Trilhas da Ilha Grande levam turista a praias sem aglomeração

Muito visitado por estrangeiros antes da pandemia, destino recebe mais viajantes de Rio, São Paulo e Minas

Vista de cima de uma morro coberto por vegetação. Lá embaixo, uma vila à beira mar

Mirante com vista para a Vila do Abraão em estrada que leva à praia de Dois Rios, em Ilha Grande (RJ) Carolina Muniz/Folhapress

Os cem quilômetros de trilhas da Ilha Grande, no sul do estado do Rio de Janeiro, permitem ao viajante chegar a praias de águas transparentes e —o mais importante agora— sem precisar enfrentar aglomerações.

Não que a ilha esteja vazia. Sobretudo nos fins de semana, as ruas da vila do Abraão, que tem maior infraestrutura, ficam cheias de turistas. E muitos não usam máscara.

Mas, caminhando pela mata, é possível evitar os passeios de barco compartilhados —a forma mais fácil e rápida de conhecer praias da região.

A Ilha Grande reabriu ao turismo em 14 de agosto, depois de cinco meses. Em setembro, a taxa média de ocupação foi de 40%, semelhante à dos anos anteriores, segundo a TurisAngra, fundação de turismo de Angra dos Reis, município do qual a ilha faz parte.

Na retomada, o perfil dos visitantes mudou. Por causa das restrições às viagens, o local parou de receber estrangeiros, que chegavam em grande número antes da pandemia.

“Sabemos que o turista internacional não virá, mas estamos com boa visitação de brasileiros, a maioria de São Paulo, Rio e Minas”, diz Amanda Salazar, diretora de promoção turística da TurisAngra.

A pousada Bonito Paraíso costumava ter 70% dos seus hóspedes vindos de outros países, a maior parte da Europa e o restante da América Latina, diz o argentino Juan Hernán Maggi, 41, um dos donos.

Para atrair os turistas nacionais, a hospedagem está oferecendo um traslado privativo, chamado de “Covid-free”, da casa do cliente até a pousada, na praia do Abraãozinho.

Apesar da ausência dos viajantes internacionais, o sotaque de fora continua presente. Assim como Juan, muitos argentinos vivem por lá.

Dá para entender o encantamento dos estrangeiros com o lugar: são mais de cem praias, além de rios e cachoeiras, em meio à mata atlântica.

Carros não entram. Para ir até a ilha hoje, há dois pontos de partida: Mangaratiba e Angra dos Reis. O acesso por Conceição de Jacareí, distrito de Mangaratiba, permanece fechado em razão da pandemia.

Para quem vem de São Paulo, Angra é a opção mais próxima. No centro, perto do cais, há estacionamentos, que cobram de R$ 20 a R$ 40 por dia.

A alternativa mais barata de travessia é a barca, mas também a mais demorada. Custa R$ 17,30 e demora em torno de uma hora e meia, com um horário de partida por dia.

Há ainda flex boats, que saem de hora em hora. O valor da passagem é R$ 60, e o trajeto leva cerca de 40 minutos.

A repórter viajou de flex boat em setembro. Na ida, as medidas de segurança foram rigorosamente cumpridas. Os passageiros tiveram a temperatura aferida e receberam álcool em gel. Todos usavam máscara —quando alguém a abaixava, era repreendido.

Já na volta não houve a mesma preocupação. Alguns viajaram com a máscara no queixo, sem serem incomodados.

É possível chegar de barco a outros povoados, mas a vila do Abraão é o centro da ilha, com a maior concentração de hotéis, restaurantes e lojas. A maioria dos estabelecimentos aceita cartão, mas é importante levar dinheiro, porque não há caixas eletrônicos.

Como as ruas são de areia, fica difícil carregar malas pesadas e de rodinha, a não ser que o viajante pague pelo serviço de um carregador.

Quem não quiser correr risco de passar perrengue deve escolher um meio de hospedagem com gerador, já que quedas de energia são comuns.

Da vila, partem trilhas de diferentes níveis e distâncias. No total, são 16 caminhos oficiais que, se percorridos por completo, permitem dar quase uma volta inteira na ilha—mas isso requer dias de caminhada e muito preparo.

Quem não tem tanto tempo e experiência pode fazer passeios de um dia.

O mais leve é o circuito do Abraão, com menos de 2 km, que pode ser feito a pé ou de bicicleta. Leva até um aqueduto construído em 1893, a mando de D. Pedro 2º, para abastecer o Lazareto, hospital de quarentena que depois funcionou como prisão, cujas ruínas podem ser vistas na trilha.

O caminho passa pelas praias Preta e do Galego e pelo poção, também conhecido como cachoeira dos Escravos.

Do aqueduto, parte a trilha para a praia da Feiticeira, que também leva à cachoeira de mesmo nome. O percurso, com muitas subidas, demora cerca de uma hora e meia.

A praia tem águas cristalinas que favorecem o mergulho com snorkel e conta com barracas que vendem comida. Como a faixa de areia é estreita, vale visitá-la durante a semana para fugir da muvuca.

Outro trajeto que não exige tanto do turista é o que leva à praia do Abraãozinho, passando pelas praias da Julia e da Crena, com 40 minutos de caminhada saindo do canto direito da vila do Abraão.

Dali também parte a trilha para Lopes Mendes, uma das mais conhecidas. Com cerca de duas horas, o caminho é mais difícil no começo por causa das subidas. Ele atravessa as praias de Palmas e de Mangues até chegar a do Pouso, onde desce quem vêm de barco.

Todos, então, devem fazer uma caminhada leve até Lopes Mendes. Como a faixa de areia tem quase 3 km de extensão, é só andar um pouco para sair do local onde há a maior concentração de pessoas.

A praia é voltada para o mar aberto, por isso tem águas frias e agitadas. Ali, não há estrutura. No máximo, vendedores com bebidas e salgadinhos.

O percurso mais cansativo, mas muito recompensador, é o que leva à praia de Dois Rios. A caminhada é feita pela estrada de terra construída para ligar a vila do Abraão ao Instituto Penal Cândido Mendes, implodido em 1994.

A trilha dura cerca de duas horas e meia —metade só de subida e a outra de descida.

Ao chegar a Dois Rios, o turista encontra uma vila que parece desabitada. Ao fundo, vê as ruínas do presídio, onde hoje fica o Museu do Cárcere, administrado pela Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). O funcionamento está suspenso na pandemia.

A beleza da praia está justamente no que dá nome a ela: um rio de cada lado. Em volta, não dá para ver nenhuma construção, só os morros forrados de mata. É um lugar para se desligar: não há sinal de celular nem de aglomeração.

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