Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Villas Bôas volta a criticar Olavo e diz que escritor é pivô de todas as crises

Ex-comandante do Exército já havia chamado ideólogo de 'Trótski de direita'

Angela Boldrini
Brasília

Ex-comandante do Exército e atual assessor do Palácio do Planalto, o general Eduardo Villas Bôas voltou a criticar Olavo de Carvalho, ideólogo do governo Jair Bolsonaro (PSL). Segundo o militar, o escritor participou de "praticamente todas as crises" da atual gestão. 

"Praticamente todas as crises que nós vivemos desde que o presidente Bolsonaro assumiu têm a participação direta ou indireta do Olavo de Carvalho, que não contribui", disse o militar a jornalistas, depois de acompanhar a fala do ministro Sergio Moro (Justiça) em uma comissão da Câmara. 

"Temos tantas questões importantes, e a gente fica dispersando energia com questões que absolutamente não contribuem para a solução dos problemas", completou o general nesta quarta (8). 

​Villas Bôas deixou o comando do Exército no início deste ano e passou a ocupar posto de assessor especial no GSI (Gabinete de Segurança Institucional).  

O general Villas Bôas durante sessão no Congresso - Adriano Machado/Reuters

As críticas de Olavo de Carvalho se repetem há semanas contra generais da reserva que integram o governo, com foco no vice-presidente, Hamilton Mourão, e no ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo).

Além disso, o escritor foi acompanhado nos ataques pelo filho de Bolsonaro responsável por suas redes sociais, o vereador carioca Carlos (PSC). Não houve um enquadramento incisivo deles pelo presidente.

Questionado nesta quarta-feira se a crise entre militares e a ala olavista seria permanente em seu governo, o presidente disse: "Não tem uma pergunta mais inteligente para fazer, não?" Bolsonaro também se negou a comentar a criação de dois novos ministérios.

Trótski de direita

No início desta semana, diante das críticas de Olavo, o Alto Comando do Exército deu seu recado a ele por meio de Villas Bôas. Na segunda-feira (6), o general da reserva criticou Olavo em sua conta no Twitter, o chamando de "Trótski de direita", em referência ao líder revolucionário soviético.

Isso ocorreu após o ministro Santos Cruz quase deixar o governo no fim de semana, após queixar-se com o presidente de campanha virtual de olavistas. Só que Bolsonaro dobrou a aposta na manhã de terça (7), postando também no Twitter um desagravo ao escritor, que chamou de "ícone".

"Continuo admirando o Olavo. Quanto aos desentendimentos ora públicos contra os militares, aos quais devo minha formação e admiração, espero que seja uma página virada", escreveu o presidente.

Horas antes, Olavo havia postado no Twitter uma frase que revoltou o alto oficialato. "Há coisas que nunca esperei ver, mas estou vendo. A pior delas foi altos oficiais militares, acossados por afirmações minhas que não conseguem contestar, irem buscar proteção escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas. Nem o [ex-presidente] Lula seria capaz de tamanha baixeza."

O doente em questão é o general Villas Bôas, que sofre de grave mal degenerativo do neurônio motor e precisa de auxílio constante. Sua doença não afeta as faculdades mentais.

A provocação não recebeu resposta pública, de acordo com o acertado entre os comandantes das três Forças em reunião que já havia sido marcada para esta terça.


Admiradores do escritor

Bolsonaro conheceu Olavo a partir de seus filhos. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos são admiradores do escritor.

Em março, durante a viagem presidencial aos EUA, Bolsonaro, Eduardo e Olavo estiveram em um jantar na residência oficial do embaixador do Brasil em Washington. Ao deixar o jantar, durante o qual foi homenageado por Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump , Olavo disse ter conversado apenas quatro vezes com Bolsonaro e afirmou que não sabia ao certo quais eram as ideias políticas dele. 

No início do mês, Bolsonaro concedeu ao escritor o mais alto grau da Ordem de Rio Branco, condecoração dada pelo governo do Brasil para "distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas, estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção."

Na terça-feira, em evento no Planalto, Bolsonaro defendeu o escritor. Disse que "o Olavo é dono do seu nariz". "Como eu sou do meu e você é do seu. Então, liberdade de expressão. Eu recebo críticas muito graves todo dia e não reclamo", disse.

"Inclusive, olha só. O pessoal fala muito em engolir sapo. Eu engulo sapo pela fosseta lacrimal e estou quieto aqui, OK?", disse (talvez o presidente estivesse se referindo a fossas lacrimais ou a fossas nasais, já que fosseta lacrimal é um órgão sensorial de algumas espécies de serpentes).

Já nesta quarta-feira, em evento com militares no Rio de Janeiro, afirmou que acredita nas Forças Armadas, mas defendeu que "cada um faça o seu papel".

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