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Coronavírus CPI da Covid

CPI da Covid paga preço por ser a 1ª na era da guerra de narrativas

Comissão avançou, mas evidenciou a impossibilidade de diálogo e enfrentou limites técnicos

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São Paulo

Quando a época atual for estudada no futuro, entre tantos epítetos e desqualificações possíveis a ideia de uma era de guerra de narrativas se impõe, particularmente no debate político.

A CPI da Covid, a caminho de seu "grand finale", pagou um preço alto por ser a primeira comissão de grande importância do gênero a ocorrer sob a égide desse método de negação do diálogo.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) durante a leitura do relatório final da CPI. Ao seu lado o senador Omar Aziz (PSD-AM) preside a comissão e o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) é o vice presidente - Pedro Ladeira/Folhapress

Antes dela, curiosamente em relação ao espírito do tempo, houve a CPI das Fake News, que transcorreu de forma mais ou menos tradicional, por assim dizer.

A comissão da pandemia, buscando diferenciar-se e ampliar o apelo midiático de suas exposições, perdeu-se muitas vezes nos limites formais de sua atuação, de resto um problema usual de qualquer CPI.

Mas a questão central acerca dela é a questão das narrativas, termo banalizado por utilização excessiva pelas redes sociais bolsonaristas. Ou melhor, sobre a guerra entre discursos no ambiente da chamada pós-verdade, onde tudo é relativo ao gosto do cliente.

Assim, é inegável que o governo Jair Bolsonaro foi derrotado de saída, ao menosprezar politicamente a composição da CPI e os ânimos de seus envolvidos, a começar pelo relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL).

A mágoa do alagoano com o governo desde que foi humilhado e perdeu a chance de voltar a presidir o Senado, em 2019, cobraria um preço óbvio. Com uma escalação mista entre os chamados independentes e oposicionistas puro-sangue em seu comando, a comissão era palco hostil ao Planalto.

Na visão dos governistas, isso desqualificaria de forma liminar o trabalho: desde o primeiro dia, o forno estava sendo aquecido para servir um prato que condenaria a gestão de Jair Bolsonaro.

Ocorre que, historicamente, é para isso que deveriam servir CPIs, instrumentos de oposição. Só que, na tal guerra de narrativas, o que importa é dizer que o inimigo está mentindo.

Em favor da CPI havia o óbvio: evidências abundantes de desgoverno e práticas, se não dolosas, com efeitos assim no manejo da maior crise sanitária em cem anos.

Contra, do lado adversário, apenas a dita narrativa —no caso, negacionista e amparada, por assim dizer, nos folclóricos "prints" de internet do senador Luiz Carlos Heinze (PP-RS).

A comissão seguiu o rito usual, com depoimentos e quebras de sigilo como motor do trabalho. Foi aí que ela logrou brilhar mais, montando um arcabouço factual sólido para sua tese de trabalho, de que Bolsonaro e o bolsonarismo tiveram responsabilidade pela extensa tragédia que abateu o país.

O roteiro foi dado já no primeiro depoimento da comissão, do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM), não menos porque o experiente político desde os seus estertores no cargo se mostrou um hábil organizador de discurso.

Outros, como o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, adicionaram dados vitais ao corpo da acusação contra Bolsonaro. Novidades surgiram, como um sem-número de suspeitas acerca de ofertas de vacinas e o caso Prevent Senior.

Mas isso não impediu o colegiado de fracassar em manter linhas de apuração amarradas ou de demonstrar o baixo preparo da assessoria de seus senadores-inquisidores. Assim, escapou da CPI relativamente incólume Ricardo Barros (PP-PR), o líder de Bolsonaro na Câmara envolvido por um depoente.

A insistência no teatro midiático também ajudou a reforçar a narrativa, sempre ela, do lado governista. Com pouco traquejo como promotor, talvez pelos anos passados como vidraça de acusações diversas, Renan às vezes foi repreendido pelo próprio presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), por usar agressividade.

Houve, também, veleidades usuais, evidenciadas no debate sobre seu relatório final, que opôs Renan a seus colegas.

Aziz, por sua vez, ocupou largamente sua cadeira. Apresentou aos telespectadores uma infinidade de tiradas amazônicas e analogias písceas, mas também foi criticado pelo tratamento dado a algumas testemunhas e as ordens de prisão que só se confirmaram uma vez.

Ganhou palanque, assim como desconhecidos do grande público a serviço do Planalto, como Marcos Rogério (DEM-RO).

Nas hostes contrárias ao governo, tiveram seus momentos de ribalta Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Simone Tebet (MDB-MS) —os dois últimos alimentando pretensões eleitorais maiores em 2022.

Houve depoimentos superficiais, como o do ex-ministro Nelson Teich logo ao começo dos trabalhos, e verdadeiros salseiros, como quando o delator de um esquema de propina se embananou e tentou arrastar outro acusador consigo.

A exasperação do comando a CPI ante o direito de as pessoas ficarem caladas em determinadas circunstâncias também acabou transparecendo inadequação para lidar com suas limitações.

Por fim, houve também o circo puro e simples, como a debochada oitiva do empresário bolsonarista Luciano Hang, inútil senão para reforçar de forma bruta a ideia de que as narrativas ocupam vasos não comunicantes.

Isso dito, até como seria previsível desde a largada, os oposicionistas saíram vencedores do embate e montaram um arco narrativo coerente, com o perdão do clichê abusado. Quantos do outro lado darão bola a ele é questão para 2022.

Erramos: o texto foi alterado

Marcos Rogério é senador por Rondônia, não Minas Gerais; Simone Tebet é senadora por Mato Grosso do Sul, não Mato Grosso

 

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