'Paneleiros' anti-Bolsonaro usam ato para extravasar em meio a quarentena

Nova temporada de panelaços agita sacadas favoráveis e contrárias a presidente em tempos de confinamento

São Paulo

Os instrumentos começam a ser afinados depois das 20h. Uma batidinha aqui, uma cornetada ali. Logo se percebe o vaivém e o pisca-pisca de luzes em janelas e sacadas dos edifícios. Entre as 20h20 e 20h30, o alarido atinge o ápice: em uma espécie de catarse coletiva, as pessoas dão vazão aos sentimentos reprimidos durante o período de confinamento imposto pela necessidade de conter a disseminação do novo coronavírus.

Em meio à parafernália de panelas, buzinas, apitos e vuvuzelas, gritos expressam a polarização. De um lado —diga-se, bem mais sonoro—, "Fora, Bolsonaro genocida", "Bolsonaro vai cair", "Fora, atleta da morte" e "Bolsonaro irresponsável".

Do outro, "Mito", "Vai pra Venezuela", "Vai pra Cuba", "Vai trabalhar, vagabundo". Não para por aí. Brados em quantidade menor, embora mais radicais, exaltam a intervenção militar e a volta do AI-5, acompanhados de frases contra minorias.

Está aberta a nova temporada do panelaço.

Morador de Higienópolis, em São Paulo, durante panelaço no último dia 18
Morador de Higienópolis, em São Paulo, durante panelaço no último dia 18 - Marlene Bergamo/Folhapress

Enclausurado por causa de medidas restritivas de combate à pandemia, Tarcisio D'Almeida, 47, professor do curso de design de moda da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), tem adotado um ritual antes, durante e depois do panelaço.

Ao som de "O Canto da Cidade", canção em que Daniela Mercury entoa os versos "A cor dessa cidade sou eu/ O canto dessa cidade é meu", D'Almeida transformou a bateção de panelas num Carnaval temporão.
Festivo, coloca brincos e vai para a sacada do prédio onde fica quando está em São Paulo, na avenida São João, no centro, para gritar frases contra Jair Bolsonaro.

"É, antes de mais nada, uma manifestação de repúdio a esse desgoverno", avisa ele, eleitor do PT.

"A música e os adereços me ajudam a extravasar." Durante o panelaço, grava vídeos das manifestações na vizinhança. Dança, grita e, de novo, bate panela. No fim, corre para acompanhar a repercussão em redes sociais e na imprensa.

"Tem um ou outro que manda a gente calar a boca, tomar no c., essas grosserias de quem não tem argumento. Não há dúvida de que Bolsonaro está cada vez mais isolado. Principalmente depois do pronunciamento de terça [24], quando foi na contramão de órgãos de saúde e da tendência mundial de combate ao coronavírus", afirma D'Almeida. "O barulho só vai aumentar."

Quem dá início à barulheira é sempre o pessoal da esquerda, diz a professora de educação física Valéria Baub Santos, 55. "Depois entra a direita, mas logo a esquerda grita mais forte", diz, referindo-se aos panelaços na Vila Mariana, bairro onde vive, na zona sul de São Paulo. A voz dela, não nega, tem sido dissonante.

"Grito 'gente, vamos parar com isso. O coronavírus está acima de identidade política'", conta. "Cada um deveria colocar seu bichinho de estimação [referência aos candidatos] no bolso até a eleição. Vamos bater palmas para os profissionais de saúde, cantar nas janelas ou até mesmo fazer exercícios", sugere.

Reação à conduta do presidente de minimizar a epidemia, os panelaços começaram na terça-feira (17), dois dias após Bolsonaro participar de ato pró-governo em Brasília, contrariando recomendação do Ministério da Saúde para evitar aglomerações. Como a Folha mostrou, o centro se uniu à esquerda nesse movimento nas redes sociais.

Eleitora de Bolsonaro, Valéria hoje se diz crítica ao comportamento do presidente, mas segue apoiando seus ministros. Sobre os panelaços, diz ela: "Não é hora para isso. Deveríamos dar uma trégua".

Na avaliação do psicanalista e filósofo Fabiano de Abreu, 38, que divide seu tempo entre o Brasil e Portugal, "as panelas fazem um barulho alto, é um grito em silêncio que não identifica rostos a se manifestarem". Diz mais: "Existe o receio, um pequeno medo instalado a partir de uma incógnita. Estamos vivendo dois receios: o do perigo da doença e o econômico".

Negra, moradora da periferia, Nádia Martins, 42, teme os dois. Adotou um processo de mentalização na hora do seu panelaço: deixa separada uma faca de 40 centímetros. Vai até a cozinha da casa, no bairro de Vila Nova Cachoeirinha, zona norte, pega uma panela velha e começa a bater num ritmo frenético.

"Penso só em coisas boas", conta ela, que é formada em administração de empresas. "Sou da paz. Escolhi a faca porque ela é um instrumento que simboliza a luta, o rompimento. É uma metáfora do corte, do fim. Tipo 'Acabou, Bolsonaro'", explica.

Nádia vê nas manifestações em tempos de confinamento uma maneira também de se socializar. "São como sinais dos tambores. As pessoas estão começando a ter consciência, principalmente depois do discurso do presidente Jair Bolsonaro contra o isolamento. A batida ecoou pela sociedade e nos faz refletir."

O empresário Rui Teixeira, 59, pensa de outro modo. Para ele, o panelaço "virou uma guerrinha". "Tem 'Fora, Globo', 'Viva Bolsonaro', 'Fora, Bolsonaro'', 'Enfia a panela no c.', 'Vai dormir'", lembra Teixeira, que encontra seu espaço cativo na sacada ao gritar "Para com essa merda, panela não foi feita para isso".

Segundo ele, na rua onde mora, a Oscar Freire, nos Jardins, um dos bairros elegantes da capital paulista, o panelaço começou no último dia 19. Eleitor de Bolsonaro no segundo turno, Teixeira acredita que a população brasileira deva apoiar o presidente, ainda mais neste momento crítico.

Ele diz ter participado de duas passeatas contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), na avenida Paulista, em 2016. Nega, contudo, que tenha amassado alguma panela durante os protestos.

Além de reconhecer que o presidente se expressa mal, não endossa a sua opinião sobre o fim do confinamento. Sabe que o eixo das coisas ainda está se movendo de forma imprevisível, mas avisa: "Estou segurando o emprego de todos os nossos colaboradores".

Teixeira conta que há sempre quatro ou cinco vizinhos nos Jardins que dão início à bateção de panelas e desencadeiam "o estouro da boiada". Agem, diz ele, como um abre-alas de escola de samba.

Apesar de legítimo, avalia o empresário, o panelaço está sendo forjado. "Tem gente usando aplicativos e caixas de som para reproduzir essa algazarra", afirma. "Será que esse barulho todo é verdadeiro?"

Para Jorge Forbes, escritor e psicanalista, em tempos de pandemia não temos mais as bandeiras de lutas anteriores. "As pessoas se manifestam dentro da sua diversidade e não mais rumo à unicidade", explica.

"No isolamento, a sensação de estarmos juntos, afinando os instrumentos da orquestra, é mais importante do que aplaudir ou repudiar o poder de um político. Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outro valor maior alto se alevanta!"

O estardalhaço tem incomodado paulistanos por outros motivos. Calmo, quase zen, apaixonado por plantas, o aposentado Sadatomo Sugino, 76, morador de Higienópolis, região central, anda saindo do sério nos dias em que panelas têm falado mais alto. "É muito barulho para não dar em nada. Só enche o saco."

"Estou enlouquecendo com essa bateção de panela, vuvuzela, apito, gritaria, palavrões, tudo isso me tira do prumo. E bem na hora de eu assistir ao Jornal Nacional", comenta.

"Quer tirar o Bolsonaro? Vai lá em Brasília, pressiona os políticos em quem você votou. Não sou favorável nem contra esse governo. O que não suporto, mesmo, é essa algazarra toda."

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