Descrição de chapéu

'Candango' mostra como um oásis para o cinema surgiu em plena ditadura

Documentário tem excesso de depoimentos, mas consegue se equilibrar na tarefa de reviver período

Candango: Memórias do Festival

  • Quando Disponível entre 17 e 20 de dezembro
  • Onde 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, exibido pelo Canal Brasil e na plataforma de streaming Canais Globo
  • Classificação 16 anos
  • Produção Brasil, 2020
  • Direção Lino Meireles
  • Duração 119 min.
  • Gênero Documentário

O Festival de Brasília começou a surgir, com o nome de Semana do Cinema Brasileiro, em 1965, cinco anos depois da fundação da cidade, três anos depois da criação da Universidade de Brasília, onde surgiria o primeiro curso universitário de cinema no país, um ano depois do sucesso de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Vidas Secas” no Festival de Cannes.

Assim, não é de estranhar o caráter quase épico do documentário “Candango: Memórias do Festival”. Talvez nem tenha sido essa a intenção do diretor Lino Meireles. Mas é um pouco difícil escapar disso, quando se acompanha o festival. Ele surge quando o cinema do Brasil chega à maturidade (com o cinema novo) e, sim, um ano depois do golpe de Estado de 1964.

Acompanhar a memória do festival significa incorporar todos os dados acima, as lutas e desditas do cinema e adicionar a presença em massa de um público jovem para quem o festival de cinema era uma válvula de escape das brutalidades do governo militar.

O Cine Brasília, sede do festival, era uma espécie de oásis na ditadura. Em especial nos fins de semana o público preenchia todos os assentos. E por assento entendamos poltronas, corredores, escadas, carpetes. Tudo o que acomodasse um corpo humano era ocupado.

Placa em formato de seta mostra a frase "Brasília: a nova capital do brasil; alguns contra, muitos a favor; todos beneficiados!"
Cena de "Candango: Memórias do Festival" - Divulgação

De 1965 a 1971, o festival abrigou gritos e sussurros, numa era de grande inventividade, em que podiam estar presentes filmes tão diversos e tão fortes como o “Matraga”, de Roberto Santos, “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, “A Casa Assassinada”, de Paulo C. Saraceni. Entre muitos outros.

Data desse período também o célebre soco que Rogério Sganzerla desferiu no crítico Rubens Ewald Filho só por não ter gostado do que ele escreveu sobre seu “A Mulher de Todos” —episódio lembrado pelo próprio Rubens Filho, morto em junho do ano passado. O evento era passional em vários níveis.

Tanto que o governo Médici houve por bem o proibir entre 1972 e 1974. Voltou em 1975. O país vivia então os anos Embrafilme, mas também os da “distensão” e depois da “abertura”, quando nunca foi maior o entendimento entre os espectadores e os filmes brasileiros.

Foto em preto e branco mostra homem dançando com braços abertos
Cena de "Candango: Memórias do Festival" - Divulgação

São esses também os anos de brilho da Embrafilme. Hoje mal é possível acreditar que estar em Brasília, vencer o festival eram coisas essenciais para o sucesso de um filme. Com a decadência da Embrafilme, na segunda metade da sécada de 1980, o público desacreditou dos filmes.

Mas não o público do festival. Para ter uma ideia das paixões que moviam as plateias de Brasília, em 1991, pouco depois do governo Collor acabar com a Embrafilme, Neville d’Almeida teve seu “Matou a Família e Foi ao Cinema” intensamente vaiado. Não por causa do filme. Mas porque a atriz, Claudia Raia, era eleitora confessa de Collor.

Brasília enfrentou os duros anos pós-Embrafilme sem abrir mão do caráter nacional, ao contrário de Gramado, o outro grande festival da época, que se internacionalizou e nunca mais foi o mesmo.

Admitamos que Brasília também já não é mais o mesmo, ao menos em termos de repercussão. Ganhar o festival pode ser bom, mas não significa que o público acompanhará as escolhas do júri. Por tais desditas, digamos, “Candango” passa batido.

Está certo, pois são desditas do cinema brasileiro, não do festival. O filme prefere consagrar os bons achados do período pós-Collor, como o surgimento da escola pernambucana, a partir de “Baile Perfumado”, de 1997, e o surgimento do cinema brasiliense, e que viria a dar no prêmio principal a “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós, em 2014.

Até aqui se falou mais do festival do que do filme, pelo bom motivo de que os dois são inseparáveis. Isso é o que busca o filme de Meireles —associar a política, o cinema, o festival. Boa parte do filme, talvez a mais preciosa, vem de arquivos. A outra, de depoimentos.

Se várias vozes se fazem ouvir, parece indisfarçável a simpatia de Meireles pelos principais realizadores do cinema dito marginal. Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Carlos Reichenbach, André Luiz Oliveira são tratados com cuidado especial pelo seu realizador, bem como Helena Ignez, por meio de curtas e cortantes intervenções.

Embora por vezes se note um excesso de depoimentos que por vezes acrescentam pouco ao material, o conjunto se equilibra sem perder a unidade, ainda que busque dar conta de um período histórico vasto pela extensão, pela intensidade e pela variedade dos filmes e da política.

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