Descrição de chapéu The New York Times

Jogador faz gol e cobra Congresso por fim de violência armada nos EUA

Bedoya usou um microfone do gramado para se pronunciar em jogo da MLS

Victor Mather
Nova York | The New York Times

A direção da Major League Soccer (MLS), a principal liga de futebol masculino dos Estados Unidos (EUA), decidiu não punir o meia do Philadelphia Union, Alejandro Bedoya, por ter pego o microfone do gramado durante um jogo transmitido em rede nacional, no último domingo (4), e ter clamado para que o Congresso agisse para acabar com a violência armada nos Estados Unidos.

A declaração gritada poucos momentos depois que Bedoya marcar o primeiro gol da vitória do Union, não representa comportamento incomum para o jogador, que já havia expressado um apelo semelhante na mídia social — de modo mais explícito —, nas horas que antecederam a partida. A atitude criou uma situação potencialmente desconfortável para a MLS, que se esforça — muitas vezes contrariando os desejos dos torcedores — para excluir a expressão política dos estádios.

Um representante da MLS, falando após a partida e sob a condição de que seu nome não fosse mencionado, disse que era improvável que houvesse punição. Horas depois, a Liga emitiu um breve comunicado reconhecendo o direito dos jogadores de expressarem suas opiniões. A declaração não faz menção a Bedoya especificamente, ou a seu ato no domingo.

Alejandro Bedoya comemora durante partida contra o D.C. United, pela MLS
Alejandro Bedoya comemora durante partida contra o D.C. United, pela MLS - Scott Taetsch - 4.aug.2019/USA TODAY Sports

"A família Major League Soccer se junta a todos em luto pela vidas perdidas no Texas e em Ohio, e entendemos que nossos jogadores e funcionários tem posições fortes e passionais sobre o assunto", diz o comunicado.

Nesta segunda (5), o meia foi eleito o jogador da semana pela Liga.

Bedoya marcou o gol de abertura na vitória do Union por 5 a 1 sobre o D.C. United. Ele se encaminhou a um microfone colocado no gramado, na área de escanteio, e gritou: "Congresso, faça alguma coisa agora. Acabe com a violência armada. Vamos lá". Ele em seguida largou o microfone e voltou ao campo, e o jogo recomeçou.

A partida foi transmitida pela Fox Sports 1 e a mensagem de Bedoya ao microfone, um dos diversos posicionados em torno do gramado para registrar os sons do jogo, pôde ser ouvida claramente pelos telespectadores. Mas não pôde ser ouvida no estádio.

Foi uma mensagem vaga, compreensivelmente, dada sua brevidade. Mas Bedoya deixou claro na mídia social que tipo de ação busca. O jogador, capitão do Philadelphia Union, tuitou mais cedo durante o dia sobre os homicídios em massa que deixaram 29 mortos em El Paso e Dayton, Ohio, dizendo que "podemos começar com verificações de antecedentes mais rigorosas, leis que restrinjam a posse de armas por pessoas violentas, criação de um registro nacional de compra de armas, eliminação de lacunas na regulamentação de eventos de venda de armas e tributação da venda de munição".

Ainda que a mensagem dele em campo tenha sido curta, mesmo assim causou agitação. Embora alguns atletas tenham se pronunciado de forma franca sobre questões políticas e adotado atitudes como ouvir o hino nacional de joelhos ou usar camisetas com mensagens políticas durante o aquecimento pré-jogo, esse tipo de atividade raramente é visto em campo durante o jogo.

Em declarações mais longas depois da partida, Bedoya disse: "É um absurdo, cara. Não vou ficar sentado em silêncio e assistir a essas coisas sem dizer coisa alguma. Sou atleta, jogador de futebol, mas antes de tudo sou um ser humano".

O treinador de sua equipe, Jim Curtin, e os dirigentes do Union expressaram pleno apoio a ele depois do jogo.

"O Philadelphia Union apoia Alejandro Bedoya", o clube afirmou em comunicado. "Ele está se posicionando. Os acontecimentos transcorridos no final de semana são deploráveis. Nossos sentimentos a todos os envolvidos".

Curtin disse depois do jogo que "estou no time de Alejandro no Philadelphia Union e estou no time de Alejandro com relação ao que ele disse sobre o controle de armas". Curtis disse que o número de homicídios em massa nos Estados Unidos é causa de "indignação".

​Bedoya, 32, tem origem colombiana mas nasceu em Nova Jersey e jogou futebol universitário nos Estados Unidos. Depois de passagens pela Suécia, Escócia e França, ele foi contratado pelo Union em 2016. No começo da década, era convocado regularmente para a seleção masculina americana, e a representou na Copa do Mundo do Brasil em 2014.

Nas horas posteriores ao jogo, torcedores da MLS criaram diversas campanhas de "crowdfunding" para pagar qualquer multa aplicada a Bedoya.

A liga vem enfrentando dificuldades, em alguns momentos deste ano, para lidar com as declarações políticas dos torcedores, e tenta encontrar um meio-termo entre apoiar a liberdade de expressão e agir contra comentários hostis.

Depois que surgiu a notícia de que extremistas de direita vinham assistindo aos jogos do New York City FC, Don Garber, o comissário da MLS, disse que a liga não os excluiria preventivamente, porque "nossa função não é julgar ou rotular torcedores". A posição dele era de que a liga só tentaria policiar comportamento político e delitos de conduta de torcedores dentro dos estádios, mas, depois que o comentário atraiu fortes críticas, Garber esclareceu o que queria dizer: "A MLS condena organizações que propagam o ódio, ações que propagam o ódio e retórica que propague o ódio".

O incidente pouco fez para esfriar a disputa que fervilha entre a liga e as torcidas organizadas que ela cultivou como cerne de sua experiência de estádio. Antes do início da atual temporada, o Conselho de Torcedores Independentes, que reúne torcidas organizadas, e torcidas de clubes individuais rejeitaram as mudanças no código de conduta da liga. O novo código proibia o uso de "linguagem e/ou gestos políticos, ameaçadores, abusivos, insultuosos ou ofensivos".

Os torcedores objetaram à inclusão do termo "políticos", e o conselho afirmou em comunicado que 'nós, como organização, temos forte interesse em garantir que defesa dos direitos humanos não seja confundida com declaração política".

Em Seattle, torcedores foram proibidos em julho de exibir uma bandeira da Iron Front, uma organização que combatia os nazistas antes da Segunda Guerra Mundial. O clube disse que a bandeira representava uma imagem política proibida. Mais tarde se desculpou.

Muitos torcedores expressaram apoio a Bedoya. Em resposta a um tuite da liga pedindo que os torcedores escolhessem o jogador da semana, as respostas foram quase unânimes. Ainda que ele não estivesse entre os candidatos, a resposta mais comum, por larga margem, foi o hashtag "#VoteBedoya".

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