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Eleições 2020 datafolha

Pesquisas Datafolha revelam cenário antes do início do horário eleitoral na TV e no rádio

Nomes já conhecidos largam com vantagem, como se observa em São Paulo, no Rio, em BH e no Recife

Alessandro Janoni

Diretor de Pesquisas do Datafolha

Os números divulgados nesta quinta-feira (8) pelo Datafolha refletem a primeira volta de uma corrida que, cada vez mais, se define na última curva.

Tanto nos pleitos presidenciais de 2014 e 2018 quanto nos municipais de 2016, boa parte dos eleitores —média de 1 em cada 4, segundo levantamentos do Datafolha— escolheu seu candidato apenas a uma semana da eleição.

Neste início de campanha, nomes com recall levam vantagem. A partir de agora, com o início do horário eleitoral nesta sexta-feira (9), intensificação de noticiário e debates, o repertório do eleitor recebe a influência de outras variáveis, e novos atores tornam-se conhecidos. Sobre essa imagem, a população deposita atributos e expectativas.

Em São Paulo, com pouco mais de uma semana de campanha e o primeiro debate transmitido pela TV, já se percebe crescimento do interesse pela eleição, maior conhecimento dos candidatos e oscilações nas curvas de intenção de voto, que, se mantidas nas próximas pesquisas, podem projetar mudanças ao longo do processo, como em anos anteriores.

Com variação negativa, Celso Russomanno (Republicanos) vê sua distância diminuir para Bruno Covas (PSDB), em um empate técnico no limite da margem de erro. O deputado federal mantém apoio em estratos do eleitorado de alto peso quantitativo como os que têm renda de até dois salários mínimos, grupo que almeja alcançar com o “auxílio emergencial paulistano”.

A proposta é tentativa de embarcar nos efeitos positivos do benefício do governo federal sobre a popularidade de seu cabo eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que, com o apoio, atrai os menos escolarizados, mas repele os que têm nível superior.

Tendência oposta é observada em relação a Guilherme Boulos (PSOL), por exemplo, que cresce entre os mais escolarizados e de maior renda.

O resultado soa contraintuitivo numa cidade onde a clivagem socioeconômica é marcante —até 2012, bairros de menor renda votaram tendencialmente à esquerda. Em 2016, apesar da vitória em quase todas as zonas eleitorais (perdeu apenas em duas do extremo sul), João Doria (PSDB) ficou abaixo da média também no extremo leste.

O papel do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é importante nessas regiões, mas o baixo conhecimento sobre Jilmar Tatto (PT) torna o desafio maior em uma campanha curta. Entre os simpatizantes petistas, Russomanno supera sua média em nove pontos percentuais.

O cenário então transfere o foco a duas mulheres: Marta Suplicy, pró-Covas, e Luiza Erundina, vice de Boulos. As ex-prefeitas são associadas a políticas públicas voltadas aos segmentos de menor renda, em especial na educação e nos transportes, que são pontos nevrálgicos para amenizar desigualdades aprofundadas pela quarentena.

Críticas ao desempenho do atual ocupante do cargo nessas áreas, podem explicar em parte o porquê de Covas não converter sua avaliação positiva no combate ao coronavírus em intenções de voto –62% dos que o consideram ótimo ou bom nas ações contra a doença não o reelegem.

O prefeito de São Paulo fica no meio-termo entre seus colegas de outras capitais do Sudeste. Em Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD) apresenta altas taxas de popularidade tanto no combate à pandemia quanto na aprovação geral e consegue convertê-las majoritariamente em intenções de voto.

O contraste de postura em relação ao discurso negacionista do presidente da República, enfatizando que “não trocaria uma vida por um milhão de votos” e os embates com o governador mineiro, Romeu Zema (Novo), renderam ao prefeito de Belo Horizonte o raro patamar de 37% nas menções espontâneas, quando não há estímulo com os nomes dos candidatos.

Ao se mostrar o cartão com os concorrentes, Kalil seria eleito com quase 70% dos votos válidos. Ele tem o apoio da maioria em todos os estratos sociais, com exceção dos mais ricos.

No Rio de Janeiro acontece o oposto. Marcelo Crivella (Republicanos) é reprovado pela maioria dos cariocas e amarga a segunda colocação, com metade das intenções de voto do primeiro colocado, Eduardo Paes (DEM).

Não fosse o apoio da base evangélica (28% do eleitorado), onde lidera com o dobro do que consegue na média, o atual prefeito não se destacaria na disputa para ir ao segundo turno, travada com a pedetista Martha Rocha e a petista Benedita da Silva.

O apoio do presidente Bolsonaro é relativo. A exemplo de São Paulo, atrai os menos escolarizados e afasta os que têm nível superior, segmento que responde por 31% do eleitorado carioca e onde Crivella alcança 74% de rejeição.

Com Wilson Witzel (PSC) fora do governo do estado, o interino Cláudio Castro (PSC) tem o mais baixo potencial como cabo eleitoral dentre as gestões contempladas pelo Datafolha.

No Recife, a peleja entre os dois partidos que dominam há anos as disputas pela prefeitura da capital pernambucana traz além do embate familiar, protagonizado pelos jovens deputados federais e primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), outros nomes que se destacam antes do início do horário eleitoral: o ex-ministro Mendonça Filho (DEM) e a delegada Patrícia Domingos (Podemos).

Há certa dificuldade de transferência de apoio tanto do prefeito Geraldo Julio quanto do governador Paulo Câmara, ambos do PSB, a Campos, pelo menos neste início de campanha —entre os que aprovam as duas gestões, apesar de uma boa parcela optar pelo filho do ex-governador Eduardo Campos, a maioria revela outras opções.

Na cidade com mais simpatizantes do PT dentre as quatro pesquisadas pelo Datafolha (23% do total) a candidata do partido não atrai neste primeiro momento a maioria dos votos do estrato —Marília tem 36% contra 31% de seu primo no segmento.

A liderança por nove pontos de Campos no total da amostra se dá principalmente por seu desempenho entre os que recebem até dois salários mínimos, que somam 63% dos eleitores.

De um modo geral, canais de diálogo com os estratos de menor renda serão fundamentais em eleição tão atípica, especialmente nos grandes municípios.

Foram os que mais sofreram com a pandemia, tanto na saúde como na economia, e buscam no prefeito um facilitador para a retomada da dinâmica das cidades, mas com segurança sanitária, especialmente para seus filhos e familiares.​

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