Testes com animais são necessários? Assunto divide opiniões

Especialistas dizem que pode haver alternativas aos bichos e pedem investimento

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São Paulo

Ao longo dos anos, animais têm sido usados em laboratórios pelo mundo para testar cosméticos, alimentos e remédios. Tudo para garantir que esses produtos não façam mal a nós quando chegarem ao mercado. Só que, nesse processo, são os bichos que sentem os efeitos colaterais das substâncias em experimento —e isso provoca polêmica.

Antigamente, não existiam outras ferramentas e os animais eram a única forma para testar a segurança das coisas. Mas, hoje, já existem estratégias para investigar algumas substâncias, e em alguns casos os bichinhos podem ser substituídos por pele artificial e até simulação em computador.

Com isso, há cada vez mais apelos para que o uso de ratos, coelhos e macacos seja banido das pesquisas.

Embora cientistas sigam regras para minimizar o sofrimento, como a Folhinha mostrou em reportagem do dia 20 de agosto, defensores da causa animal apontam que pode haver crueldade nos testes.

Eles alegam que os bichos são submetidos a lesões, alimentação forçada, administração de medicamentos e manipulação constante. Alguns ficam isolados e, para outros, o desfecho é a morte.

A questão dos defensores é a seguinte: as pessoas não aceitariam que experimentos desse tipo fossem realizados em serem humanos, então por que aceitam que sejam feitos em animais?

Grupo de amigos que se mobilizou contra testes cosméticos em animais. De pé, da esq. para dir:: Bruna Gianoto, 13, Giovanni Ivanoff, 13, Anny Diniz, 14, Ana Clara Braga, 13, Sophia de Oliveira Crote, 13, e Murilo Barbosa,13. Sentada, Maria Eduarda (Duda) com o cãozinho Bartolomeu - Eduardo Knapp/ Folhapress

Bianca Marigliani, assessora científica da ONG HSI (Humane Society International) no Brasil, afirma que o avanço do conhecimento e de novas técnicas permite métodos melhores do que os com bichos.

A HSI atua em todo o planeta para proteger animais e diz que mais de 40 países já proíbem testes com bichos para cosméticos. No Brasil, alguns estados têm proibições.

Quer dizer que os testes com animais podem acabar em breve? A resposta não é tão simples, porque ainda não é possível substituí-los em todos as pesquisas, especialmente na área da saúde, e o assunto divide opiniões.

Enquanto alguns são totalmente contra, outros aceitam que bichos são, por ora, a maneira de garantir resultado rápido e dar segurança a produtos como medicamentos e vacinas —ainda assim, eles afirmam que é preciso buscar soluções.

De acordo com Karynn Capilé, veterinária e consultora de bioética do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, o investimento não deve ser só de dinheiro, mas de tempo.

Para ela, estudantes de cursos que envolvem biotecnologia, por exemplo, podem desenvolver técnicas especiais, ou um aluno de engenharia poderia apresentar um software para fazer simulações e, assim, evitar o sofrimento animal no futuro.

Karynn acredita que a sociedade deve exigir informações e transparência de laboratórios e universidades.

Luisa Mell é uma famosa ativista da causa animal. Ela acha inaceitável que ainda se usem bichos na indústria de cosméticos, e também é contra o uso deles para testes de medicamentos —Luisa acha que, por serem organismos diferentes, os animais e os humanos, erros podem acontecer.

Em 2013, ativistas invadiram um lugar chamado Instituto Royal, em São Paulo, e Luisa acompanhou a ação de perto. Foram resgatados 178 cachorros que eram usados em pesquisas farmacêuticas.

Na reportagem que a Folhinha publicou no mês passado, a biomédica Laís Berro, professora no Centro Médico da Universidade do Mississipi (EUA), defendeu o uso de animais e disse que macacos, por exemplo, comem ração especial, tem brinquedo na gaiola, ouvem música e uma vez por semana assistem a filmes.

João Vasconcellos de Almeida, gerente de vida silvestre da organização Proteção Animal Mundial, afirma que isso não é suficiente. Ele explica que os primatas são animais com alta complexidade comportamental e cognitiva e, na natureza, estariam em bando, talvez se deslocando alguns quilômetros por dia.

Para João, os cientistas precisam levar em conta a senciência —ou seja, que animais são seres vivos, sentem dor e gostam de companhia, por exemplo— , avaliando seu uso em experimentações.

Em abril deste ano, Ralph, um coelho, virou a estrela de uma campanha da ONG HSI pelo banimento mundial de animais em testes de cosméticos. Na animação, ele fala de sua rotina como cobaia: cego de um olho e com zumbido permanente em uma orelha, tem queimaduras químicas nas costas.

"Mas, no final das costas, está tudo bem. Fazemos tudo isso pelos humanos, certo? São muitos superiores a nós, animais", diz o personagem.

O sofrimento de Ralph sensibilizou um grupo de adolescentes de São Paulo, e sete amigos criaram uma página nas redes (@phenixoficial) para cobrar novas leis de abrangência em todo o país com foco nos cosméticos.

Giovanni Ivanoff, 13 anos, conta que, para ele e seus amigos, testes para medicamentos não são corretos, mas que entendem que, ao contrário das empresas cosméticas, a medicina ainda não tem recursos suficientes para parar de vez com a experimentação animal.

"O objetivo é que todos se conscientizem que teste em animal é errado e que sempre vai ter outro recurso para usar", diz Sophia de Oliveira Crote, 13. Ana Clara Lourenço Braga, 13, conta que, ao se envolver com o projeto, também pensou no bem-estar do seu cachorrinho, e os amigos concordam que nenhum animal deve sofrer.
Os amigos Bruna, Sophia, Anny, Ana Clara, Maria Eduarda, Murilo, Giovanni e o cãozinho Bartolomeu - Eduardo Knapp/Folhapress

No caso dos cosméticos, muita gente já dá preferência a produtos chamados "cruelty free", ou seja, não testados em animais. Há ainda os veganos, que não têm na sua composição nenhum ingrediente de origem animal, como mel, por exemplo.

Também contrário aos testes, Ricardo Laurino, presidente da SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira) e autor do livro de ficção "O Último Teste" (2013), diz que natural optar por produtos não testados em animais se a qualidade for semelhante, seja o consumidor protetor de animais ou não.

A advogada Letícia Filpi, coordenadora do Gaav (Grupo de Advogadas Animalistas Voluntárias), diz que os bichos não devem ser vistos como propriedade e torturados a serviço de outra espécie.

Para ela, a lei Arouca, que regulamenta a experimentação animal, é contraditória, já que o direito de não ser maltratado está na Constituição. "Só de enclausurar (manter preso) já vai contra o princípio da não crueldade."​

TODO MUNDO LÊ JUNTO
Texto com este selo é indicado para ser lido por responsáveis e educadores com a criança

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