Descrição de chapéu

Marcha para Jesus tem divisor de águas com presidente 'messias'

A presença de um presidente trouxe a legitimação por quase três décadas aguardada por evangélicos

São Paulo

A 27ª edição da Marcha para Jesus, realizada nesta quinta-feira (20) de Corpus Christi em São Paulo, foi, de certa forma, um divisor de águas para evangélicos.

Com a presença, enfim, de um presidente da República entre eles, veio a legitimação por quase três décadas aguardada. Não à toa valorizam tanto o nome do meio de Jair Messias Bolsonaro.

O segmento sofreu por anos a síndrome do patinho feio. No ano da primeira Marcha, 1993, evangélicos eram menos de 10% da população brasileira. Sentiam-se perseguidos e pouco levados a sério.

Não estavam de todo errados. Àquela altura, sem sequer uma forcinha das redes sociais para amplificar sua mensagem, evangélicos não se viam representados na grande mídia —salvo raras exceções, como a Record de Edir Macedo ou spots na grade televisiva comprados por pastores.

Quando o eram, imperava a visão pejorativa sobre o segmento. Exemplos não faltam. Em 1995, Edson Celulari encarnou um pastor pilantra na minissérie da Globo “Decadência”

Jornais se recusavam a reconhecer os títulos que líderes evangélicos clamavam para si, colocando-os entre aspas: o “apóstolo” fulano, o “bispo” sicrano. Algo que jamais acontecia com o clero católico, reclamavam.

Como se o Vaticano decidir por um conclave de homens que alguém era papa fosse uma ordenação divina, mas uma igreja evangélica chamar seu chefe como preferisse simbolizasse a vaidade mundana. 

Telejornais se valiam de táticas como câmera escondida para expor líderes inescrupulosos que exploravam a boa-fé de seu rebanho. Era o caso de muitos? Claro. 

Mas a régua, segundo evangélicos, não era capaz de medir um meio tão plural, pulverizado em milhares de igrejas, sem um poder central como o da Cúria Romana. A mensagem era clara: se você é crente, o é ou por malandragem ou ingenuidade. 

Quando, tal qual o versículo bíblico, eles cresceram e multiplicaram-se, era como se tivessem surgido do nada. De onde veio aquela força capaz de mudar o rumo de uma eleição?

Como se um Sérgio Chapelin, o apresentador do Globo Repórter, narrasse o habitat de um grupo tido como exótico pelos demais: como vivem? Do que se alimentam? 

Mesmo anos depois, quando a Rede Globo despertou para a ascensão de um segmento que começou a ter peso no mercado, o tom ainda era visto como um tanto over. Vide a personagem Dolores Neiva, de “Avenida Brasil”, folhetim de 2012. 

Todos os outros personagens “conversam como se fossem os normais na história, enquanto ela grita e tenta convencer a todos que irão para o inferno”, apontou o evangélico Portal do Trono. Uma reclamação que viralizou no meio.

Hoje, evangélicos são 30% do Brasil, e as projeções apontam que crescerão ainda mais nos próximos anos, ora se aproximando, ora até superando os 50% de católicos no país (grupo que, por sua vez, míngua a cada ano).

E o que tem Jair Messias Bolsonaro a ver com isso? 

Naquele que construiu uma campanha em torno da máxima "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos",  boa parte dos evangélicos (sete em cada vez foram seus eleitores, segundo projeções) se viu finalmente espelhada. 

O presidente, um católico de berço, não raramente é confundido como evangélico. 

Marido e pai de crentes, Bolsonaro é música para ouvidos do grupo, ​como ao renovar, na edição deste ano, sua exaltação da “família tradicional”. Ou ainda: mimicar sua ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) ao dizer que o Estado pode até ser laico, mas ele é um presidente cristão —Damares já havia declarado a mesma coisa, com o adendo de que era “terrivelmente cristã”.

Em 2016, ano de eleições municipais, dizia o título de uma reportagem da Folha sobre o maior evento evangélico do país: “Políticos evitam aparecer em Marcha para Jesus”. Dois anos depois, vários candidatos, Bolsonaro inclusive, fizeram questão de dar uma passada.

Itamar Franco presidia o país quando a marcha pôs seu bloco na rua pela primeira vez. FHC, Lula, Dilma, Michel Temer: nenhum deles topou encará-la, o que Bolsonaro fez com desembaraço nesta quinta.

Evangélicos ainda são uma trincheira de popularidade para o presidente, por eles aclamado ao coro de “mito”. 

Os dois lados criaram, portanto, uma codependência: o mandatário que zela por suas bandeiras, e o grupo social que continua mais firme do que outros em sua defesa. Deus no controle, Bolsonaro no Planalto, e evangélicos, por fim, com a palavra. 

Fiéis na Marcha para Jesus, em São Paulo
Fiéis na Marcha para Jesus, em São Paulo - Eduardo Anizelli/ Folhapress
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