Sistema usado em vídeo para simular fraude não é o mesmo de urnas eletrônicas

Gravação antiga com informações falsas sobre votação no Brasil voltou a circular nas redes sociais

São Paulo

São falsas as informações veiculadas em um vídeo no YouTube, insinuando que as urnas eletrônicas usadas nas eleições brasileiras são fáceis de serem fraudadas por meio de alterações no código-fonte. Na filmagem, verificada pelo Comprova, o autor se apresenta como desenvolvedor de sistemas operacionais e mostra o que seria uma simulação computadorizada da urna.

No entanto, de acordo com o próprio TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e um especialista em tecnologia, o programa que é utilizado no vídeo como simulador da urna eletrônica é muito mais simples que o equipamento em si, que conta com inúmeros dispositivos de segurança que impedem que ela funcione com um arquivo modificado.

Sala de máquinas com computadores que vão do chão ao alto. O primeiro à esquerda possui uma inscrição com a letra X
Supercomputador do TSE, usado na apuração dos votos - Roberto Jayme/Ascom/TSE

Além disso, é falsa a informação de que três venezuelanos e um português seriam os responsáveis pela elaboração do código-fonte das urnas eletrônicas do Brasil. Essa responsabilidade é de apenas um grupo restrito de servidores públicos da Justiça Eleitoral, no qual não há estrangeiros.

Vale ressaltar que este vídeo foi originalmente postado por outro canal no Youtube, entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018. A página que o publicou desta vez posta apenas conteúdos de cunho conservador e de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A reportagem fez contato com o canal, mas não obteve retorno.

Código-fonte

Conforme indica oTribunal Superior Eleitoral, as urnas brasileiras têm código-fonte. De acordo com o órgão, “somente um grupo restrito de servidores e de colaboradores tem acesso ao repositório de código-fonte e está autorizado a fazer modificações no software (…) que é o mesmo em todo o Brasil”.

No documento Sistema Eletrônico de Votação: Perguntas Mais Frequentes, o TSE também esclarece que “a Justiça Eleitoral utiliza ferramentas modernas de controle de versão do código-fonte dos sistemas eleitorais” e que por meio delas “é possível acompanhar toda modificação feita sobre o código-fonte, o que foi modificado e por quem”.

Outro mecanismo de segurança se dá com a segregação dentro do Tribunal. “A equipe responsável pelo software da urna não é a mesma que cuida do sistema de totalização”, exemplifica. “A quantidade de sistema eleitorais envolvidos na realização de uma eleição é tão grande que se torna impraticável a um agente interno ter grau de conhecimento do todo que lhe permita realizar algum tipo de ataque”, garante.

Em nota de esclarecimento publicada no dia 17 de novembro de 2020 sobre as falsas informações veiculadas pelo vídeo em questão, o TSE ainda afirma que na filmagem “é exposta, de forma didática, uma maneira de se fazer uma urna usando um kit simples, como é o caso de placas com processador Arduino (plataforma de prototipagem)” e que “uma urna eletrônica não é tão simples”.

Quem não entende

Segundo o professor do Instituto de Computação e CIO da Universidade Estadual de Campinas, Paulo Lício de Geus, as imagens foram usadas para enganar pessoas que não entendem de computação por meio de um programa de demonstração, mas que não têm relação com o sistema do TSE, exceto a aparência do painel.

O autor do vídeo afirma que o Linux, um dos sistemas operacionais mais conhecidos no mundo, é o mesmo usado pelo TSE. Entretanto, Paulo Lício, que também é representante da Sociedade Brasileira de Computação nos testes públicos de segurança do sistema eletrônico de votação do TSE, nega a informação e comenta que mesmo com a eficiência desta tecnologia, ela apresenta vulnerabilidades que poderiam comprometer seu uso nas urnas, não fossem outros mecanismos.

“A urna só roda programas criados dentro do TSE, graças a um dispositivo de hardware chamado de HSM (hardware security module), embutido em todas as urnas.” O especialista aponta que, mesmo que nenhum sistema computacional seja 100% seguro, criar um procedimento interno reduz a possibilidade de alteração dos votos das urnas no Brasil. “A urna sequer roda se tiver qualquer um de seus arquivos modificados por um bit sequer (a menor unidade de informação, dentre gigabytes de código)”, garante.

E, diferentemente da simplicidade sugerida pelo vídeo, alterar o código para comandar uma fraude nas eleições exige alta complexidade. “Teria que ser algo feito por equipes especialistas que hoje só se encontram em exércitos de países líderes mundiais. E não sei se teriam sucesso dentro do tempo de uma eleição (um ano)”, afirma.

Vale lembrar que, de acordo com o TSE, “a urna eletrônica não é vulnerável a ataques externos”. “Ela é um equipamento que funciona de forma isolada. Ou seja, não possui nenhum mecanismo que possibilite sua conexão a redes de computadores, como a internet. Além disso, não possui o hardware necessário para se conectar a uma rede ou mesmo a qualquer forma de conexão com ou sem fio.”

De volta

Apesar de ter sido publicado no dia 11 de novembro deste ano, quatro dias antes da eleição, o vídeo “DENÚNCIA GRAVE! Veja como são feita as fraudes nas urnas eletrônicas do Brasil” foi publicado originalmente em 16 de outubro de 2018, entre o primeiro e segundo turno das eleições para presidente.

O homem que aparece no vídeo –e se apresenta como Jeterson, desenvolvedor de sistemas– usa como exemplo a votação para presidente no simulador simplificado da urna eletrônica e fala, por volta do minuto oito, que “as pessoas vão ficar mais atentas no próximo dia de votar, no dia 28”. Dia 28 de outubro foi a data do segundo turno das últimas eleições de 2018.

Com o título “Explicação simples da fraude das eleições 2018”, ele também foi publicado no YouTube pelo canal de Ana Calheiros. Nele já foram publicados dezenas de vídeos, mas o mais recente já tem mais de dois anos. Entre os conteúdos, destacam-se outros que apontam supostas fraudes em eleições ou que criticam membros do PT ou são favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O perfil

Criado em 20 de junho deste ano, o canal Geração Patriotas já publicou 77 vídeos no YouTube. De forma geral, os conteúdos apoiam politicamente a direita, os militares e Bolsonaro, que já afirmou ter havido fraudes nas eleições brasileiras sem apresentar qualquer prova e se declara a favor da volta do voto impresso.

Conforme links nas descrições dos vídeos, o Geração Patriotas tem grupos no WhatsApp e no Telegram; e perfis no Instagram e no Twitter, criados em setembro deste ano. Há ainda um grupo público no Facebook que é descrito como “grupo de direita em apoio ao nosso governo conservador” e cita o lema de campanha de Bolsonaro: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”. O único moderador e administrador da página é Ivan Souza.

O Comprova entrou em contato com ele por meio de uma mensagem privada no Facebook e enviou outra no perfil do Instagram do Geração Patriotas. Porém, até o momento em que esta verificação foi publicada, a equipe não tinha recebido retorno.

Verificação

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos que estejam viralizando nas redes sociais e que trate de políticas do governo federal, da pandemia ou das eleições de 2020. Até a data de publicação deste texto, o vídeo verificado tinha mais de 2.800 compartilhamentos apenas no YouTube.

Conteúdos falsos, como esse, colaboram para que as pessoas fiquem em dúvida sobre a segurança e a confiabilidade das urnas eletrônicas utilizadas nas eleições do Brasil há mais de 20 anos, prejudicando o processo eleitoral e colocando em xeque um dos mecanismos mais importantes da nossa democracia.

Falso, para o Comprova, é qualquer conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

A investigação desse conteúdo foi feita por A Gazeta e Estadão e publicada na quinta-feira (19) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por Folha, Niara, BandNews, GZH, O Povo, Jornal do Commercio, Piauí e Correio.

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