Doença de Bolsonaro impõe nova rotina ao governo, com testes e despachos a distância

No Palácio da Alvorada, presidente foi recomendado a manter distância segura de familiares que ainda não receberam resultado de exame para coronavírus

Brasília

Palcos de reuniões com pessoas sem máscaras que conversavam e se abraçavam como se tudo estivesse normal, os Palácios do Planalto e da Alvorada terão nova rotina diante do resultado do exame que indicou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está infectado pelo novo coronavírus.

A negligência deu lugar à cautela. Ainda na segunda-feira (6), quando estava com febre e, então, resolveu fazer exames, Bolsonaro cancelou a reunião ministerial que teria na manhã de terça (7) e procurou ficar mais afastado dos apoiadores que o aguardavam no Palácio da Alvorada, residência oficial.

Apesar do risco, foi o próprio Bolsonaro quem informou a jornalistas que tinha Covid-19. Em determinado momento, chegou a tirar a máscara, o que obrigou que EBC, CNN Brasil e Record afastassem temporariamente as equipes que cobriram o anúncio da doença.

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Funcionário higieniza gabinete de Bolsonaro após presidente afirmar que está com coronavírus - Secretaria-Geral/Divulgação

A Secretaria-Geral da Presidência informou que, diante da situação de Bolsonaro, o ministro Jorge Oliveira despacharia remotamente com o presidente. Oliveira encaminhou por e-mail documentos para o chefe do Executivo. As pautas foram discutidas por videoconferência e os atos foram assinados digitalmente.

A única agenda prevista desde o dia anterior era uma conversa com o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos.

A reunião foi por teleconferência e durou cerca de meia hora, como já era previsto. Ramos, um dos ministros que teve reunião com Bolsonaro na segunda-feira e cujo teste rápido deu negativo para Covid-19, recebeu pessoalmente dois parlamentares, um deles mesmo depois da confirmação do resultado de Bolsonaro.

Ramos, assim como o ministro Walter Braga Netto (Casa Civil) foram aconselhados a priorizar chamadas por vídeo, mesmo tendo testado negativo para o novo coronavírus.

De acordo com dados divulgados em um comunicado da Secretaria-Geral, até sexta-feira passada, do total de quase 3.400 servidores da Presidência da República, existiam 108 casos positivos de Covid-19 (3,8%), com 77 já recuperados e 31 casos em acompanhamento. Não houve mortes e mais de 90% desses casos foram assintomáticos ou apresentaram apenas sintomas leves.

A pasta informou que orientações médicas têm sido divulgadas aos servidores da Presidência e que há 494 dispensadores de álcool em gel espalhados pelas dependências da sede do Executivo.

Segundo a nota, a limpeza de áreas comuns foi intensificada, especialmente dos banheiros e das salas dos servidores. A Secretaria-Geral afirma que são utilizados produtos a base de cloro e álcool, além de equipamentos especiais para carpete, melhorando, de acordo com o ministério, o aproveitamento dos insumos de higienização e permitindo menor intervenção humana no processo de limpeza.

"Não há protocolo médico, seja do Ministério da Saúde ou da OMS [Organização Mundial da Saúde] que recomende medida de isolamento pelo simples contato com casos positivos. A orientação que damos aos servidores é procurar assistência médica quando apresentarem sintomas relacionados à Covid-19, para avaliar necessidade de testagem. Nos casos considerados suspeitos, os servidores são orientados a ficar em casa até o resultado do exame", diz o comunicado.

Desde o início da pandemia, há servidores trabalhando de casa. De acordo com o governo, são 1.500 nesta situação, e não há previsão ou orientação para que voltem ao trabalho presencial.

No Palácio da Alvorada, Bolsonaro foi recomendado, de acordo com assessores, a manter distância segura de familiares que ainda não receberam o resultado do exame, como a primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

​Motoristas, seguranças, assessores e garçons começaram a ser testados nesta terça. Ao todo, 107 funcionários trabalham na residência oficial, mas o Executivo não divulgou quantos serão submetidos a exames.

A equipe do presidente ainda avalia se realizará entrevistas no Palácio do Planalto nesta semana. Com alguma frequência, técnicos do Ministério da Saúde prestam esclarecimentos sobre a atuação do governo frente à pandemia.

Por causa do resultado do exame de Bolsonaro, ele cancelou uma viagem que faria na sexta-feira (10) à Bahia.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro vinha ignorando orientações da OMS, do Ministério da Saúde e de outras autoridades sanitárias sobre como minimizar a transmissão do vírus. Era comum ver o presidente sem máscara em locais públicos e privados e provocando aglomerações.

Há relatos de constrangimento em recentes cerimônias em que Bolsonaro ignorou práticas preventivas. Em abril, durante um evento em Porto Alegre, o presidente estendeu a mão a dois militares, mas foi cumprimentado com um toque com o cotovelo, como recomendado pelos especialistas para evitar o contágio do novo coronavírus.

Mais recentemente, um embaixador, sob reserva, se disse constrangido no momento da apresentação de suas credenciais. Ao entrar no gabinete de Bolsonaro, o diplomata afirmou ter encontrado apenas o tradutor usando máscara, o que fez com que se sentisse na obrigação de guardar seu equipamento de proteção.

Já no sábado (4), participou de um almoço promovido pelo embaixador dos Estados Unidos, Todd Chapman, em que todos apareceram em fotos sem máscaras. A embaixada norte-americana informou que Chapman e sua esposa testaram negativo, mas permanecerão em casa em quarentena​.

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