Relembre série de ataques de Bolsonaro à Folha desde a campanha eleitoral de 2018

Além de ofender reporteres do jornal, presidente já disse que "o certo é tirar de circulação"

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Desde a campanha eleitoral que antecedeu a eleição de 2018, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem promovido uma série de ataques à Folha, o que inclui insinuação sexual contra a repórter do jornal Patrícia Campos Mello —o chefe do Executivo foi condenado a indenizar a jornalista por danos morais.

Em outro exemplo de ataque, o presidente já afirmou que "o certo é tirar de circulação" veículos como a Folha, O Globo, O Estado de S. Paulo e o site O Antagonista.

Ao ser questionado por jornalistas sobre assuntos que considera incomodos, Bolsonaro costuma ofender os profissionais e os veículos de imprensa, como ocorreu em maio de 2020 quando o presidente mandou repórteres calarem a boca ao ser indagado sobre mudanças na Polícia Federal.

Bolsonaro, na mesma ocasião, ainda atacou a Folha, chamando o jornal de "canalha", "patife" e "mentiroso".

Naquele dia, em declaração no Palácio da Alvorada, Bolsonaro mostrou uma imagem que reproduzia a manchete da edição imprensa da Folha e, referindo-se à manchete "Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro", disse que não interferiu na corporação.

"Que imprensa canalha a Folha de S.Paulo. Canalha é elogio para a Folha de S.Paulo. O atual superintendente do Rio de Janeiro, que o [ex-ministro Sergio] Moro disse que eu quero trocar por questões familiares."

Relembre alguns desses casos, desde a campanha eleitoral de 2018.

Com a manchete da Folha na mão, Bolsonaro manda jornalista calar a boca
Com a manchete da Folha na mão, Bolsonaro manda jornalista calar a boca - Pedro Ladeira/Folhapress

PASSADO MILITAR

Em 2017, mais de um ano antes da campanha eleitoral, Bolsonaro, ao ser procurado por telefone para comentar reportagem sobre detalhes de sua trajetória no Exército, disse: "Vá catar coquinho, Folha de S.Paulo. Vocês estão recebendo de quem para fazer matéria? Estão recebendo de quem para me perseguir?". Adiante, afirmou: "Publica essa porra de novo agora sem falar comigo. Eu só falo com vocês gravando."

Dias depois, o então deputado gravou entrevista concedida ao repórter Rubens Valente na qual diz ao jornalista: "Você é um escroto! Você é um escroto!". O vídeo foi publicado pelo hoje presidente em seu canal no Youtube.

Também em 2017, Bolsonaro publicou em rede social artigo do colunista Contardo Calligaris, que mencionava declarações do então pré-candidato sobre mulheres, e acrescentou um comentário: "Folha de São Paulo, vocês são a fakenews mais canalha e covarde que existe!"

MAIOR FAKE NEWS

Uma semana antes do segundo turno da eleição de 2018, no dia 21 de outubro, Bolsonaro pediu aos seus apoiadores, em vídeo ao vivo exibido em telões na avenida Paulista, que "participem das eleições ativamente", de forma democrática e "sem mentiras, sem fake news, sem Folha de S.Paulo".

"A Folha de S.Paulo é a maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo", afirmou ao público, sob gritos da plateia. "Imprensa vendida, meus pêsames."

Apesar dessa fala, ele afirmou que apoia a imprensa livre, "mas com responsabilidade".

JORNAL SE ACABOU

Em outubro de 2018, em entrevista ao Jornal Nacional, o então presidente eleito afirmou que “por si só, esse jornal se acabou”.

“Não quero que [a Folha] acabe. Mas, no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal”. O presidente eleito, depois, completou: “Por si só esse jornal se acabou”.

PROFUNDEZAS DO ESGOTO

Em outubro de 2019, o presidente afirmou que a Folha "avançou todos os limites" e desceu "às profundezas do esgoto" ao publicar reportagem sobre possível uso de caixa dois na campanha dele à Presidência e do então ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, ambos do PSL.

"A Folha de S.Paulo avançou a todos os limites, transformou-se num panfleto ordinário às causas dos canalhas", afirmou Bolsonaro em suas redes sociais. "Com mentiras, já habituais, conseguiram descer às profundezas do esgoto", disse. Na mensagem, o presidente reproduz parte da primeira página do jornal.

ASSINATURAS

Também em 2019, seu primeiro ano de governo, Bolsonaro disse ter determinado o cancelamento de todas as assinaturas da Folha no governo federal.

"Determinei que todo o governo federal rescinda e cancele a assinatura da Folha de S.Paulo. A ordem que eu dei [é que] nenhum órgão do meu governo vai receber o jornal Folha de S.Paulo aqui em Brasília. Está determinado. É o que eu posso fazer, mas nada além disso", disse, em entrevista à TV Bandeirantes.

"Espero que não me acusem de censura. Está certo? Quem quiser comprar a Folha de S.Paulo, ninguém vai ser punido, o assessor dele vai lá na banca e compra lá e se divirta. Eu não quero mais saber da Folha de S.Paulo, que envenena o meu governo a leitura da Folha de S.Paulo."

ANUNCIANTES

No mesmo dia em que anunciou o cancelamentos das assinaturas da Folha, em tom de ameaça, o presidente também disse que os anunciantes do jornal "devem prestar atenção".

"Não vamos mais gastar dinheiro com esse tipo de jornal. E quem anuncia na Folha de S.Paulo presta atenção, está certo?", disse.

BOICOTE

Em 2019, o presidente ampliou as ameaças à Folha e disse que boicota produtos de anunciantes do jornal. Ele ainda recomendou à população não comprá-lo.

"Eu não quero ler a Folha mais. E ponto final. E nenhum ministro meu. Recomendo a todo Brasil aqui que não compre o jornal Folha de S.Paulo. Até eles aprenderem que tem uma passagem bíblica, a João 8:32. A imprensa tem a obrigação de publicar a verdade. Só isso. E os anunciantes que anunciam na Folha também."

"Qualquer anúncio que faz na Folha de S.Paulo eu não compro aquele produto e ponto final. Eu quero imprensa livre, independente, mas, acima de tudo, que fale a verdade. Estou pedindo muito?", disse, em entrevista na porta do Palácio do Alvorada, diante de um grupo de apoiadores.

O presidente Jair Bolsonaro, em evento no Palácio do Planalto
O presidente Jair Bolsonaro, em evento no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira/Folhapress,

PRESIDENTE MANDA REPÓRTER CALAR A BOCA

Bolsonaro voltou a atacar a Folha em janeiro de 2020 após o jornal revelar que Fabio Wajngarten, então chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência), recebia, por meio de uma empresa da qual é sócio, dinheiro de emissoras televisivas e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria, ministérios e estatais do governo Bolsonaro.

"Fora, Folha de S.Paulo, você não tem moral para perguntar, não", afirmou, pedindo que outros repórteres fizessem perguntas. "Cala a boca", disse à reportagem.

Na ocasião, o presidente voltou a distorcer o episódio da assessora fantasma revelado pela Folha em janeiro de 2018.

O jornal mostrou que, como deputado federal, Bolsonaro usou dinheiro da Câmara dos Deputados para pagar o salário da assessora Walderice Santos da Conceição, que vendia açaí na praia e prestava serviços particulares a ele em Angra dos Reis (RJ), onde tem casa de veraneio.

Bolsonaro repetiu a versão de que ela estava de férias quando o jornal visitou o local pela primeira vez.

"Eu quero ver quando a Folha de S.Paulo vai desfazer a covardia que vocês fizeram com a Wal do Açai, de Angra dos Reis. Quando a Folha de S.Paulo vai fazer uma matéria desfazendo a covardia com a Wal lá de Mambucaba? Porque quando vocês falaram que ela estava fazendo açaí, ela estava de férias, conforme boletim legislativo da Câmara. Então a Folha de S.Paulo não tem crédito para acusar ninguém, não tem credibilidade. Lamentavelmente uma péssima imprensa o que faz a Folha de S.Paulo. Outra pergunta aí", disse.

INSULTO A REPÓRTER

Em fevereiro de 2020, Bolsonaro insultou com insinuação sexual a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha.

A declaração do presidente, em entrevista, foi uma referência ao depoimento de um ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, dado à CPMI das Fake News no Congresso.

O depoimento à comissão foi de Hans River do Rio Nascimento, que trabalhou para a Yacows, empresa especializada em marketing digital, durante a campanha eleitoral de 2018.

Sem apresentar provas, Hans afirmou que Patrícia queria “um determinado tipo de matéria a troco de sexo”, declaração reproduzida em seguida por Eduardo Bolsonaro nas redes sociais.

Bolsonaro falou sobre o caso. "Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim [risos dele e dos demais]. Lá em 2018 ele [Hans] já dizia que ele chegava e ia perguntando: 'O Bolsonaro pagou pra você divulgar pelo Whatsapp informações?' E outra, se você fez fake news contra o PT, menos com menos dá mais na matemática, se eu for mentir contra o PT, eu tô falando bem, porque o PT só fez besteira."

Em março de 2021, Bolsonaro foi condenado a indenizar Patrícia Campos Mello em R$ 20 mil por danos morais.

A decisão foi da juíza Inah de Lemos e Silva Machado, da 19ª Vara Civil de São Paulo. Ela determinou ainda que o presidente pague as custas processuais e honorários advocatícios no valor de 10% da condenação. Cabe recurso.

A magistrada considerou que Bolsonaro violou "a honra da autora, causando-lhe dano moral, devendo, portanto, ser responsabilizado".

Antes disso, em janeiro de 2021, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também foi condenado a indenizar a jornalista Patrícia Campos Mello por danos morais.

OUTROS ATAQUES

Em março de 2020, durante uma entrevista à Rádio Bandeirantes, o presidente fez ataques à imprensa, citando diretamente a Folha.

"Imprensa mentirosa. Em especial Folha de S.Paulo, um lixo de imprensa, um lixo de imprensa. Tem dia que tem 20 matérias contra mim ali. Nenhuma falando a verdade. É o tempo todo em cima dessa desinformação. E daí o jornal Folha publica, todo mundo replica, todo mundo replica", afirmou.

Na entrevista à rádio, Bolsonaro foi questionado sobre prazo dado ao ministro Paulo Guedes (Economia) para aprovar as reformas econômicas que são o carro-chefe do governo. Ele afirmou que o ministro tem "100% de apoio do presidente".

"[É] mentira [sobre o prazo] de uma imprensa sem moral. Já desacreditada pela opinião pública fazendo essas fake news o tempo todo."

No dia 5 de maio de 2020, o presidente mandou repórteres calarem a boca quando foi questionado sobre as recentes mudanças na Polícia Federal. Bolsonaro ainda atacou a Folha, chamando o jornal de "canalha", "patife" e "mentiroso".

Em declaração pela manhã em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro mostrou uma imagem que reproduzia a manchete da edição imprensa da Folha e, referindo-se à manchete "Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro", disse que não interferiu na corporação.

"Que imprensa canalha a Folha de S.Paulo. Canalha é elogio para a Folha de S.Paulo. O atual superintendente do Rio de Janeiro, que o [ex-ministro Sergio] Moro disse que eu quero trocar por questões familiares."

INTIMAÇÃO CONTRA COLUNISTA DA FOLHA

O colunista da Folha Hélio Schwartsman foi intimado, em agosto de 2020, a depor em inquérito da Polícia Federal aberto para investigá-lo por determinação do então ministro André Mendonça (Justiça).

O inquérito, instaurado com base na Lei de Segurança Nacional, tinha como objetivo investigar o texto de opinião "Por que torço para que Bolsonaro morra", assinado por Schwartsman e publicado em julho pela Folha após o presidente Jair Bolsonaro anunciar que havia contraído o novo coronavírus.

Em nota, à época, a Folha afirmou que "o colunista emitiu uma opinião; pode-se criticá-la, mas não investigá-la".

Sobre a convocação de Schwartsman, o advogado Luís Francisco de Carvalho Filho, que representa o jornal, disse que “este inquérito é mais um desvio autoritário do governo Bolsonaro, avesso à Constituição e à liberdade de expressão".

Na época, a Associação Nacional de Jornais criticou a intimação de Schwartsman, classificando de “descabida qualquer investigação policial sobre opiniões publicadas na imprensa”.

A Folha recorreu ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) pedindo a suspensão do inquérito da Polícia Federal

TIRAR DE CIRCULAÇÃO

Em 15 de fevereiro deste ano, Bolsonaro criticou o Facebook e defendeu o aumento da tributação das redes sociais no Brasil. Em mais uma reclamação contra as políticas das mídias sociais contra a disseminação de notícias falsas, o mandatário disse que "o certo é tirar de circulação" veículos como a Folha, O Globo, O Estado de S. Paulo e o site O Antagonista".

"Com todo respeito [...] eu sou qualquer um do povo: proibir anexar imagens a título de proteger fake news. O certo é tirar de circulação —não vou fazer isso, porque sou democrata— tirar de circulação Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, [O] Antagonista, [que] são fábricas de fake news", disse o presidente em vídeo transmitido numa rede social de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

'RESOLVO PROBLEMA DO VÍRUS EM MINUTOS'

No dia 6 de abril de 2021, ao interagir com seus apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada, Bolsonaro ignorou as mais de 4.000 mortes por Covid-19 em 24 horas ocorridas na data, ironizou o título de genocida usado contra ele por seus opositores e voltou a atacar o jornal.

"Eu resolvo o problema do vírus em poucos minutos. É só pagar o que os governos pagavam no passado para Globo, para Folha, O Estado de S. Paulo. Agora, este dinheiro não é para a imprensa, é para outras coisas", afirmou.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.