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Rubem Braga, morto há 30 anos, levou para o túmulo a crônica clássica brasileira

Para muitos, a morte do escritor foi também a pá de cal sobre o gênero que se popularizou na imprensa

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São Paulo

Se este texto tivesse sido escrito por Rubem Braga, ele poderia começar do seguinte jeito. Antigamente, jornais e revistas tinham pequenas seções de crônica, mas depois houve mudanças na direção da imprensa, e a crônica não foi mais necessária.

Essa é uma adaptação do primeiro parágrafo de “O Poema que Não Foi Aprovado”, crônica publicada por Braga perto do Natal de 1957 e lançada no seu livro “Ai de Ti, Copacabana”, na qual escreve sobre o fim de uma coluna sobre poesia na revista Manchete.

Mas este texto de hoje não é assinado por Rubem Braga, nem devemos confundir reportagem com crônica. Por isso, ele vai recomeçar de um jeito mais duro e informativo.

Maior cronista brasileiro, Braga morreu há 30 anos, em 19 de dezembro de 1990, depois de um câncer. Sua morte não foi só o ponto final numa obra que conseguiu se tornar incontornável na literatura brasileira exclusivamente com crônicas. Depois dela, um conjunto de mudanças ocorreram no gênero, tanto no tema quanto na forma.

Para muitos, a morte do escritor foi também a pá de cal sobre a crônica —pelo menos da maneira como ela se consolidou como escola literária no Brasil. “Não estaria errado dizer que a crônica clássica acabou”, avalia Sergio Rodrigues, escritor e colunista deste jornal. “Existe um pré e um pós-Braga”, concorda Rachel Valença, coordenadora de literatura do Instituto Moreira Salles.

O texto do escritor capixaba, que vivia numa cobertura no Rio de Janeiro cheia de árvores, era marcado por uma leveza muitas vezes surpreendente, como se retratasse o nada e a desimportância. Mas isso era só a casca, porque trazia uma profundidade poética e lírica pouco vista na imprensa nacional.

Não era raro suas publicações nos jornais falarem sobre o homem que nada no mar, a primeira mulher do fulano, as amendoeiras, os passarinhos e as borboletas cariocas. Uma conversa sobre o dia a dia, mas capaz de esconder o sublime —e que fez o crítico Antonio Candido definir a crônica como um gênero menor.

“A crônica transforma a banalidade em arte, e não a política ou o ódio em arte”, avalia o escritor Mario Prata. Segundo ele, a partir dos anos 1990, a imprensa deixou a era dos cronistas para viver a época dos articulistas. “O cronista conta um caso, o articulista explica e defende uma tese.”

Pai de Antonio Prata, que mantém uma coluna semanal de crônicas neste jornal, ele conta que às vezes puxa a orelha do filho quando ele se desvia da literatura e deixa seu texto ser levado pelo comentário político, por exemplo.

Estes de tempos de polarização, sobretudo depois do impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, são lidos como um dos motivos para o suposto fim da crônica —como se o país vivesse uma época borbulhante demais para se debruçar sobre passarinhos e amendoeiras.

Mas é bom lembrar que Rubem Braga escreveu durante a ditadura militar e na inflação galopante dos anos 1980, por exemplo. “O que mudou foi a imprensa”, acredita Ana Maria Machado, escritora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, que conheceu Braga quando era criança.

“Só o Rio tinha dez jornais diários ou mais. Cada um com seus espaços para a crônica. Isso permitiu que florescesse uma geração de escritores. Hoje os jornais diminuíram e os suplementos culturais desapareceram. Com menos espaço, a imprensa ficou mais ‘hard news’”, segue Machado.

Cadernos do escritor Rubem Braga guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa
Cadernos do escritor Rubem Braga guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa - Leo Lemos/Folhapress

A autora pondera, contudo, que o ocaso da crônica “braguiana”, que tem um texto lírico e pode lembrar muitas vezes um poema em prosa, esbarra também em uma mudança nos ares do tempo. “A sociedade hoje exige que todo mundo tenha uma opinião sobre tudo. Quer logo o like e a lacração”, diz. “Isso acaba com as divagações.”

Sergio Rodrigues, que também escreve semanalmente neste jornal, vai além. “Aquele tipo de texto não cabe mais no Brasil de hoje nem na expectativa e na sensibilidade do leitor contemporâneo.”

É como se a crônica de Rubem Braga —e isso pode se estender a outros autores, caso de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade ou Rachel de Queiroz— fosse lida como uma perda de tempo atualmente.

“Aquilo era uma epifania, mas o importante hoje parece ser só a política”, diz Rodrigues. “É como se as pessoas tivessem perdido a capacidade de se encantar e dissessem sempre: ‘está rindo de quê?’”, fala Ana Maria Machado.

O resultado, segundo os autores, é uma imprensa sisuda. “O humor no jornalismo está na UTI”, afirma Mario Prata. “Em muitos dias, você lê o jornal inteiro e não existe um respiro sequer nele.”

Autorretrato de Rubem Braga, em foto sem data
Autorretrato de Rubem Braga, em foto sem data - Arquivo Roberto Seljan Braga/Divulgação

O lugar da crônica literária brasileira —que reuniu mais nomes do que os já lembrados aqui, como Machado de Assis, Lima Barreto, Otto Lara Resende, João Antônio e, mais recentemente, Luis Fernando Verissimo e Humberto Werneck, por exemplo— parece cada vez mais estar saindo dos jornais e migrando para outras plataformas.

Um dos casos é o Portal da Crônica Brasileira, lançado pelo Instituto Moreira Salles em parceria com outras instituições, entre elas a Fundação Casa de Rui Barbosa, que cuida do acervo de Rubem Braga. Embora não tenha crônicas novas publicadas periodicamente, ele serve como um museu do gênero.

“É um ambiente de estudo dessa época em que a literatura encontrava espaço na imprensa”, conta Rachel Valença, do IMS. “Ainda é cedo para saber para onde vai esse tipo de texto no século 21 —talvez para as redes sociais.”

Independentemente dos rumos, Mario Prata faz um apelo. “Sem a crônica, resta salvar as palavras cruzadas. Hoje é o único lugar do jornal que não foi contaminado pela política. Pelo menos ainda.”

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