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Em Paris, caminhe à beira-rio ou se misture aos nativos para descobrir tesouros

Capital francesa é para o andarilho de espírito livre

Lucas Neves
Paris

As concorrentes que me desculpem, mas, para ser “flâneur raiz”, só existe uma cidade: Paris, bien sûr.

O caminhante de espírito livre e olhar generoso que vai deixando impulsos, sensações e acasos traçarem seu itinerário surgiu, com essa alcunha, na pena do escritor Charles Baudelaire (1821-67).

Bacia de La Villette, extensão do canal Saint-Martin que abriga cinemas, bares e restaurantes
Bacia de La Villette, extensão do canal Saint-Martin que abriga cinemas, bares e restaurantes - Adobe Stock

Já no século 20, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) deu lustro cosmopolita ao personagem, devorador de paisagens e pequenos prazeres da urbe.

Um dos roteiros para quem deseja explorar a capital francesa a pé é justamente o que atravessa algumas das passagens cobertas —sensação na primeira metade do século 19— que o pensador destrinchou em livro.

Cada uma tem uma especialidade. Na Brady (10º distrito), estabelecimentos indo-paquistaneses são maioria, daí o apelido Little India. A Verdeau (3º) é QG de antiquários, e a Cairo (2º), dos tecidos.

A trinca está concentrada no 2º distrito, para facilitar a peregrinação: Panoramas (a pioneira), Vivienne e Colbert. 

Há também os infalíveis percursos beira-rio no perímetro mais turístico de Paris, que começa no formigueiro de boutiques e galerias de arte do Marais, na margem direita do Sena (Rive Droite), cruza a île de la Cité para garantir a selfie diante da catedral Notre-Dame e se perde nas vielas do Quartier Latin, já na margem esquerda.

O destino costuma ser o jardim do Luxemburgo, onde toalhas quadriculadas disputam cada centímetro de gramado e nesga de sol para piqueniques carburados a junk food.  

Se a pedida é se misturar aos parisienses de fato, rumo ao norte, onde as margens do canal Saint-Martin borbulham de pseudoveranistas desde que o mormaço cinza bata nos 20 e poucos graus.

Mais espaçosa e reurbanizada há pouco tempo, a extensão do canal, conhecida como bacia de La Villette, tem salas de cinema, balsas transformadas em bares e restaurantes (chamados aqui de péniches) e barquinhos de aluguel charmosos.

No verão, a área vira um grande parque de diversões, com tirolesa sobre o canal, jogos para a criançada e três piscinas a céu aberto —de água fria e escura, por certo, mas irresistível em dias de calor.

A andança até a ponta da bacia conduz a um novo estreitamento do curso d’água; é onde começa o canal Ourcq, que corta ao meio um dos tesouros mais bem guardados pelos nativos: o parque La Villette.

Vizinho dessa mancha verde por quase oito anos, este repórter ainda hoje descobre atrações por lá.

Até a contagem mais recente, o lugar abrigava três casas de shows, uma sala de concertos projetada pelo arquiteto Jean Nouvel, um teatro, um museu dedicado à música, um edifício futurista para mostras de ciência e tecnologia, uma esfera metálica com um cinema 3D, um galpão multiuso, um centro hípico...

Agora, se a palavra de ordem é fugir de trilhas batidas, o andarilho pode arrastar seu pedômetro até o 13º distrito (sudeste), com avenidas largas e prédios modernosos que fazem pensar na Berlim dos arredores da Potsdamer Platz.

Para um tour do quartier, um bom ponto de pouso é o metrô Bibliothèque François Mitterrand. Na saída da estação está a nova sede da Biblioteca Nacional da França, com quatro enormes torres de vidro em formato de livro aberto.

A visita vale a pena mesmo para quem não pretende estudar. A galeria da instituição acolhe ótimas exposições com manuscritos, mapas, cartas, gravuras e outros documentos sacados de suas coleções.

A dois passos dali, onde o Sena quase se despede de Paris, está atracado o Petit Bain, barco em cujo andar superior funciona um bar ao ar livre decorado com banheiras-canteiros (daí o nome “pequeno banho”). O porão costuma ser palco de noitadas eletrônicas.

Na mesma margem, o calor convida a um mergulho na piscina Josephine Baker, com teto retrátil e eventual vista privilegiada para o rio —na verdade, ela flutua sobre o Sena.

Findo o arroubo aeróbico, não deixe de cruzar a passarela Simone de Beauvoir rumo ao lado de lá, onde um parque esconde o monstrengo assimétrico que outro arquiteto-estrela, o americano Frank Gehry, projetou para receber a Cinemateca Francesa.

Se a programação fílmica pode às vezes ter apelo só para aficionados, o museu do cinema que funciona no prédio volta e meia organiza exposições de caráter mais popular.

No quesito encantamento, porém, dificilmente algo vai superar o Museu de Parques de Diversões Itinerantes (Musée des Arts Forains), a cinco minutos a pé dali. São salas e salas de carrosséis, máquinas de cartomante e barracas de jogos antigos, como nos mafuás do começo do século 20. Boa parte da parafernália ainda funciona. Circunspectos, os pais franceses levam a cria para disfarçar, mas são eles que insistem por uma volta a mais.


PACOTES

€ 427 (R$ 1.789) 
3 noites em Paris, na Schultz
Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeios. Sem aéreo

R$ 2.990 
3 noites em Paris, na Top Brasil Turismo 
Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeio em Versalhes e traslados. Sem aéreo

R$ 4.493 
5 noites em Paris, na CVC
Hospedagem em quarto duplo, sem regime de alimentação. Não inclui passeios. Com aéreo a partir de São Paulo

US$ 1.870 (R$ 7.031) 
5 noites em Paris, na Tereza Ferrari
Valor para duas pessoas. Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeios e sete refeições. Sem passagem aérea

O valor do dólar usado na conversão de pacotes desta edição é R$ 3,76; o do euro, R$ 4,19

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior do mapa que acompanha este texto dava a localização incorreta da estação Bibliothèque François Mitterrand. A informação foi corrigida. 

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