim para o governo.

Atualmente, a bancada tem se debruçado na Câmara na elaboração de um projeto de criminalização da homofobia que preserve pastores que preguem contra homossexuais nas igrejas. Há muita divergência interna, porém.

O projeto só está sendo debatido porque o STF (Supremo Tribunal Federal) começou a julgar no início do ano ações sobre o tema. O julgamento foi suspenso, mas já há quatro votos (dos 11 possíveis) a favor de que a homofobia seja considerada crime.

 
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.