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Coleção mostra percurso de Machado de Assis até seus grandes livros

Caixa em 26 volumes reúne tudo o que autor de "Dom Casmurro" publicou em quase 50 anos de carreira literária

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Marco Rodrigo Almeida

Editor-adjunto da Ilustríssima

[RESUMO] Reedição da obra completa que Machado de Assis publicou em vida, em 26 volumes dispostos em ordem cronológica, possibilita novas interpretações sobre sua formação como escritor, seu salto de qualidade em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e a respeito de como a escravidão é retratada em seus livros.

Machado de Assis morreu 115 anos atrás, mas está mais vivo que qualquer outro escritor brasileiro. O legado do autor defunto, tal como a bossa nova ou Pelé, transmite ao mundo a identidade utópica que tanto almejamos: a apropriação criativa e desabusada que converte a cultura dos grandes centros hegemônicos em algo único, explosivo e brasileiro.

Alguns exemplos recentes atestam esse atemporal fascínio machadiano. Em 2020, uma nova tradução de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" nos Estados Unidos ficou esgotada em apenas um dia. No ano passado, dois elogiados romances brasileiros transportaram o escritor para os dilemas do século 21 ("A Vida Futura", de Sérgio Rodrigues, e "Homem de Papel", de João Almino).

Pintura de Machado de Assis feita pelo artista Daniel Lannes - Karime Xavier / Folhapress

Em setembro deste ano, o português Ricardo Araújo Pereira lançou um podcast sobre humor cujo título, "Coisa Que Não Edifica Nem Destrói", é tirado de uma definição de Brás Cubas para suas memórias; e, em fins de outubro, um congresso em Roma, "Machado de Assis: A Complexidade de um Clássico", reuniu pesquisadores de Brasil, Estados Unidos, França, Inglaterra, Portugal e Alemanha.

De forma geral, a afirmação de sua negritude abriu novas vertentes interpretativas nas últimas duas décadas.

Amarrando, de certa forma, todos esses pontos, o escritor também é tema do principal projeto editorial do ano no país. A editora Todavia, em parceria com o instituto Itaú Cultural, acaba de publicar uma coleção com todos os livros que Machado publicou em vida.

São ao todo 26 volumes, dispostos em ordem cronológica —por ora, só poderão ser adquiridos em uma caixa especial, em edição limitada; no ano que vem, os títulos serão vendidos separadamente. No dia 18 deste mês, o Itaú Cultural também inaugura uma exposição dedicada ao escritor, com objetos pessoais e vídeos sobre suas obras.

O relançamento dos livros foi idealizado por Hélio de Seixas Guimarães, professor da USP e um dos principais pesquisadores da obra machadiana. Ele é também vice-diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, onde organizou uma exposição com as primeiras edições dos livros de Machado. Lidar diretamente com cada um desses títulos foi uma experiência surpreendente até para um especialista como ele. Em conversa com o editor Flávio Moura, da Todavia, surgiu a ideia de uma coleção que expusesse esse percurso.

O projeto levou quatro anos para ser concretizado e contou com uma equipe de cerca de 20 pessoas. Os volumes tomam como base as últimas edições de cada título revistas por Machado, assim como preservam a pontuação bastante peculiar do escritor (vírgulas, pontos, travessões que expressam hesitações e ironias), alterada em alguns relançamentos por não estar de acordo com regras gramaticais estabelecidas após a morte dele, em 1908. Cada um dos livros traz uma apresentação inédita do organizador da coleção.

Até então, as edições mais completas disponíveis agrupavam as obras de Machado em função dos gêneros: um volume para os romances, outro para os contos publicados em livros, um terceiro mesclando contos avulsos, poesia, teatro e cartas, e um quarto com crônicas e textos diversos na imprensa. Essa divisão, avalia Guimarães, valoriza determinadas obras em detrimento de outras e acaba por camuflar a trajetória de formação do escritor.

Na caixa agora lançada, ganham evidência o volume e a variedade de gêneros a que Machado se dedicou em quase 50 anos de publicação, da peça "Desencantos", de 1861, ao romance "Memorial de Aires", de 1908. "Esses livros, todos juntos, mostram como Machado se constituiu como escritor, foi formando, desenvolvendo uma técnica para a realização daquilo que conhecemos melhor de sua obra", conta o professor da USP.

Em geral, o Machado lido e estudado é o da grande fase da prosa, o romancista e contista genial que se estabeleceu com "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881). Até chegar a seu defunto autor, contudo, já havia publicado 13 livros nas duas décadas anteriores.

Machado estreou na publicação de livros com peças de teatro, talvez a parcela de sua produção menos conhecida hoje. O primeiro deles, "Desencantos", traz a história de uma viúva às voltas com dois pretendentes. O enredo é singelo, mas menos banal do que a sinopse pode sugerir. Já estavam lá marcas distintas de toda a produção do autor, como a figura da viúva, o ciúme, a rivalidade amorosa entre um homem prático e um idealista, o papel subalterno das mulheres naquela sociedade.

O casamento, já indica o título, era uma outra modalidade de jogo social que redundava em tédio. Como observa Guimarães em sua introdução, Clara, a protagonista, diz frases ousadas, dúbias, ao segundo marido, o político Pedro Alves, tais como: "Quem o atender, supõe que se casou comigo pelos impulsos do coração. A verdade é que me esposou por vaidade, e que quer continuar essa lua de mel, não por amor, mas pelo susto natural de um proprietário, que receia perder um cabedal precioso". Clara é o rascunho das mulheres que o escritor criaria mais tarde.

Machado tinha na ocasião apenas 22 anos, contudo já era figura conhecida nos círculos literários do Rio. Por volta dos 15 anos passou a colaborar em periódicos importantes, publicando poemas, traduções, contos, crítica e ensaios —nestes últimos, com espantosa assertividade para um garoto, fazia considerações sobre o futuro da literatura, da imprensa e do teatro brasileiros.

O segundo livro, "Teatro", saiu em 1863, composto por duas comédias, "O Caminho da Porta" e "O Protocolo", que chegaram a ser encenadas, ao contrário da do livro anterior. Novamente, levou aos palcos os jogos amorosos da elite fluminense, sob os quais já se intuía sua visão naturalmente pessimista.

No livro seguinte, "Quase Ministro" (1864), Machado estreia na sátira política. Desta vez as intrigas palacianas ganham primeiro plano na peça. Boatos de que um deputado seria nomeado ministro são o ponto inicial de uma visão derrisória da política no Segundo Reinado que se acentuaria depois. Em um paralelo instigante, podemos pensar em um dos mais célebres capítulos de "Brás Cubas", "De Como Não Fui Ministro de Estado", narrado apenas por uma sucessão de pontos, sem palavras.

O célebre capítulo "De Como Não Fui Ministro d´Estado", de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881), escrito por Machado de Assis - Reprodução

Tendo em vista que a comédia ainda hoje é um gênero subvalorizado, é curioso constatar, como sugeriu Ricardo Araújo Pereira em seu podcast, que o maior escritor brasileiro tenha sido desde o início um humorista —e, como tal, tenha criado, com "Brás Cubas", a melhor comédia brasileira.

A respeito desse ponto, Machado confidenciou em carta ao amigo escritor Quintino Bocaiuva que sua intenção era produzir comédias de maior alcance, "onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento prático das condições do gênero". A resposta de Bocaiuva ficou famosa pela franqueza e pela previsão certeira. Elogiou a riqueza de estilo de Machado, mas qualificou as peças como "frias e insensíveis". "As tuas comédias são para serem lidas e não representadas", sentenciou.

No mesmo ano de 1864 Machado publicou "Crisálidas", sua primeira coletânea de poemas, na qual mesclava as formas clássicas e as ideias românticas. O título se refere ao estágio intermediário da metamorfose da lagarta em borboleta, o que pode ser lido como reflexo da situação do autor na ocasião, um jovem talentoso e indeciso tateando a largura de seu talento.

O uso recorrente dos chamados versos alexandrinos, com 12 sílabas métricas, fizeram Machado ser então chamado de "príncipe dos alexandrinos". Uma referência curiosa ao leitor de hoje, uma vez que esses versos ficaram mais associados aos parnasianos e especialmente a Olavo Bilac, que parecem bem distantes da imagem que criamos sobre Machado.

Os dois livros seguintes seriam "Os Deuses de Casaca", de 1866, outra peça cômica, em que sete personagens da mitologia clássica descem ao mundo do século 19, e os poemas de "Falenas", de 1870.

No final da década de 1860, Machado tinha 30 anos e seis livros publicados, quatro voltados ao teatro e dois à poesia. Era um prodígio em ambição, talento e produtividade, valorizado em seu meio, condecorado por dom Pedro 2º com a Ordem da Rosa. Não era ainda, porém, o Machado que aprendemos na escola.

"A poesia e o teatro tinham muito prestígio até a segunda metade do século 19. Eram lugares de inserção dos escritores no ambiente literário. A prosa só começa a ter mais relevância no Brasil a partir dos anos 1850, o que se acentua muito ao longo do século 20. E daí o fato de o Machado ser hipervalorizado como romancista, em detrimento do poeta e do autor de teatro", explica Guimarães.

Em uma espécie de jogo literário de tentativa e erro, que combinava o talento à ascensão de um novo gênero literário, Machado encontraria a seguir a realização plena na prosa, foco de sua produção futura, mas sem abandonar o teatro e a poesia.

"Esses gêneros ficaram relegados às sombras na obra dele, mas precisamos entendê-los melhor. A experiência no teatro foi importante para a construção dos romances e contos, para a elaboração do diálogo afiado, das situações dramáticas", pondera o organizador da coleção. "E na poesia, a partir de ‘Falenas’, já notamos uma forte marca paródica, que se liga à da prosa mais conhecida de Machado. Também há uma combinação peculiar de formas, de registros, que aparecem na obra futura."

Após estrear na prosa de ficção com "Contos Fluminenses" (1870), Machado engatou seus quatro primeiros romances, classificados de forma não muito exata como sua fase romântica. Uma visão mais ampla do conjunto deixa evidente as inúmeras semelhanças temáticas e estilísticas com sua produção anterior.

"Ressurreição" (1872) traz uma viúva, mais uma delas, cujo relacionamento com Félix é corroído pela dúvida e pelo ciúme dele. Em "A Mão e a Luva" (1874), "Helena" (1876) e "Iaiá Garcia" (1878), as protagonistas são moças pobres que dependem dos favores das classes abastadas —em geral representadas por madrinhas ricas e, claro, viúvas— ou do casamento para existirem em uma sociedade rigidamente hierarquizada.

Machado ficou progressivamente mais pessimista a cada um desses romances. Como Roberto Schwarz observou em "Ao Vencedor as Batatas", estudo referencial sobre o escritor, "depois do cinismo ingênuo de ‘A Mão e a Luva’ e do purismo de `Helena’, há o "completo desencanto" de "Iaiá Garcia".

O passo seguinte, na verdade um salto mortal sobre o precipício, foi a explosão cética e desaforada de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", virada central na trajetória de Machado e na literatura brasileira.

Muita tinta já se gastou na tentativa de classificar esse romance inclassificável, título em que todos (críticos, biógrafos, leitores comuns) pensamos em primeiro lugar quando o assunto é Machado.

"Brás Cubas" é o grande romance brasileiro, mas não é, como salienta Guimarães, o ponto de partida nem de chegada de Machado. Em uma classificação matemática, representa o meio de uma longa, prolífica e variada trajetória. Retoma e aprofunda temas trabalhados nas duas décadas anteriores e apresenta elementos novos, como a narração em primeira pessoa, ambígua e intrincada, do ponto de vista de homens ricos.

Nesse sentido, a passagem da frase final de "Iaiá Garcia", "Alguma cousa escapa ao naufrágio das ilusões", para o verme a quem Brás Cubas dedica, como saudosa lembrança, suas "Memórias Póstumas", é tanto uma ruptura assombrosa quanto uma decorrência lógica do percurso de Machado.

"Sem dúvida, há diferenças notáveis entre o que Machado fez em ‘Brás Cubas’ e o que vem antes. O grau de liberdade e criatividade a que ele chega nesse romance é verdadeiramente espantoso. Mas a ideia de que se deu um milagre, um renascimento, de que ele acordou e escreveu "Brás Cubas", vem justamente do desconhecimento do processo, de uma supervalorização dos resultados em detrimento do trabalho e do retrabalho que permitiram que chegasse ao ponto que chegou", reflete Guimarães.

Uma pista disso foi dada pelo próprio Machado, relembra o organizador da coleção. No fim da vida, ao preparar a segunda edição de "A Mão e a Luva", ele mesmo reconhecia "as diferenças de composição e de maneira do autor", mas concluiu indicando um ponto de convergência: "Se este [o autor, ele mesmo] não lhe daria agora a mesma feição, é certo que lha deu outrora, e, ao cabo, tudo pode servir a definir a mesma pessoa".

Como toda grande obra, a de Machado parece nova a cada releitura —e a questão racial está nos últimos anos revirando o entendimento que se tinha dela. Paulo Dutra, professor do departamento de português e espanhol na Universidade do Novo México (EUA), foi o responsável pelas notas relativas a isso na nova coleção.

Até onde se sabe, as bisavós do ramo paterno de Machado eram escravas em uma chácara de gente rica no morro do Livramento, no Rio. Não há registro dos bisavôs, mas pesquisadores cogitam que um deles tenha sido um padre nascido no arquipélago dos Açores, território português.

Ilustração de Adams Carvalho para "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis - Ilustração Adams Carvalho

Os avós paternos foram provavelmente alforriados quando se casaram. Eram descritos em documentos como pardos forros, assim como o filho deles, pai de Machado. Naquele contexto, "pardo" podia indicar tanto o tom de pele quanto uma distinção social: um escravo preto tornava-se pardo se libertado, como comenta Jean-Michel Massa em "A Juventude de Machado de Assis". Ao que se sabe, o escritor não deixou nenhum registro sobre sua família.

O ramo materno de Machado veio todo dos Açores; uma família branca, provavelmente. Aos 30 anos, o escritor casou-se com Carolina, uma portuguesa também branca.

Determinar com exatidão a cor de pele Machado é tarefa espinhosa, seja pela miscigenação familiar, pela falta de registros fotográficos de qualidade, pelo silêncio do próprio autor quanto a isso e pela mudança de perspectiva nesse debate nos quase dois séculos que nos separam de seu nascimento.

O biógrafo Gondim da Fonseca escreveu que Machado "era quase branco". Em uma carta famosa, Joaquim Nabuco repreendeu o crítico José Veríssimo por ter chamado o escritor de mulato em um artigo. "Penso que nada lhe doeria mais que essa síntese. Rogo-lhe que tire isso", escreveu o abolicionista. "Machado para mim era branco, e creio que por tal se tomava." Assim também informa sua certidão de óbito, em setembro de 1908: cor branca.

Inúmeros testemunhos de amigos e conhecidos, contudo, se referem a ele como mulato, palavra hoje com carga negativa. A máscara mortuária do escritor também indica traços negros, como os lábios grossos e as narinas largas.

Como não há registros de Machado sobre sua afrodescendência, e como seus romances são todos protagonizados por personagens brancos, por muito tempo perdurou a imagem de que fosse indiferente às questões raciais e omisso sobre a escravidão.

Esse debate revela algo sobre o estilo e o temperamento do escritor, mas diz respeito sobretudo a como o país se percebe racialmente. Louvado em vida como maior escritor do país, fundador da Academia Brasileira de Letras, funcionário público de alto posto, condecorado pelo Império, Machado era branco na perspectiva do século 19, mas é reivindicado como negro no Brasil do século 21.

"Ser branco, naquela época, e talvez ainda hoje, era uma categoria social. À medida que Machado ascende naquela sociedade, atinge postos negados a pessoas escravizadas, ocorre esse embranquecimento da figura dele", comenta Paulo Dutra. Esse processo, avalia, também acabou por influenciar a leitura de sua obra.

"A escravidão era o grande tema da época, e a gente presumir que o nosso maior autor não lidaria com o maior tema da época, eu acho que seria estranho, seria canhestro em relação a ele." Relendo a obra de Machado, Dutra constatou com mais nitidez que "todas as facetas da escravidão estão presentes; a violência, as contradições aparecem ao longo de todos os livros".

Não era, contudo, um autor panfletário, como de resto nunca defendeu nenhuma causa em sua ficção. "É difícil a gente tentar se colocar no lugar dele, mas eu suponho, pela natureza da sua obra, que o compromisso dele primeiro era com a literatura", prossegue o professor. "Essa expectativa de que ele teria que falar a cada parágrafo da escravidão é uma cobrança injusta que não seria feita a nenhum escritor branco."

O professor Eduardo de Assis Duarte foi um dos pioneiros dessa recente virada interpretativa. Em "Machado de Assis Afrodescendente", hoje em terceira edição, ele coleta poemas, crônicas, contos e trechos dos romances em que a escravidão e as relações inter-raciais aparecem mais ou menos explícitas.

"Não se trata de apenas mais um tema na obra machadiana, é um eixo crucial dela. Machado era um homem de seu tempo e de seu país. E um homem da imprensa, desde o início. Então registra toda aquela sociedade", diz Duarte.

As crônicas de jornais apresentam o tratamento mais direto de Machado sobre o tema. Usando o próprio nome ou pseudônimos, ele combateu a "detestável instituição social" da escravidão, denunciou leilões de escravizados, defendeu a punição de quem se dedicava ao tráfico negreiro. Cinco anos após a Abolição, narrou sua participação no júbilo popular que tomou as ruas em 13 de maio de 1888. Como funcionário do Ministério da Agricultura, Machado também atuou para favorecer escravizados, conforme relata o 26º livro da coleção da Todavia, "Terras", compilado de leis, decretos e resoluções, alguns assinados por ele.

Na prosa de ficção, esses temas são centrais em alguns contos, como "O Caso da Vara" e "Pai Contra Mãe", e aparecem de forma mais oblíqua nos romances, mas ainda assim sempre presentes, ressalta Duarte. "Quando converso com meus amigos do movimento negro, tem sempre alguém que levanta a mão e pergunta: ‘mas quem é o herói negro de Machado?’. E eu logo respondo: 'escuta, e quem é o herói branco?’. Machado não escreve um texto de louvação, ele é crítico, absolutamente crítico de um regime que, para ele, estava com os dias contados."

É o que Duarte chama de capoeira literária, síntese desses elementos dissimuladores de que Machado foi mestre, a arte de dizer de forma sinuosa, mas demolidora. A escravidão, indicava o escritor nas entrelinhas, com riso amargo, era uma chaga abominável que consumia a todos. Quando criança, Brás Cubas fazia de Prudêncio, menino escravizado, seu cavalo; montava no dorso dele e o açoitava com uma varinha. Adulto, Brás reencontra Prudêncio, agora alforriado, dando pancadas em seu próprio escravo.

"Agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto!", descreve Brás Cubas.

O professor Eduardo de Assis Duarte realça que Machado simboliza a decrepitude daquele sistema escravista através da morte de vários dos velhos patriarcas em suas histórias. "Eles são predadores e simbolizam o baque que aquele sistema levaria com a Abolição. E Machado também rebaixa os herdeiros, são pessoas imaturas, frágeis."

De fato, os homens de posse não desfrutam totalmente da felicidade que seus imensos privilégios fariam supor. Brás Cubas leva uma vida tediosa e sem perspectivas, seus projetos todos naufragam, e o pequeno saldo de sua vida, como explica no antológico final de suas memórias, vem da "derradeira negativa" de não ter tido filhos. Bentinho, em "Dom Casmurro" (1899), tem a vida aparentemente (é difícil ter certezas neste que é o mais ambíguo romance da ambígua grande fase de Machado) arruinada por ciúme, inveja e dúvida.

Aos demais personagens, situados no meio da pirâmide social, nem ricos nem escravos —os agregados, massa em tese livre, mas sem autonomia, figuras marcantes em toda a obra de Machado—, restava, em uma sociedade escravista de pouca mobilidade, a submissão aos senhores.

Dutra e Duarte citam "Memorial de Aires" (1908), o último livro de Machado, como talvez o mais explícito na questão da escravidão. Nele, Fidélia, a derradeira das viúvas machadianas, herda uma fazenda, que deixa aos alforriados quando parte para Portugal. "Ou seja, a primeira cena de reforma agrária da literatura brasileira foi Machado que escreveu. Reforma agrária para quem? Para os antigos escravizados", comenta Duarte.

Composto em forma de diário do conselheiro Aires, diplomata aposentado, o romance se passa nos anos de 1888 e 1889, cruciais na história do país. No dia da Abolição, testemunha a agitação das ruas e quase aceita enfileirar no cortejo de comemoração. "Nunca fui, nem o cargo me consentia ser propagandista da Abolição, mas confesso que senti grande prazer", conta.

Pouco depois, Aires visita um casal de amigos. Atribui a alegria dos donos da casa ao grande acontecimento público do dia. Mas não; eles celebravam a chegada de uma carta do afilhado, após longo silêncio. Aires deu-lhes razão. "Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular", conclui.

"É mais uma jogada de mestre de Machado criar esse narrador diplomata", avalia Paulo Dutra. "Um diplomata é uma pessoa que não expõe opiniões radicais. Então Machado deixa para o leitor criar sua própria interpretação sobre aquelas pessoas e a crise daquela sociedade."

Grande capoeirista, Machado não cansa de nos dar rasteiras.

Todos os Livros de Machado de Assis

Avaliação:
  • Preço: R$ 1.599,90
  • Autoria: Machado de Assis
  • Editora: Todavia, em parceria com Itaú Cultural
  • Organização: Hélio de Seixas Guimarães

Ocupação Machado de Assis

Avaliação:
  • Quando: De 18/11 a 4/2
  • Onde: Itaú Cultural (av. Paulista, 149; São Paulo)
  • Preço: Entrada Franca
  • Visitação: Terça a sábado, das 11h às 20h; domingos e feriados, das 11h às 19h

Os 26 títulos da coleção

"Desencantos", de 1861: Peça de teatro

"Teatro", de 1863: Duas comédias

"Quase Ministro", de 1864: Peça de teatro

"Crisálidas", de 1864: Poesia

"Os Deuses de Casaca", de 1866: Peça de teatro

"Falenas": Poesia

"Contos Fluminenses", de 1870: Contos

"Ressurreição", de 1872: Romance

"Histórias da Meia-Noite", de 1873: Contos

"A Mão e a Luva", de 1874: Romance

"Americanas", de 1875: Poesia

"Helena", de 1876: Romance

"Iaiá Garcia", de 1878: Romance

"Memórias Póstumas de Brás Cubas", de 1881: Romance

"Tu só, Tu, Puro Amor...", de 1881: Peça de teatro

"Papéis Avulsos", de 1882: Contos

"Histórias sem Data", de 1884: Contos

"Quincas Borba", de 1891: Romance

"Várias Histórias", de 1896: Contos

"Páginas Recolhidas", de 1899: Gêneros variados

"Dom Casmurro", de 1899: Romance

"Poesias Completas", de 1901: Retoma os 3 volumes anteriores e soma uma 4ª parte, "Ocidentais"

"Esaú e Jacó", de 1904: Romance

"Relíquias da Casa Velha", de 1906: Gêneros variados

"Memorial de Aires", de 1908: Romance

"Terras, Compilação para Estudo", de 1886: Volume extra, seleção de leis, decretos, avisos, resoluções, portarias e regulamentos que retratam a carreira de Machado como funcionário público

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