Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Vitória da Globo sobre os clubes gerou modelo com apagão de TV

Partida entre Atlético-MG x Palmeiras, neste domingo (12), não será exibida

Alex Sabino Luciano Trindade
São Paulo

O Palmeiras tem a chance de assumir a liderança do Campeonato Brasileiro ou o Atlético-MG pode seguir na ponta e se manter com 100% de aproveitamento. Apenas quem entrar no Mineirão neste domingo (12), às 16 horas, poderá ver a partida que define o líder do torneio.

É o segundo jogo do Palmeiras no Nacional sem transmissão na televisão –o confronto com o CSA também não foi exibido. Serão mais de 20 assim, caso o clube não feche acordo com o Grupo Globo.

Duelo com o Atlético-MG será segundo jogo do Palmeiras sem transmissão de TV no Brasileiro
Duelo com o Atlético-MG será segundo jogo do Palmeiras sem transmissão de TV no Brasileiro - Amanda Perobelli/Reuters

O apagão de TV é um fato raro no futebol atual. Ele repete um episódio de 1985, quando o então presidente da Portuguesa, Oswaldo Teixeira Duarte, bateu o pé e não permitiu a exibição da final do Paulista daquele ano, contra o São Paulo.

“Ninguém representa os clubes brasileiros hoje. O Brasil não faz negociação coletiva porque não há uma entidade coletiva para representar os clubes”, afirma Pedro Trengrouse, professor, advogado e coordenador acadêmico do curso FGV/Fifa/CIES de aperfeiçoamento em Gestão de Esportes.

Entre as principais ligas nacionais do futebol mundial, a do Brasil é a única em que as tratativas são feitas clube a clube. O Palmeiras ainda não acertou com o Grupo Globo para as transmissões em TV aberta e pay-per-view no Campeonato Brasileiro.

Em canais fechados, o clube assinou com a Turner. De acordo com a Lei Pelé, uma emissora só pode mostrar o jogo ao vivo com anuência das duas equipes envolvidas. O Atlético-MG tem acordo com a Globo.

Nos campeonatos nacionais da Europa mais importantes (Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália) as negociações são feitas em conjunto, pela liga de clubes. Isso faz com que não exista chance de acontecer um caso como o de Palmeiras e Atlético-MG deste domingo (12).

A liga faz a negociação e a venda dos direitos em nome de todos os times e depois distribui o dinheiro. A divisão do montante varia em cada país.

O processo de negociação individual começou com o fim do Clube dos 13, que reunia os principais clubes do país. A associação perdeu poder até ser extinta a partir de 2011, em uma manobra da CBF, Globo e cartolas de agremiações.

“Acabar com o Clube dos 13 foi uma besteira muito grande. Foi o grupo que conseguiu mexer nessa situação de venda de direitos de TV”, afirma Ataíde Gil Guerreiro, ex-dirigente do São Paulo e da entidade que reunia as equipes.

Em nota, a Globo afirmou que a definição sobre o modelo de negociação, individual ou coletiva, é “uma decisão do vendedor dos direitos”, os clubes. “Há prós e contras nos dois modelos”, conclui a empresa.

A briga do Clube dos 13 colocou em trincheiras opostas clubes que negociavam juntos até então. Em sintonia com a Globo, Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, trabalhou pelas negociações individuais. Em 2011, o clube deixou a entidade que era presidida por Fabio Koff (1931-2018), ex-presidente do Grêmio, que tinha o então presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil, atual prefeito de Belo Horizonte, como um de seus maiores apoiadores.

Consultado pela Folha, Sanchez não quis se manifestar.

Até então, era impossível que um jogo não pudesse ser transmitido porque a emissora que fazia contrato com o Clube dos 13 tinha a concordância de todas as equipes.

As disputas na entidade se acirraram em 2010 quando, com apoio da CBF e da Globo, Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo, foi derrotado na eleição para presidência do Clube dos 13 por Fabio Koff.

“A gente foi ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e conseguiu derrubar o direito de preferência que a Globo tinha”, relembra Gil Guerreiro.

Os contratos da emissora até então tinham uma cláusula que lhe dava a preferência de renovação. Se igualasse a maior proposta da concorrência, continuaria com os direitos de transmitir os jogos.

A única oferta foi a da Rede TV!, que venceu como única participante na licitação. Ganhou mas não levou porque a maioria dos clubes se recusou a assinar o contrato. 

O Clube dos 13 começou a implodir e a Globo continuou transmitindo o torneio quase com exclusividade, apenas cedendo alguns jogos para a Bandeirantes. Isso até o Esporte Interativo, do Grupo Turner, aparecer. A emissora a cabo assinou com 7 dos 20 times que estão no Brasileiro de 2019.

“No final de tudo, a Globo mais do que dobrou o que pagava antes para os clubes. Eles apresentaram novas propostas que atendiam aos interesses econômicos dos clubes”, afirma Paulo Odone, ex-presidente do Grêmio.

“O futebol brasileiro passou a ter contratos de transmissão de R$ 1 bilhão por causa dessa briga. Ela foi benéfica para os clubes”, diz Alexandre Kalil.

O último legado do Clube dos 13 foi apresentar a ideia que acabou abraçada pela Globo e anos depois pela Turner para a divisão do dinheiro.

Inspirada na liga inglesa, a entidade propôs que os valores do contratos fossem divididos em alguns fatores. Neste ano, em TV aberta e fechada, são 40% distribuídos igualmente entre as equipes, 30% de acordo com a posição final na tabela e 30% pela quantidade de partidas exibidas.

“É um paradoxo porque as negociações são individuais no Brasil, mas a fórmula é coletiva. A TV oferece o mesmo modelo para todos, mesmo negociando individualmente”, afirma Trengrouse.

O novo contrato do pay-per-view estabelece que os clubes vão dividir um valor mínimo de R$ 650 milhões. Deste montante, Corinthians e Flamengo vão receber um valor mínimo fixo que representa 18,5% do total.

Segundo estudo da consultoria EY, em caso de título, o Flamengo, por exemplo, ganharia mais de R$ 300 milhões. Também no melhor cenário possível, o Santos receberia cerca de um terço desse valor, R$ 100 milhões, já que tem menos jogos transmitidos na TV aberta e por sua porcentagem no pay-per-view ser menor.

Dezenove dos 20 times do Brasileiro acertaram os termos oferecidos pela Globo em TV aberta e pay-per-view. 

Os dirigentes do Palmeiras não aceitaram a proposta. O clube exigiu que não fosse aplicado redutor no pagamento do pay-per-view em razão de o clube ter fechado direitos de TV por assinatura com a Turner, dona do canal TNT, onde os jogos serão exibidos.

O Palmeiras também pediu luvas maiores que as pagas ao rival São Paulo e não aceitou que os jogos na capital paulista deixassem de ser transmitidos na cidade pela Turner.

“O Palmeiras está certo. Faz o que é melhor para ele. Se houvesse união dos clubes, o que não existe, as coisas seriam bem diferentes. Tinha de existir uma liga comandada por profissionais, não por cartolas de futebol”, diz Ataíde Gil Guerreiro, que viu de perto a implosão do Clube dos 13.

Foi o pontapé inicial no processo que chega à ausência da TV na briga pela liderança do Campeonato Brasileiro.

Como acompanhar Atlético-MG x Palmeiras

Internet
No site da Folha haverá informações em tempo real. Vídeos dos gols serão publicados após o jogo. O Atlético-MG fará o lance a lance do jogo em seu Twitter e em seu site. O Palmeiras transmitirá a narração em áudio do jogo em suas páginas oficiais no Youtube e Facebook. Sem os direitos de transmissão, a ESPN Brasil testará um formato. Em seu site, exibirá apenas as imagens do narrador e dos comentaristas, que estarão no estúdio. Dois repórteres da emissora estarão no Mineirão.

Rádio
As rádios paulistas Bandeirantes, Transamérica, 105 FM e Globo/CBN terão toda a equipe de transmissão no Mineirão. A Bandnews FM e a Jovem Pan contarão apenas com um repórter no estádio que dará os destaques da partida.

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