Campanha Gaúcha tenta se consolidar como o futuro do vinho brasileiro

Região tem superado a Serra Gaúcha na produção especialmente de uvas tintas

Propriedade da Miolo, na Campanha Gaúcha

Propriedade da Miolo, na Campanha Gaúcha Divulgação

Flávia G Pinho
Campanha Gaúcha

Nos campos planos que compõem a Campanha Gaúcha, costuma-se dizer que a região tem alma braguaia —meio brasileira, meio uruguaia.

Fácil entender. Seus 12 municípios, de Candiota a Uruguaiana, formam uma faixa colada à fronteira com o Uruguai. Por ali, não é raro ouvir o espanhol misturado ao português.

Pois esse território de clima temperado como o país vizinho, com solo arenoso na porção oriental e argiloso na banda continental, desponta como a grande promessa para a vitivinicultura brasileira —e já tramita no Instituto Nacional de Propriedade Industrial o processo de obtenção do selo de Indicação Geográfica para os vinhos da Campanha Gaúcha.

Situada no Paralelo 31, mesma latitude de importantes regiões vinícolas da Argentina, Chile, África do Sul e Austrália, a Campanha tem superado a Serra Gaúcha na produção de uvas tintas, especialmente das variedades cabernet sauvignon e tannat.

“Nessa faixa, o período mais chuvoso não acontece no verão, quando é feita a colheita, mas no nosso inverno. Com isso, colhem-se uvas de maior qualidade”, explica Arthur Piccolomini de Azevedo, vice-presidente da ABS-SP (Associação Brasileira de Sommeliers) .

O volume de vinho produzido nos pampas ainda é baixo. De acordo com o Cadastro Vinícola, realizado pelo Instituto Brasileiro do Vinho em parceria com a Embrapa, a Campanha Gaúcha elaborou, em 2018, 5,6 milhões de litros de vinho, o que representa apenas 14,56% de toda a produção do Rio Grande do Sul.

Mas o entusiasmo de grandes e pequenos produtores indica que a região deve estourar em pouco tempo. 

“Como o clima é mais regular, conseguimos melhor resultado na maturação, o que favorece a produção de vinhos de guarda. A cada 10 safras, 8 são excepcionais”, afirma Adriano Miolo, diretor e enólogo do Miolo Wine Group, que mantém 650 hectares de vinhedos na Campanha.

Mais da metade deles pertence à Almadén, que a Miolo adquiriu em 2009. Primeira a se instalar nos pampas, nos anos 1970, a vinícola trabalha para recuperar a imagem e se reposicionar no mercado de vinhos finos –seu rótulo mais nobre, o Vinhas Velhas Tannat 2015, custa R$ 168,63 no ecommerce da marca. 

Outro gigante que fincou pé na região da fronteira, a Salton lança em maio o rótulo Domenico Campanha Gaúcha. Corte das uvas marselan e tannat, o vinho é o primeiro inteiramente produzido na unidade de Santana do Livramento e chegará ao mercado custando em torno de R$ 90.

“A Campanha tem maior quantidade de dias com sol e o vento não encontra barreiras em função do relevo, fatores que garantem a sanidade das uvas”, elogia o enólogo Gregório Salton.

A região também foi escolhida pelo apresentador esportivo Galvão Bueno. Fundada em 2010, a Bueno Wines produz 12 rótulos de vinho e um de azeite –outra cultura que adquire cada vez mais expressão na Campanha.

Grandes vinícolas, porém, são exceção por ali. Entre as cerca de 20 já instaladas, a maioria é pequena, tem administração familiar e produz lotes reduzidos a cada safra, entre 20 mil e 100 mil litros anuais –as chamadas vinícolas-boutique.

Algumas têm infraestrutura própria, vinificam seus vinhos em casa e recebem turistas regularmente.

É o caso da Guatambu, conduzida pela família Pötter em Dom Pedrito; da Campos de Cima, que os Ayub comandam em Itaqui; da Cordilheira de Sant’Ana, do casal de enólogos Gladistão Omizzolo e Rosana Wagner; e da Peruzzo, em Bagé, que leva o sobrenome dos proprietários.

Outras são ainda menores e, como não dispõem de equipamentos, vinificam as uvas em propriedades de terceiros. Entre elas está a Estância Paraizo, de Bagé, onde a família Mercio foi pioneira no cultivo de uvas shiraz.

Há até quem já produza vinho, mas ainda não possa comercializá-lo. Comandada pela uruguaia Cíntia Megget, a Pueblo Pampeiro, em Santana do Livramento, percorre há dois anos os labirintos da burocracia para engarrafar e vender sua produção.

Enquanto a papelada não sai, Cíntia investe no enoturismo, recebendo visitantes que pagam para almoçar nos jardins da vinícola, e desenvolve seus vinhedos.

Sob os cuidados do enólogo uruguaio Javier Michelena, estão em teste na Pueblo Pampeiro castas praticamente desconhecidas no Brasil, como a gamaret e a saperavi.

Na opinião de Azevedo, da ABS-SP, é de se esperar que a Campanha Gaúcha supere as expectativas nos próximos anos.

“Sem dúvida é nosso melhor terroir para uvas. Existe um consenso de que o futuro do vinho brasileiro está lá.”

Vinícolas da Campanha Gaúcha

Almadén
Comprada pela Miolo Wine Group, a vinícola de Santana do Livramento passou a produzir vinhos finos em larga escala. O rótulo Vinhas Velhas Tannat 2015 custa R$ 168,63 (loja.miolo.com.br). 


Batalha Vinhas & Vinhos
Acaba de inaugurar uma nova planta de 600 m², em Candiota, com o objetivo de dobrar a produção, atualmente de 50 mil garrafas/ano. O varietal Batalha Cabernet Sauvignon é vendido por R$ 56,13 (bebidasdosul.com.br).


Bodega Sossego
Além de cuidar da vinícola, o proprietário René Ormazabal Moura mantém um bar de vinhos em Porto Alegre, o Vineria1976, cuja carta privilegia os vinhos da Campanha Gaúcha. O branco Campaña Chardonnay 2014 sai por R$ 78 (terrunyo.com.br).


Bueno Wines
Localizada em Candiota, a vinícola pertence ao apresentador Galvão Bueno. O Bueno Anima Gran Reserva Merlot 2015, lote com apenas 3.000 garrafas numeradas, recebeu medalha de prata no Concurso Internacional de Vinos Bacchus Awards, realizado em março, na Espanha. Preço: R$ 563,80 (buenowines.com.br).


Campos de Cima
Hortência Ayub e as filhas, Vanessa e Manuela, estão à frente da vinícola, com sede em Itaqui. Os 16 hectares de vinhedos dão conta da produção anual, de 100 mil litros. O tinto 3 Bocas 2018, corte das castas Tempranillo, Malbec e Tannat, sai por R$ 68 (vinhosevinhos.com).


Cordilheira de Sant’Ana
Os enólogos Gladistão Omizzolo e Rosana Wagner são os proprietários da vinícola, que possui 20 hectares plantados em 2000. O tinto varietal Cordilheira de Sant’Ana Tannat custa R$ 128,70 (winerie.com).


Dunamis
O engenheiro agrônomo José Antônio Peterle, nascido na Serra Gaúcha, cultiva uvas tintas em Dom Pedrito. O varietal Dunamis Merlot 2012 sai por R$ 63,50 (vinhosevinhos.com).


Estância Paraizo
Fundada em 1790, a fazenda da família Mercio, em Bagé, assumiu vocação vinícola em 2000 –são apenas cinco hectares plantados com as variedades cabernet sauvignon e shiraz. O tinto Don Thomaz y Victoria Cabernet Sauvignon 2011 sai por R$ 93,50 (vinhosevinhos.com).


Guatambu
Valter Pötter e a filha, Gabriela, produzem 100 mil garrafas por ano. Entre os 22 rótulos, boa parte é numerada. O Rastros do Pampa Tannat 2018, vendido a R$ 61,50, foi eleito o melhor tinto nacional pelo Guia Descorchados 2019, lançado em 9 de abril (vinhosevinhos.com).


Nova Aliança
A cooperativa, que engloba diversos pequenos produtores, concentra a produção de vinhos finos em Santana do Livramento. O tinto Aliança Cerro da Cruz Tannat 2012 vale R$ 92,50 (vinhosevinhos.com).


Peruzzo
Clori Peruzzo, que preside a Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, toca a vinícola familiar com 15 hectares de vinhedos. Os 15 rótulos somam 70 mil litros/ano. O tinto Peruzzo Cabernet Franc 2013 vale R$ 49,90 (vinhosesabores.com.br).


Routhier & Darricarrère
Os irmãos franceses Pierre e Jean Daniel Darricarrère se associaram ao canadense Michel Routhier para produzir vinhos em Rosário do Sul. O branco Província de São Pedro Chardonnay 2014 é encontrado por R$ 65,70 (cavenacional.com.br).


Salton
Na vinícola de Santana do Livramento, a empresa processa uvas de 140 hectares de produtores parceiros. O rótulo Intenso Pinot Noir é vendido por R$ 35 (selecaoadega.com.br).


Seival/Miolo Wine Group
Localizada em Candiota, tem 200 hectares de vinhedos próprios e dedica-se à produção de vinhos de alto valor agregado. O Sesmarias 2018, corte das uvas cabernet sauvignon, merlot, petit verdot, tannat, tempranillo e touriga nacional, custa R$ 423,24 (loja.miolo.com.br).


Vinhética
Em uma pequena propriedade com 3,5 hectares de videiras, o enólogo francês Gaspar Desurmont e a carioca Graciela Bittencourt produzem queijos, embutidos e vinhos. O tinto Terroir d’Élegance 2017, que mescla as uvas cabernet franc, cabernet sauvignon, tannat, teroldego e ancellota, sai por R$ 95 (cavenacional.com.br).

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