Descrição de chapéu Televisão 70 anos da TV

Por que as novelas ainda são a 'doce epidemia do país' mesmo há 70 anos no ar

Carro-chefe da TV brasileira já teve a morte decretada por causa das séries, mas nunca deixou de ser campeão de audiência

Pessoas discutem

Os atores Yoná Magalhães, Claudio Cavalcanti, José Wilker, Regina Duarte e Lima Duarte em cena da novela "Roque Santeiro" TV Globo/Divulgação

São Paulo

Quem será capaz de compreender o estranho temperamento de certas mulheres? Irene estava noiva de Ricardo. No entanto, trocou o apaixonado, meigo e submisso professor por outro homem, o endinheirado Clemente, que lhe dá joias e outras riquezas.

Um locutor narra com essas palavras uma cena de uma das primeiras telenovelas exibidas no Brasil, “Um Beijo na Sombra”, de José Castellar, de 1952. A estreia do gênero na TV brasileira se dera no ano anterior, com “Sua Vida me Pertence”, de Walter Foster. As tramas pioneiras, apresentadas ao vivo porque a televisão ainda não tinha a tecnologia do videotape, eram assim, melodramáticas até o último fio de cabelo com laquê.

Quase 70 anos depois, o triângulo amoroso de Irene, Ricardo e Clemente pode soar ultrapassado, mas a audiência brasileira segue grudada em seus herdeiros.

Homem e mulher se abraçam de lado. Mulher sorri e homem faz "cara séria"
Walter Forster e Vida Alves em "Sua Vida Me Pertence", a novela do 1º beijo da TV brasileira - Reprodução

A telenovela, que nos anos 1970 se tornaria o principal produto da indústria cultural brasileira, permanece relevante no país, mesmo com o crescimento da TV fechada, da avalanche de novas plataformas e de uma oferta audiovisual que parece infinita.

Nos últimos dez anos, a trama das 21h da TV Globo segue como líder de audiência nacional na televisão aberta. E, mesmo com a idade avançada, as telenovelas não se abalaram nem com a Covid-19 –ao contrário, a pandemia evidenciou sua resiliência.

As reprises que a Globo foi obrigada a exibir, ao suspender as produções atuais, chegaram a elevar a audiência da emissora. A vovó dos formatos televisivos também se tornou neste ano a vedete da Globo no jovem e concorrido mercado de streaming –na Globoplay, plataforma de conteúdo sob demanda, o consumo de telenovelas, de janeiro a agosto deste ano, subiu 140% em relação ao mesmo período do ano passado.

O resultado é atribuído a um projeto de resgate de clássicos, com a inclusão, a cada duas semanas, de uma novela que foi grande sucesso. Desde maio, estão disponíveis para assinantes, entre outras, “Tieta”, “Vale Tudo”, “Laços de Família”, “Fera Radical” e “A Favorita”—desta última, um assinante maratonou 115 capítulos em duas semanas, incorporando às telenovelas um hábito do público das séries.

Segundo Silvio de Abreu, diretor de dramaturgia da Globo e autor de “Guerra dos Sexos”, “Rainha da Sucata” e “Belíssima”, entre outras, a telenovela resiste porque, “como nenhum outro produto cultural de massa, acompanha a sociedade brasileira, discutindo seus preconceitos, mostrando suas mazelas, seus sonhos e os problemas cotidianos”. Ela mantém, diz o autor, “um diálogo permanente e diário com o público”.

Nem sempre foi assim. Os dramalhões iniciais dos anos 1950 e 1960 eram, em grande parte, baseados em roteiros estrangeiros. A telenovela pela primeira vez se tornou um fenômeno de popularidade no Brasil em 1964, com um roteiro cubano, “O Direito de Nascer”, de Félix Caignet, sobre o filho bastardo de uma moça branca e rica que era criado pela empregada negra, sem conhecer sua origem.

Exibida na Tupi e na TV Rio, a produção teve o último capítulo apresentado ao vivo no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e no Maracanãzinho, no Rio, com direito a desfile do elenco em carro aberto. Foi quando a imprensa passou a chamar a novela de “doce epidemia do país".

O ano de 1964 também foi marcado pelo golpe militar e o início da ditadura. O regime, aliás, iria fomentar o crescimento da televisão, vendo nela um veículo capaz de unificar o território nacional e facilitar o seu controle. A telenovela, no entanto, logo entraria na mira dos ditadores. Ao incorporar autores nacionais, boa parte deles comunistas, como Dias Gomes, as tramas passaram a contar histórias brasileiras, retratando as questões do país, muitas vezes de forma crítica e, por isso, se tornando alvo da censura.

Foi a partir do final dos anos 1960 e o início da década de 1970 que se estabeleceram as bases da teledramaturgia brasileira, que atingiu patamar inédito no consumo da população brasileira, com uma influência que iria moldar a identidade nacional.

“Ao abarcar as nossas dimensões contraditórias, os conflitos do cotidiano e dialogar com a variedade de costumes, cenários e lendas do Brasil, a novela começou um processo de contribuição sistemático para a nossa cultura e a vida social brasileira”, afirma Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia brasileira e latino-americana pela Universidade de São Paulo e autor do livro “A Hollywood Brasileira - Panorama da Telenovela no Brasil”.

De importadores, lembra Alencar, passamos a exportadores. “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, foi a primeira, em 1973. A “Escrava Isaura”, adaptação feita por Gilberto Braga do romance de Bernardo Guimarães em 1976, na década de 1980 iria se tornar um fenômeno mundial, conquistando da China à Europa.

Segundo o pesquisador, a novela brasileira continua hoje competitiva no mercado internacional. Isso se evidencia, em sua opinião, com a inclusão do gênero, em 2009, no Emmy, considerado o Oscar da TV americana, e com o fato de em 2013 a Feira de Frankfurt, maior evento mundial do mercado editorial, ter realizado uma homenagem à telenovela brasileira.

Neta de Dias Gomes e Janete Clair, casal central no processo de implementação da teledramaturgia no país, Renata Dias Gomes é roteirista da Globo e já atuou em “Malhação” –novela que, apesar de voltada ao público adolescente, certamente mais suscetível às novidades, surpreende ao se manter no ar com sucesso há 25 anos.

Desde criança, ela lê roteiros dos avós e acredita que, apesar de hoje as novelas terem cenas mais curtas e normalmente ritmo mais acelerado, a essência permanece. “A novela se adapta ao nosso tempo e o retrata. Quando vemos novelas antigas, de certa forma, estudamos a história do país, porque elas trazem os temas de sua época.”

Retrata o país e o influencia, num jogo de espelho. Alencar lembra alguns dos tantos exemplos. “Em 1975, ‘A Escalada’, de Lauro César Muniz, mostrava que era a hora de aprovar a Lei do Divórcio, o que iria acontecer dois anos depois. Em 1996, ‘O Rei do Gado’, de Benedito Ruy Barbosa, mostrou a luta do Movimento dos Sem-Terra e levou o Congresso Nacional a inflamados discursos contra e a favor da novela. Em 2003, ‘Mulheres Apaixonadas’, de Manoel Carlos, fez campanha contra o desarmamento e a favor do Estatuto do Idoso, ambos aprovados no país com referência à novela.”

Silvio de Abreu ressalta que a telenovela se “renova sempre”, tanto a temática, como estilo, a narrativa e produção. E ele não atribui a mudança de ritmo aos sucessos das séries, uma ideia disseminada entre estudiosos e mesmo profissionais da teledramaturgia.

“É falso acreditar que as séries vieram para dar um ritmo mais ágil às novelas, mesmo porque, antes das séries, já havia novelas agitadas”, diz. “As séries são outro tipo de entretenimento, com seus encantos e valores. A novela tem personalidade própria e não precisa se espelhar em outro tipo de programa para agradar o público”, afirma o autor, para quem “o ritmo da história não importa”.

“O que importa é a maneira como é contada. Cada novela tem seu ritmo. Uma mais plácida, contemplativa, pode encantar tanto quanto uma agitada.”

Essa é a aposta da Globo para, em 2021, produzir o remake de “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa. A emissora, em 1990, recusou esse projeto do autor, que o levou para a TV Manchete. Com uma linguagem mais cinematográfica, longas cenas da natureza —além de personagens tomando banhos nus nos rios—, a novela chegava a ultrapassar a Globo no Ibope, algo antes impensável para a Manchete. Três décadas depois, o Brasil voltará a contemplar tuiuiús voando e Juma e Jove nadando. Com a vantagem de, a um clique, pular as cenas dos pássaros e ver e rever a do banho no rio. Ou vice-versa.

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