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Junot Díaz

A Covid-19 é um apocalipse

Em texto inédito para a Folha, Junot Díaz, vencedor do Pulitzer, vê na pandemia que matou 1 milhão de pessoas o 1º de muitos cataclismos

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Junot Díaz

Professor no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), o escritor dominicano-americano ganhou o prêmio Pulitzer por ‘A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao’ (Record, 2009)

Há mais de 20 anos eu dou aulas sobre o apocalipse. Diferentemente da fantasia ou da ficção científica, o apocalipse não é um gênero que atraia muita gente, embora isso esteja mudando agora que a cultura apocalíptica chegou de certa forma ao grande público. O apocalíptico me fascina desde que eu era criança, durante a Guerra Fria, quando a aniquilação nuclear parecia iminente. Embora o gênero apocalíptico nem sempre seja o preferido dos meus alunos, eu continuo a dar aulas sobre esse tema porque acredito piamente que ele nos dê uma das melhores óticas sobre o mundo atual. Digo aos alunos que pretendo ensiná-los a falar em apocalipse porque, em um mundo que está aquecendo rapidamente, eles precisarão ter essa fluência. Não tenho certeza se acreditam em mim, mas, normalmente, no fim do semestre eu conquisto alguns deles, o que não está mal.

Na maioria das vezes, a aula flui sem tropeços. O material pode ter trechos sombrios, mas é abstrato o suficiente para não chegar a ser desesperador. Se bem que, em alguns anos, o assunto fica mais incômodo, como no período pós-11 de Setembro.

Homem visita cemitério em Valle de Chalco, no México - Pedro Pardo - 24.set.20/AFP

E aí vem 2020 —especificamente, setembro de 2020. No momento em que alguém lê este texto, a Covid-19 vai ter causado mais de 1 milhão de mortes, além de todos os outros problemas terríveis e perdas que nos impingiu.

Um milhão de mortes —não dá nem pra pegar a dimensão da catástrofe, a cabeça dispara; e não é só esse primeiro milhão, mas os outros milhões que vão ficar desprovidos e desarranjados no vácuo do vírus. A contagem de mortos supera todas as que conhecemos, mas, como se diz: o coração sente mesmo sem entender.

Digo primeiro milhão porque está claro que o vírus não se deu por satisfeito ainda. Em vários países a pandemia entrou na chamada segunda onda e, se a ciência estiver correta (perdão, sou dessas pessoas esquisitas que acreditam na ciência), ainda teremos muitas mortes mais até que isso tudo acabe, se é que vai acabar.

Apesar daquilo em que alguns dos nossos líderes idiotas querem que acreditemos, a Covid-19 não é um teste com autoavaliação em que você pode se dar um 10, ou uma gripezinha da qual você se livra com um pouco de líquido e uma oração. A Covid-19 é um apocalipse. Não só pela destruição com que penitenciou o mundo, uma destruição que parece o fim de tudo. É o que eu digo a meus alunos: para um apocalipse ser verdadeiramente apocalíptico ele precisa, no momento de destruição, revelar. Você não precisa ser estudioso da Bíblia para saber que a palavra Apocalipse vem do grego apokálypsis, que significa “descobrir” ou “revelar”. Um verdadeiro apocalipse, portanto, nos mostra o que estava escondido ou não era assumido no mundo; ele fala de nós como países, como sociedades, como planeta, e nos traz notícias, o tipo de notícia mais arraigada que muitos de nós não querem ouvir ou absorver.

Enquanto nosso planeta chora, evita, renega, contempla um milhão de mortos —um milhão de mortos!— eu me pego retomando os debates que tive com meus alunos e todos os debates que teremos nas próximas semanas quando estudarmos a pandemia. Nas aulas, eu sempre pergunto o que o apocalipse em questão revela —no caso da Covid-19, o que ele revela por ora, porque estamos só na metade dessa maluquice, se tivermos sorte e o que estamos testemunhando for, talvez, o primeiro de muitos avisos.

Meus alunos, sem dúvida, terão respostas melhores que as minhas, mas eu vou arriscar que a primeira coisa que a pandemia revelou, nesta marca de um milhão de mortos, é como o neoliberalismo fundiu nossa noção do que é uma calamidade. Que 1 milhão de seres humanos tenham morrido, a maioria devido à negligência e à falta de planejamento dos nossos por assim dizer líderes e que muitos mais venham a morrer, e que não tenha se paralisado tudo diz muito sobre a esmaecida capacidade de compaixão do planeta. O vírus também revelou, claramente, que muitos de nós estamos nas mãos de líderes políticos que têm zero interesse no bem-estar de seu povo, líderes políticos contentes em assassinar centenas de milhares em nome de sua vaidade imbecil. O vírus revelou as profundezas do nosso comprometimento com o partidarismo político divisivo que nos poupa do trabalho difícil de nos unirmos para conseguirmos um mundo melhor. O vírus revelou, com a disseminação desenfreada de teorias da conspiração, a nossa aversão desonesta à verdade; mais fácil achar que a China “causou isso” do que aceitar a realidade de que, na verdade, nós, seres humanos, somos os que “causaram isso” –nossa má gestão do mundo, nosso apetite insaciável por lucro tornaram esse tipo de pandemia não apenas mais provável como simplesmente inevitável. Como a verdade é horrível demais e simples demais para enxergá-la, a culpa vai ficar com a China.

Daria para continuar, mas este é o espaço que me cabe aqui. Acima de tudo, o que o vírus revelou é que, apesar de toda a nossa obsessão com histórias apocalípticas e a cultura de nos prepararmos para o fim do mundo, nós, como raça, não estamos preparados para encarar o futuro que criamos. No Caribe, o aquecimento global desatou uma temporada épica de furacões; nos Estados Unidos, toda a Costa Oeste parece estar sendo reduzida a cinzas e, por assim dizer, isso é só o começo do Fim. Se nós, como raça, não conseguimos encarar uma pandemia, como vamos encarar os outros cavaleiros do apocalipse que libertamos?

A Covid-19 pode não disparar o alarme para os nossos líderes políticos, mas pode servir de despertador para o resto de nós. A forma como o mundo lidou com ela —muito, muito mal, na minha avaliação— é um sinal de como vamos encarar o futuro que nos resta. A Covid-19 é uma soma de coisas ruins, mas, se este mais de um milhão de mortes tiver algum sentido, então ele deveria inspirar muitos de nós a assumirmos um compromisso com a construção da solidariedade, com cultivar a tolerância e a compaixão e com a disposição crucial em lidar com a verdade de que precisaremos se sobrevivermos aos tantos futuros apocalipses que esperam por todos nós.

Tradução de Luciana Coelho e Francesca Angiolillo

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