Descrição de chapéu machismo

Mercado de vinhos é machista para 79,5% de mulheres ouvidas em pesquisa

Nos EUA, reportagem denunciou sexismo e assédio em entidade respeitada

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São Paulo

Anos depois que o movimento #metoo nasceu nos Estados Unidos denunciando o assédio sexual no mundo do cinema, outro segmento profissional, o dos vinhos, viveu escândalo semelhante naquele país.

Uma espécie de #winetoo, atingindo mulheres que trabalham como sommelière (responsável pelo serviço da bebida, principalmente em restaurantes). Situação que, revela uma pesquisa do colunista carioca de vinhos Marcelo Copello, diretor da revista Baco, pode ser parecida no Brasil.

Em outubro de 2020, o jornal The New York Times levantou denúncias envolvendo uma das entidades mais respeitadas do setor, a Court of Master Sommeliers dos Estados Unidos, que organiza os concursos que conferem o cobiçado título de Master Sommelier.

O calvário dos candidatos é retratado no documentário “Somm”, mas os relatos do jornal americano vão além dos rigores de um exame. São eventos de sexismo e assédio denunciados por 21 mulheres, culminando, em dezembro, na queda de toda a direção da entidade.

Detalhe: desde 1997 foram concedidos 155 títulos de Master Sommelier, sendo somente 24 para mulheres.

Um sátiro, de chifres e semblante demoníaco, segura cacho de uvas enquanto outro atrás dele bebe vinho em uma taça de metal
"Dois Sátiros", um óleo sobre tela de 1618-1619 de Peter Paul Rubens - Reprodução

Suspeitando que as profissionais do vinho no Brasil também enfrentassem percalços, Copello organizou, pela internet, entre 18 e 25 de janeiro, uma enquete entre sommelières brasileiras para colher opiniões e relatos. “Achei que poderia existir problema semelhante, e que era preciso fazer algo a respeito”, diz.

“Nossa cultura latina é muito machista, e às vezes não percebemos. Vejo pequenas atitudes diariamente no meio do vinho e fora dele.”

Ante o acordo de sigilo em seus depoimentos, participaram 500 profissionais de 18 estados. Delas, 43% são sommelières, as demais trabalham em outras funções na indústria, comércio e divulgação de vinhos —como enólogas em vinícolas, vendedoras em lojas, jornalistas. E 79,5% afirmam que sim, o mundo do vinho é machista.

Muitas escreveram relatos de problemas vividos, como piadas humilhantes e sexistas de clientes em restaurantes e lojas; salários menores para mesma função de homens; questionamento da competência por serem mulheres; oferta de comprar vinhos caros em troca de sexo; promessas de promoção no trabalho se aceitas as cantadas dos superiores; e houve até um relato de estupro.

Cerca de 20% das profissionais negam existir problemas, algumas acham que o cenário já foi pior, e que hoje as mulheres são mais respeitadas.

Sommelière pioneira no Brasil (formou-se na primeira turma da Associação Brasileira de Sommeliers do Rio de Janeiro, em 1982), a carioca Deise Novakoski sente os problemas na pele há quarenta anos. Nos restaurantes, enfrentava incredulidade tanto servindo vinhos quanto em sua outra especialidade: preparando drinques como bartender.

“Tive que rodar a baiana muitas vezes para me impor; e passado tanto tempo, o preconceito continua, mesmo com todo meu currículo”. Seu último posto em restaurante, por quinze anos, foi no agora extinto Eça Café.

Em Santa Catarina, a situação pareceu menos sufocante, ao menos durante os oito anos (até 2019) em que o cargo de presidente da ABS foi ocupado por uma mulher. Mas Néa Silveira relata que, mesmo no comando da entidade, muitas vezes teve que usar argumentos de autoridade para ser ouvida pelo público masculino.

“Nos últimos vinte anos a situação melhorou muito, já é mais fácil aceitar uma mulher no posto de sommelier”, diz ela, “mas ainda sinto que, para que a mulher conquiste o mesmo lugar de um homem, ela tem que ser muito melhor que ele, tem que desempenhar muito mais”.

A desconfiança da capacidade de conhecer vinhos por ser mulher apareceu muitas vezes na carreira da sommelière Jessica Marinzeck. Não tanto quando trabalhou em restaurantes na Europa —onde se formou numa escola de sommellerie—, mas quando no Brasil assumiu, em 2014, o posto de compradora global de vinhos da loja digital Evino.

“Eu era a responsável por tomar as decisões, mas havia representantes das vinícolas que exigiam falar com o CEO da empresa. Depois, quando abri um quiosque meu de vinhos num shopping, clientes perguntavam se era do meu marido, ou meu pai”, lembra ela.

Afinal, não é só o mundo dos vinhos. “O mundo todo é machista”, constata a sommelière do restaurante D.O.M., Gabriela Monteleone, que já viveu experiências negativas como não ser autorizada a decidir a lista de vinhos. Mas ela se considera privilegiada porque ao longo da carreira esteve quase sempre em ambientes com forte presença feminina.

“Minha primeira mentora foi a Adriana Grasso, da Enoteca Acqua Santa, onde fui estagiar no salão, em 2005”, recorda. Dali em diante, quase sempre esteve escorada por profissionais mulheres —chefes ou colegas— que incentivavam seu trabalho.

“Hoje no mundo todo há mulheres que são referência no setor de vinhos, atuando em postos-chave, e servem de exemplo de como a situação de equidade é importante”, afirma.

Os resultados da pesquisa sobre o machismo no mundo dos vinhos serão divulgados em detalhes numa transmissão ao vivo nesta quinta-feira (11), no Instagram @marcelocopello e no seu site marcelocopello.com.

“A revista italiana Gambero Rosso também vai publicar e, inspirada nessa iniciativa, pretende fazer uma pesquisa semelhante na Itália”, diz Copello. “Espero que inspire atitudes iguais em outros países e em outras indústrias fora do vinho.”

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