Sem dinheiro, candidatos fazem campanha na raça e puxam cortejo em Jaboticabal

Cidade do interior de SP tem cobertura completa da Folha nas eleições deste ano

Jaboticabal (SP)

“Vamos lá, vamos na calçada de cima”, disse um candidato aos cabos eleitorais que o seguiam. Do outro lado da cidade, um concorrente agitava a bandeira de campanha numa movimentada esquina. Em outra visita, um terceiro adversário sai às ruas colocando panfletos em caixas de correio.

Assim tem sido a campanha eleitoral em Jaboticabal (a 342 km de São Paulo), cidade do interior paulista que tem cobertura integral da Folha nas eleições deste ano.

Os concorrentes têm apelado a estruturas enxutas ao seu redor e em manifestações virtuais, em uma disputa que tem sido marcada, conforme os candidatos, pela falta de dinheiro e pelas dificuldades devido à pandemia do novo coronavírus (cuja orientação sanitária básica é promover o distanciamento social e usar máscaras).

Foi o que a reportagem constatou nas ruas da cidade ao acompanhar as campanhas dos cinco concorrentes à prefeitura.

“Em campanhas anteriores em Jaboticabal, você via candidatos contratarem 60 meninas, mas isso mudou. Não tem aquele batalhão”, disse o vice-prefeito Vitorio de Simoni (MDB), que participava de uma caminhada acompanhado de quatro garotas com panfletos de sua campanha, seu candidato a vice, Rubinho Gama (PTB), e dois concorrentes à Câmara.

Foi ele quem disse a frase que abre o texto, ao puxar o cortejo rumo aos eleitores em portas de bares e em frente às suas casas, no bairro Cidade Jardim.

Enquanto isso, o candidato Professor João (DEM), acompanhado de membros do primeiro escalão do governo José Carlos Hori (Cidadania), agitava bandeira de sua campanha na movimentada avenida em frente à concha acústica.

“Tem de ser campanha na raça, sem fundo [partidário], que acho que não virá”, disse ele, que estava acompanhado por cerca de dez pessoas.

A previsão é gastar R$ 100 mil na campanha, que teve como um dos investimentos uma camionete com alto-falantes na qual sobe e fala ao microfone com os moradores dos bairros.

imagens de cinco homens, todos olhando para a câmera
Os candidatos à Prefeitura de Jaboticabal Professor João (DEM), Baccarin (PT), Vitorio de Simoni (MDB), Professor Emerson (Patriota) e Marcos Bolsonaro (PSL) - Eduardo Anizelli/Folhapress e Facebook Vitorio de Simoni

As campanhas, até domingo (8), declararam o recebimento de R$ 379.888,29 em doações, conforme prestações de contas apresentadas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Isso indica R$ 66.800 a mais em relação ao total no último dia 1º (R$ 313.088,29).

Desse total, a maior fatia foi doada pelo partido à candidatura de Professor Emerson (Patriota), R$ 149.743, que representa 91,45% dos R$ 163.743 de receita até aqui.

Já a candidatura de Vitorio obteve R$ 119.500, dos quais R$ 31 mil foram doados pelo próprio candidato. Seu pai, o ex-prefeito Adail de Simoni (1993-96), doou outros R$ 29.200.

A campanha de João recebeu R$ 35.050, em sua maior parte doados pelo candidato (R$ 24 mil) e seu vice, o tucano Claudio Almeida (R$ 10.050).

Baccarin (PT) amealhou R$ 61.595,29, valor enviado pela direção nacional do PT. A prestação de contas de Marcos Bolsonaro (PSL) não apresenta receita até aqui.

Em 2016, com o mesmo número de candidatos que agora, a eleição custou R$ 517.229,28 --valor que, atualizado pela inflação, chega a R$ 588.282,53.

Mas mesmo a campanha com mais recursos declarados até aqui, a de Emerson, só recebeu materiais de trabalho no último dia 14, praticamente um mês antes da eleição.

Ele chegou ao aterro sanitário de Jaboticabal para conversar com os integrantes de uma cooperativa que trabalha com lixo reciclável acompanhado de três membros da campanha, todos em um único carro, sem santinhos ou bandeiras.

“Materiais chegando tarde, tempo curto, está uma campanha muito diferente”, disse o candidato.

Já Baccarin, que estima que os gastos de campanha ficarão abaixo de R$ 60 mil, disse que não tem nenhum cabo eleitoral contratado até agora e que aposta na recuperação da militância do PT na campanha.

“É legal gastar pouco, não é ruim isso”, disse ele, que saiu com panfletos em mãos entregando aos eleitores e colocando-os em caixas de correio. Ele dividiu um grupo de 30 militantes para cobrir os imóveis de dois bairros.

Bolsonaro relatou dificuldades para concluir a montagem do comitê e também a ausência de materiais para as semanas iniciais de campanha. “Uma das alternativas é explorar mídias sociais”, afirmou.

Campanhas de adversários afirmam que Vitorio é o que “mais está gastando”, mas o emedebista disse que a campanha é a mais estruturada, não cara.

“Nossa campanha é a mais estruturada de Jaboticabal, indiscutivelmente, do ponto de vista de meninas, material, comitê, em nível de estrutura com toda certeza nossa campanha é a mais estruturada. Não é campanha que tem dinheiro, mas mais organizada”, disse ele, que emendou um “vamos trabalhar, gente”, para as quatro cabos eleitorais que o acompanhavam.

Conhecida como Athenas Paulista, mas também já chamada de Cidade das Rosas e de Cidade da Música, Jaboticabal tem cobertura completa da Folha durante as eleições municipais deste ano.

Uma campanha parelha, problemas estruturais e a atuação restrita da imprensa profissional são alguns dos ingredientes que tornam interessante a cobertura jornalística nessa cidade de 77 mil habitantes.

Jaboticabal, ao contrário do que já ocorre em outras localidades menores, não tem uma TV (comunitária ou educativa) para a transmissão do horário eleitoral gratuito, o que faz com que a campanha seja diferente das disputas dos grandes centros.

Os candidatos, e a própria dinâmica local, são acompanhados diariamente pelo jornal, assim como ocorre nas eleições em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Além dos ingredientes políticos colocados na disputa deste ano, Jaboticabal foi escolhida pela Folha por ser uma cidade com forte peso educacional, com quatro universidades ou centros universitários, e também se destacar economicamente na agricultura e nas indústrias de alimentação e cerâmica.

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