Bolsonaro amplia ameaça à Folha e diz que boicota produtos de anunciantes do jornal

Declaração ocorre um dia após cumprir promessa e excluir Folha de licitação da Presidência para assinatura de jornais

Brasília

O presidente Jair Bolsonaro ampliou as ameaças à Folha e disse nesta sexta (29) que boicota produtos de anunciantes do jornal. Ele ainda recomendou à população não comprá-lo. 

"Eu não quero ler a Folha mais. E ponto final. E nenhum ministro meu. Recomendo a todo Brasil aqui que não compre o jornal Folha de S.Paulo. Até eles aprenderem que tem uma passagem bíblica, a João 8:32 [E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará]. A imprensa tem a obrigação de publicar a verdade. Só isso. E os anunciantes que anunciam na Folha também." 

"Qualquer anúncio que faz na Folha de S.Paulo eu não compro aquele produto e ponto final. Eu quero imprensa livre, independente, mas, acima de tudo, que fale a verdade. Estou pedindo muito?", disse, em entrevista na porta do Palácio do Alvorada, diante de um grupo de apoiadores.

A declaração foi dada após a reportagem questionar Bolsonaro sobre a decisão da Presidência de excluir o jornal da relação de veículos nacionais e internacionais exigidos em um processo de licitação para fornecimento de acesso digital ao noticiário da imprensa.

Ao ser indagado se estaria defendendo um boicote à Folha, ele respondeu: "Já dei o meu recado". 

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira - 25.nov.19/Folhapress

"Sobre a ameaça do presidente aos anunciantes da Folha, trata-se de mais um capítulo na escalada contra a imprensa. O jornal vai continuar exercendo sua atividade de modo independente e imparcial, que é o que garante sua credibilidade", afirma Taís Gasparian, advogada da Folha.

Edital de pregão eletrônico publicado nesta quinta-feira (28) no "Diário Oficial da União" prevê a contratação por um ano, prorrogável por mais cinco, de uma empresa especializada em oferecer a assinatura dos veículos de imprensa à Presidência.

A lista cita 24 jornais e 10 revistas. A Folha não é mencionada. O pregão eletrônico, marcado para 10 de dezembro, tem um valor total estimado de R$ 194 mil: R$ 131 mil para jornais e R$ 63 mil para revistas.

"Olha, a Folha de S.Paulo não serve nem para forrar aí o galinheiro. Olha só, eu estou deixando de gastar dinheiro público", disse o presidente na mesma entrevista, na manhã desta sexta-feira.

À noite, em sua conta em rede social, Bolsonaro voltou a atacar o jornal, publicando vídeo com suas declarações.

O edital da Presidência prevê, por exemplo, 438 assinaturas de jornais, sendo 74 de O Globo e 73 de O Estado de S. Paulo. Em relação às revistas, a exigência é de 44 acessos digitais à Veja, 44 à IstoÉ, além de 14 à Carta Capital. Também estão no edital veículos internacionais, como o The New York Times e o El País.

"O governo federal age contra os princípios da moralidade e impessoalidade que devem nortear a administração pública. Com a atitude, agride toda a imprensa brasileira, e não apenas a Folha", diz Taís Gasparian, advogada da Folha.

Procurada pela reportagem, a Presidência da República ainda não informou o motivo da ausência do jornal no processo de licitação e o critério técnico adotado.

Nesta quinta (28), quando questionado sobre o assunto pela primeira fez, Bolsonaro disse: “Eu quero pedir à Folha que retrate todos os males e calúnias que fez contra a minha pessoa.”

Já nas declarações desta sexta, o presidente mencionou ainda a medida provisória editada por ele que acaba com a obrigação de empresas publicarem seus balanços em veículos impressos. A MP foi derrotada em uma comissão da Câmara.

"Infelizmente, a medida provisória está no caminho do arquivo. Não é perseguição à imprensa, é modernidade. É a mesma coisa se tivesse algo obrigando vocês a terem datilógrafo na redação de vocês", afirmou Bolsonaro.

Ainda nesta sexta, o presidente voltou a distorcer o episódio da assessora fantasma revelada pela Folha em janeiro de 2018. O jornal mostrou que, como deputado federal, Bolsonaro usou dinheiro da Câmara dos Deputados para pagar o salário da assessora Walderice Santos da Conceição, que vendia açaí na praia e prestava serviços particulares a ele em Angra dos Reis (RJ), onde tem casa de veraneio.

Fachada da loja de açaí de Walderice Santos da Conceição, 49, em Mambucaba, Rio de Janeiro
Fachada da loja de açaí de Walderice Santos da Conceição, 49, em Mambucaba, Rio de Janeiro - Lucas Landau - 2.mai.2018/Folhapress

​​Bolsonaro repetiu a versão de que ela estava de férias quando o jornal visitou o local pela primeira vez.

"Ela entrou de férias dia 21 de dezembro até 20 de janeiro. Ela estava de férias e podia fazer o que bem entendesse da vida dela. Eu estou acostumado a levar pancada e sofrer calúnia por grande parte da imprensa, mas tiveram a reputação dessa senhora casada destruída. Vítima de chacota na região."

"A Folha de S.Paulo fez isso com essa mulher. A prova estava dada para vocês. Estava de férias. Por que não voltam atrás? Que imprensa é essa? Que Folha de S.Paulo é essa? Que moral tem a Folha para me questionar", disse.

A Folha esteve na pequena Vila Histórica de Mambucaba em duas oportunidades.

A primeira foi em 11 de janeiro, durante o recesso parlamentar. Na ocasião, a reportagem ouviu de diversos moradores, em conversas gravadas, que Walderice não tinha ligação com a política, prestava serviços na casa do parlamentar e tinha como atividade principal a venda de açaí e cupuaçu, em uma loja que inclusive leva o seu nome, “Wal Açaí”.

Na segunda oportunidade, em 13 agosto, a Folha retornou à vila e comprou das mãos de Walderice um açaí e um cupuaçu, em horário de expediente da Câmara. 

 
 

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