Em livro, FHC diz que se sentia como goleiro de Lula contra desconfiança internacional

Em quarto e último volume de diários, ex-presidente diz que se viu obrigado a defender adversário

Fábio Zanini
São Paulo

Um "goalkeeper", defendendo Lula das bolas que a comunidade internacional tentava lançar por baixo das suas pernas. 

Era assim que o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se sentia ao final de seu governo, em 2002, forçado a ser uma espécie de goleiro para seu ex-adversário contra a desconfiança de muitos, sobretudo estrangeiros.

Luiz Inácio Lula da Silva toma posse em substituição a Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 2003 - Lula Marques - 01.jan.2003/Folhapress

O relato consta do quarto e último volume dos "Diários da Presidência" (ed. Companhia das Letras), que será lançado em 21 de outubro.

"Eu, como um goalkeeper, tratando de defender as bolas que querem passar pelas pernas do Lula. Eu o estou defendendo o tempo todo, é do meu interesse que haja calma no Brasil [...] O Lula não é nenhum ferrabrás", afirma FHC, usando outro termo datado, que significa algo como valentão, inconsequente.

O volume cobre o biênio final de seu mandato (2001-02) e, a exemplo dos três anteriores, registra observações feita a quente pelo então presidente, geralmente gravadas ao final de dias extenuantes. 

O tema principal, obviamente, é a campanha que elegeu Lula, seguida por uma transição de poder vista na época como exemplar, mas que nada teve de tranquila.

O pano de fundo econômico, com dólar disparando, desconfiança internacional sobre o novo governo de esquerda e o ainda fresco acordo de US$ 30 bilhões assinado com o FMI, tornava tudo nebuloso.

FHC se converteu em defensor de Lula depois de meses tendo os mesmos temores que depois buscou dissipar. 

"Acho que a crise vem pela figura do Lula. Claro, eu vou atuar como presidente, vou fazer o possível para acalmar tudo isso e para haver uma transição pacífica e democrática, mas não podemos tapar o sol com a peneira."

"O Brasil está escolhendo um caminho na contramão do momento atual da história. Vejamos o que vai acontecer", registra FHC ainda antes da eleição, mas em um momento em que a vitória do petista já se mostrava iminente.

Para o tucano, Lula se mostrava um "despreparado", mas ainda pior que ele era o também candidato Ciro Gomes (PPS), um "destrambelhado". "Meu Deus do Céu, quem diria isso, a candidatura do PT dando mais segurança quanto ao futuro [do que a do Ciro]", exaspera-se.

Já José Serra (PSDB), embora contasse com sua torcida e fosse considerado por ele o mais apto a exercer a Presidência, ainda precisava se converter totalmente ao novo mundo da economia internacionalizada.

A metáfora escolhida, nesse caso, foi científica. "Acho que a visão dele [Serra] é a de quem ainda não fez totalmente a revolução copernicana ou, se quiserem, para falar em Galileu, ele ainda não falou 'Eppur si muove'".

A volatilidade econômica, com fuga de capitais e um ataque ao real, criava uma situação difícil para os tucanos. Grande parte da tensão era causada pelo próprio Lula, mas era o petista que ganhava discurso fácil com a deterioração da situação.

Os meses anteriores ao fechamento do acordo com o FMI foram de embate. Os petistas gritavam "Fora já, fora já daqui, o FHC e o FMI", mas o tucano é quem tinha de bater de frente com exigências vistas como impraticáveis. 

"O Fundo quer aumentar o esforço fiscal, que já está a 3,75% do PIB. Querem ir para 4,5%, é inviável", reclama. 

Num momento de desabafo, FHC chega a flertar com medidas heterodoxas que à época sua equipe econômica negava de forma veemente. Entre elas, a que despertava mais temores no mercado, a centralização do câmbio (controle do fluxo de dólares pelo Banco Central).

"Se não houver um apoio forte do Fundo, o que vai acontecer? O radicalismo será imediato, de todos. Vai ter uma saída: a centralização de câmbio, uma visão mais antiglobalizadora, mais nacional-estatismo, isso é automático. Estamos numa situação que não é de brincadeira. Precisamos de uma solução desse assunto com certa urgência", afirma.

O livro traz uma revelação importante: foi por sugestão do próprio diretor-geral do FMI, o alemão Horst Köhler, que FHC convidou os principais candidatos à Presidência para conversar sobre o acordo. O então presidente a princípio resistiu. 

"Köhler perguntou o que eu acho de falar com os três candidatos, o Serra e os outros. 'Em princípio tudo bem, mas', disse eu, 'como é que vou falar com alguém que ainda não é presidente?' Isso vai ser visto como uma espécie de uso do cargo antes da vitória. Não acho prudente", afirmou.

Mas FHC cedeu e, em 19 de agosto, recebeu os quatro principais candidatos, um de cada vez, num momento memorável da história das campanhas eleitorais brasileiras. 

Como relata o ex-presidente, Ciro chegou "tenso, muito tenso, com as mãos geladas e suadas". Lula foi "ultrassimpático" e tornou o ambiente descontraído. Já Anthony Garotinho foi um desastre, quase agressivo. "Entrou assobiando, com pouca educação", lembra FHC. Com Serra, ele tomou apenas um lanche. "Na chegada, todo mundo se queixou que ele [Serra] não cumprimentou os funcionários", diz.

A boa relação de FHC e Lula se estendeu para uma transição amistosa, em que o petista chegou a revelar nomes de seu ministério em primeira mão para o tucano. 

FHC ficou pouco impressionado com a equipe de seu sucessor, com exceção de alguns nomes, como Antônio Palocci para a Fazenda. Achou o time "adequado para os anos 1970, pouco apto a enfrentar os problemas e a realidade de hoje".

Mas guardou para si sua avaliação e não tocou no assunto num dos vários cafés e jantares que teve com Lula e sua mulher, Marisa, durante o período de transição. ​

O então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta Antonio Palocci, que seria seu primeiro ministro da Fazenda Filho, durante o período de transição
O então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta Antonio Palocci, que seria seu primeiro ministro da Fazenda Filho, durante o período de transição - Sérgio Lima - 27.dez.2002/Folhapress

Não foi apenas a situação interna que testou a fleuma de FHC durante seus últimos dois anos no poder. O volume cobre os atentados de 11 de setembro de 2001 e mostra o receio do então presidente de que as regras de convivência internacional fossem reescritas pelos EUA, o que de fato aconteceu.

"É possível que eles queiram refazer a agenda do mundo, mas não para o lado que eu desejo, que é, como eu disse ao [George] Bush, tentar abrir um espaço de negociação mais amplo no mundo. Eles estão aumentando a ação unilateral", registra, apenas três dias após os ataques.​

Da mesma forma, mantinha-se tenso um ano depois, quando Bush começou a dar sinais de uma invasão ao Iraque, o que de fato ocorreria no início de 2003.

"E me disse o Armínio [Fraga, presidente do BC] que a situação internacional é preocupante. De fato, ontem o Bush fez um discurso sobre o Iraque. Ele não foi muito claro, ameaçou, mas não cumpriu. O panorama mundial é ruim, é pesado, é difícil", afirma, em setembro de 2002.

Curiosa, vista com os olhos de hoje, é a relação de FHC com Hugo Chávez (morto em 2013), que chama a atenção pela cortesia. 

"O Hugo é amável, é caloroso comigo, e o Serra está atacando a Venezuela. Teve a gentileza de não tocar no assunto. Ele, claro, está feliz com a vitória do Lula. Mas tem sido comigo mais do que correto, amigo", diz.

FHC se queixa de reportagens da Folha no final de seu governo

A exemplo do que ocorreu nos três livros anteriores, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz uma série de críticas à imprensa no volume final de seus diários (2001-2002).

Há diversas queixas sobre a cobertura da Folha, sobretudo no caso do falso dossiê das Ilhas Cayman, um conjunto de documentos forjados que atribuía a existência de recursos não declarados de membros da cúpula tucana no paraíso fiscal do Caribe.

"O que a mídia tem feito nessa matéria é inacreditável, sobretudo a Folha", registra o tucano em março de 2001, comentando uma reportagem do jornal.

Sobre o mesmo assunto, FHC descreve um tenso jantar com o publisher da Folha Octavio Frias de Oliveira (morto em 2007).

"No final [Frias] disse que se magoou comigo porque, quando fiz um desabafo contra a Folha, disse que ela não tinha a hombridade de voltar atrás. É uma falta de escrúpulo, durante quase 32 meses, fazer de conta que os papéis eram verdadeiros! Não houve hombridade nenhuma! É inacreditável", afirma.

Em junho de 2002, numa conversa bem mais amistosa segundo o relato do tucano, Frias de Oliveira passa a FHC em primeira mão o resultado de uma pesquisa Datafolha que mostrava Lula caindo quatro pontos e Serra subindo quatro. "Eu estava no carro quando me telefonou o Frias, eufórico, para me dar esses dados", registra o tucano.

Há também reclamações pontuais sobre reportagens e textos de colunistas. "Clóvis [Rossi, morto em junho passado] acabou de publicar um artigo hoje bastante azedo contra mim, contra o governo e a favor do Serra. Enfim, o Clóvis é o Clóvis, nasceu de mau humor."

Em outro momento, FHC expressa preocupação com a saúde financeira dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo e faz menção de ajudá-los de alguma forma.

"Estou tentando ver se arranjo uma solução para esses jornais, eles estão mal de finanças. Esses jornais são instituições nacionais, é bom que sejam preservadas", afirma, sem detalhar que tipo de ajuda poderia ser dada pelo governo.

Diários da Presidência 2001-2002 (Volume 4)

  • Autor Fernando Henrique Cardoso
  • Editora Companhia das Letras
  • Preço sugerido R$ 129,90
  • Lançamento 21 de outubro
 
 
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