Descrição de chapéu Eleições 2020

Contra terceira derrota em SP, Russomanno veste traje bolsonarista e tropeça na língua

Candidato do Republicanos abraçou cartilha de Bolsonaro e deixou elo com PSDB de lado, mas não conseguiu evitar derrapagens

São Paulo

O deputado federal Celso Russomanno (Republicanos), 64, deve ao avô de Bruno Covas (PSDB) a circunstância de eventualmente enfrentar o prefeito no segundo turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo.

“Mário Covas era meu amigo. Foi ele que me convidou para ir pro PSDB e pra ser candidato a deputado. Metade da campanha eu andei com ele, a outra metade andei com [Geraldo] Alckmin, que era candidato a vice-governador”, lembra.

A ilustração mostra Celso Russomano em um escritório
Ilustração de Celso Russomanno - Catarina Pignato

Conhecido por 97% do eleitorado da cidade segundo o Datafolha, o jornalista e apresentador de TV tem aspectos inusitados da biografia, como a entrada na política a convite do tucano em 1994 ou a dedicação ao ciclismo (são 40 km quase todos os dias), já sabidos por quem o acompanha.

Mas a terceira candidatura consecutiva ao Executivo municipal tratou de revelar mais —jogou luz em passagens e polêmicas que o deputado, receoso da exposição imposta a ele e à família por mais uma campanha, preferiria evitar.

Como o fato de que sua filha e seu genro são processados sob acusação de darem prejuízo a investidores. Ou a situação de bloqueio de seus bens desde 2016 por uma contestada dívida de aluguel do Bar do Alemão. Quem sabe ainda a questão de ter sido amamentado por uma mãe de leite negra, algo trazido à tona pelo próprio candidato, que usou uma figura ligada à escravidão para dizer que não era racista.

O episódio reforçou outra característica de Russomanno com a qual os paulistanos estão familiarizados —a de tropeçar na própria língua.

Em 2012, uma proposta de cobrar a passagem por quilômetro rodado marcou sua derrocada. Falas contra a Uber e a favor da reforma trabalhista tampouco ajudaram em 2016. Chamado por rivais de “cavalo paraguaio”, largou em primeiro, sustentado pelo recall da TV, e não chegou ao segundo turno nas duas ocasiões.

Desde o fim de setembro, Russomanno caiu de 29% na pesquisa Datafolha para 16%. A quatro dias da votação, ainda disputa, empatado com Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB), a chance de enfrentar Covas no segundo turno.

Na campanha de 2020, houve nova série de declarações falsas ou enganosas, como a de que moradores de rua seriam mais resistentes ao coronavírus. As falas que buscam minimizar a doença estão de acordo com o novo perfil que, depois de mais de 30 anos na TV e quase o mesmo tempo na Câmara, Russomanno quer exibir.

Se antes a personalidade de Russomanno era calcada unicamente na defesa do consumidor e, portanto, na busca de conciliação e moderação, agora ganhou espaço a defesa da família, Deus, liberdade, ditadura militar e o ataque contra China e João Doria (PSDB) em uma retórica agressiva –a cartilha bolsonarista completa.

Desde 1994, quando foi eleito deputado federal pelo PSDB com votação recorde de 233.482 eleitores, Russomanno já passou pelo PP e hoje está no Republicanos. Foi base do governo Dilma Rousseff (PT), votou pelo seu impeachment, foi favorável às reformas de Michel Temer (MDB), apoiou a eleição de Doria em 2018 e indicou aliados para compor a gestão de Covas na prefeitura.

Russomanno está acostumado a vestir a roupa governista, de esquerda ou direita, mas a adaptação de sua trajetória ao conservadorismo, para alguém que se definia de centro até ontem, não ocorre sem dificuldade.

Católico, casado há 19 anos, pai de três filhos e avô de dois netos —ou, como define sua revista de campanha, “marido romântico, pai presente e avô orgulhoso”. Essas credenciais não foram suficientes. Russomanno foi instado pela sua nova base eleitoral a se provar um verdadeiro amigo do presidente Jair Bolsonaro, que lhe deu apoio e a quem jurou lealdade.

Em comum, os dois acumulam décadas de mandato legislativo no baixo clero da Câmara dos Deputados. A longa amizade propagandeada por Russomanno não foi, contudo, bem documentada na imprensa ou em suas redes sociais. De qualquer forma, hoje o deputado é vice-líder do governo no Congresso.

Outras passagens da vida de Russomanno foram pinçadas na campanha para mostrar a identificação com o padrinho, como o fato de ter servido à Força Aérea quando jovem (é piloto de helicóptero, mas não chegou a ser tenente, como conta o capitão) e de ter um avô comandante da Força Pública que participou da Revolução de 1932.

Bacharel em direito, especialista no Código de Defesa do Consumidor e criador do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor, que já atendeu mais de 360 mil pessoas desde 1995, Russomanno concentra sua produção legislativa nessa área.

Em seis mandatos, teve dez propostas de sua autoria transformadas em lei segundo a Câmara, incluindo o dia do caminhoneiro, o dia da esclerose múltipla, a obrigação de alimentação diferenciada para crianças com diabetes nas escolas e a declaração de Florestan Fernandes como patrono da sociologia brasileira.

Em 2014, teve novo recorde com mais de 1,5 milhão de votos. Sua popularidade vem do programa Patrulha do Consumidor, que apresenta na TV Record. Em 1991, foi alçado de programas noturnos de colunismo social ao jornal Aqui Agora, do SBT, depois de filmar e denunciar no hospital o que considerou ser uma negligência médica responsável pela morte de sua primeira mulher, Adriana.

Acumulou na vida um patrimônio de R$ 1,7 milhão que declarou à Justiça Eleitoral neste ano, incluindo empresas, seis imóveis e sete veículos.

Resistente a enfrentar mais uma campanha, mas impulsionado pelo fato de que o bolsonarismo precisava de um representante em São Paulo, Russomanno tratou de preparar vacinas contra suas incontáveis vidraças.

Não é só a ligação de seu partido e da TV Record com a Igreja Universal que ele busca abafar ou explicar, mas também as dívidas acumuladas no Bar do Alemão, processos de danos morais de pessoas exibidas na TV, entrevistas pegando no seio de passistas nos anos 1980, citação (não comprovada) na Lava Jato, quase inelegibilidade em 2016 por usar servidora da Câmara em sua produtora, processos contra a rede de franquias de clínica estética que mantinha com Dr. Rey, sociedade com empresários delatores e passagens aéreas da filha pagas pela Câmara.

Sua queda nas pesquisas pela terceira vez pode ser resultado, como nas eleições passadas, de propostas frágeis e falta de experiência no Executivo —pontos de coincidência com Bolsonaro— ou são fruto da rejeição ao próprio presidente, que atinge 48% na capital paulista.

Sua esperança é que, estando bom para ambas as partes, seja levado ao segundo turno no próximo domingo (15). Se isso não acontecer, pode ser o começo do fim da carreira política de Russomanno, mas ele não está preocupado.

“Quando eu chego em casa, que eu ponho a chave na fechadura, eu desligo do mundo. Eu não levo os problemas, a política pra dentro da minha casa. Eu não sou um cara magoado. […] Eu não vivo da política. Se eu puder fazer alguma coisa de bom a partir da minha eleição para prefeito, vou fazer. Se eu não puder, porque não fui eleito, vou continuar fazendo como deputado.”

Raio-X

Celso Russomanno, 64
É jornalista e apresentador de TV. Formou-se em direito pela Faculdade de Direito de Guarulhos. Foi eleito pela primeira vez, em 1994, ao cargo de deputado federal pelo PSDB. Passou pelo PP e hoje é filiado ao Republicanos. Está no sexto mandato na Câmara dos Deputados e tenta a Prefeitura de SP pela terceira vez.

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