Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

'Eu acredito nas Forças Armadas', diz Bolsonaro em meio a crise com militares

Presidente tem saído em defesa de escritor crítico ao núcleo militar do governo federal

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

O presidente Jair Bolsonaro aproveitou a cerimônia do Dia da Vitória na Segunda Guerra nesta quarta-feira (8), no Rio de Janeiro, para elogiar as Forças Armadas em meio ao conflito entre militares e a ala ideológica do governo. Ao mesmo tempo, porém, defendeu que "cada um faça o seu papel".

"Eu acredito nas Forças Armadas brasileiras. Nós acreditamos no povo brasileiro. E, juntos, poderemos fazer um Brasil diferente do que nos foi legado nos últimos anos. Porque nós, o povo, podemos sim comandar e cada um cumprir o seu papel tendo como norte simplesmente o exemplo", afirmou Bolsonaro, no evento no Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra, na zona sul do Rio de Janeiro.

"Esse é o nosso governo. Queremos sim, pelo exemplo governar o nosso Brasil e ao lado de pessoas de bem, patriotas que têm na alma as cores verde e amarela, colocar o Brasil no local de destaque que ele merece", declarou o presidente.

Bolsonaro discursa durante cerimônia no Rio de Janeiro - Mauro Pimentel/AFP

As críticas do escritor Olavo de Carvalho se repetem há semanas contra generais da reserva que integram o governo, com foco no vice-presidente, Hamilton Mourão, e no ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo).

Além disso, o escritor foi acompanhado nos ataques pelo filho de Bolsonaro responsável por suas redes sociais, o vereador carioca Carlos (PSC). Não houve um enquadramento incisivo deles pelo presidente.

Questionado nesta quarta se a crise entre militares e a ala olavista seria permanente em seu governo, o presidente disse: "Não tem uma pergunta mais inteligente para fazer, não?".

Bolsonaro também se negou a comentar a criação de dois novos ministérios.

O Alto Comando do Exército deu seu recado a Olavo por meio do ex-comandante Eduardo Villas Bôas. Na segunda-feira (6), o general da reserva criticou Olavo na sua conta no Twitter, o chamando de "Trótski de direita", em referência ao líder revolucionário soviético.

Isso ocorreu após Santos Cruz quase deixar o governo no fim de semana, após queixar-se com o presidente de campanha virtual de olavistas.

Só que Bolsonaro dobrou a aposta na manhã de terça (7), postando também no Twitter um desagravo ao escritor, que chamou de "ícone". "Continuo admirando o Olavo. Quanto aos desentendimentos ora públicos contra os militares, aos quais devo minha formação e admiração, espero que seja uma página virada", escreveu.

Horas antes, Olavo havia postado no Twitter uma frase que revoltou o alto oficialato. "Há coisas que nunca esperei ver, mas estou vendo. A pior delas foi altos oficiais militares, acossados por afirmações minhas que não conseguem contestar, irem buscar proteção escondendo-se por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas. Nem o [ex-presidente] Lula seria capaz de tamanha baixeza."

O doente em questão é Villas Bôas, que sofre de grave mal degenerativo do neurônio motor e precisa de auxílio constante. Sua doença não afeta as faculdades mentais.

A provocação não recebeu resposta pública, de acordo com o acertado entre os comandantes das três Forças em reunião que já havia sido marcada para esta terça.

Eles almoçaram com Bolsonaro e alguns ministros. O tema principal da conversa foi como executar o já anunciado e amargo contingenciamento de R$ 5,8 bilhões das despesas não-obrigatórias da Defesa deste ano —cerca de 44% do total para investimento e custeio, valor que costuma ser revertido ao longo do ano.

Segundo relatos, todos trataram de minimizar a troca de farpas. O escritor vocaliza críticas ao que considera simpatia pela esquerda por parte dos militares que integram o governo. Além de Carlos, outro filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo (PSL-SP), é muito próximo de Olavo.

No mesmo evento no Planalto, ele defendeu o escritor. Disse que "o Olavo é dono do seu nariz". "Como eu sou do meu e você é do seu. Então, liberdade de expressão. Eu recebo críticas muito graves todo dia e não reclamo", disse.

"Inclusive, olha só. O pessoal fala muito em engolir sapo. Eu engulo sapo pela fosseta lacrimal e estou quieto aqui, OK?", disse (talvez o presidente estivesse se referindo a fossas lacrimais ou a fossas nasais, já que fosseta lacrimal é um órgão sensorial de algumas espécies de serpentes).

 
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.