Herdeiros penam para preservar e mostrar ao público acervos de artistas

Familiares e responsáveis pelo legado de nomes da cultura brasileira nem sempre conseguem espaço em instituições

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São Paulo

Após anos recebendo pesquisadores em sua casa para consultar o acervo de Augusto Boal, morto em 2009, Cecilia, sua mulher, conseguiu finalmente um local que abrigasse os materiais do dramaturgo e teórico do teatro.

Manter vivo e acessível o trabalho de artistas tem sido um desafio para famílias que buscam apoio financeiro ou técnico para catalogar, digitalizar e disponibilizar acervos pessoais de importantes nomes da cultura brasileira.

Antes de chegar, em fevereiro do ano passado, ao Museu Lasar Segall, em São Paulo, o acervo de Boal, que abriga programas de peças, recortes, comentários e fotografias, já havia passado pela Unirio, pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro e pela UFRJ, que arcou com a digitalização de materiais audiovisuais e jornais.

“Eu acabava sempre trazendo de volta para casa”, diz Cecilia, porque as instituições não tinham dinheiro para manter. “Quando levavam, tinham a expectativa de conseguir verba, mas sempre era muito pouca.”

Com o dinheiro de algumas exposições, o acervo foi catalogado e digitalizado. O banco de dados, só em português, foi pago por Cecilia. “Dado que Boal é um teórico internacional, seria fundamental que estivesse pelo menos em inglês, mas seria muito caro”, diz ela.

Logo após a morte de Boal, ela recebeu uma proposta da Universidade de Nova York, onde o dramaturgo dava aulas, mas rejeitou, por não querer que o material saísse do país.

“A América Latina —e grande parte do mundo— está sendo espoliada há séculos. Tem uma parte do mundo que vive de explorar os outros”, diz. “Entregar, em troca de dinheiro, o que foi produzido por um brasileiro é um absurdo completo. É contra a minha ideologia e contra a do Boal.”

Jussilene Santana, responsável pelo Instituto Martim Gonçalves, ecoa frase da peça “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, ao falar dos desafios de se manter um acervo no país: “Sempre precisei da ajuda de estranhos”, diz a atriz e pesquisadora.

Há 25 anos ela reúne o acervo do cenógrafo e diretor pernambucano Eros Martim Gonçalves, fundador da primeira escola de teatro ligada a universidade pública, na Federal da Bahia, morto em 1973.

Para Santana, não há caminhos abertos para a sistematização de acervos no Brasil. Com uma pequena parte do material catalogada e digitalizada, o acervo do instituto, que tem um conselho que auxilia Santana, é guardado na casa da atriz, no Rio de Janeiro. “Não é meu, é um pedaço da memória do país, e é uma responsabilidade gigantesca.”

Não se pode impor sobre as famílias, diz ela, a responsabilidade de manter acervos.

Para Marina Lutfi, filha do músico Sérgio Ricardo, vivemos uma crise cultural, de patrimônio e de identidade.

Em dezembro passado foi lançado o site Sérgio Ricardo Memória Viva, que disponibiliza 5600 itens do acervo do artista morto em julho de 2020.

A família de Ricardo conseguiu o apoio da Unirio para digitalização de parte do acervo. Depois, graças a um edital da Faperj, desenvolveram um banco de dados online. No ano passado, com o apoio do Itaú Cultural, conseguiram uma equipe para acelerar o trabalho e lançar o site.

A partir de março estarão sem apoio, mas cerca de 70% do acervo de Sérgio Ricardo já está catalogado, ainda que siga guardado com a família. Ter onde colocar o acervo ainda é uma preocupação.

Em 2008, uma caixa d’água que ficava sobre o cômodo que abrigava caixas de João Donato estourou. Nada foi perdido, mas o acidente acendeu uma luz para Ivone Belem, mulher do músico de 86 anos.

O Instituto João Donato foi criado em 2012 para manter o acervo de um dos precursores da bossa nova, mas as caixas com mais de mil fitas e papéis com composições e arranjos seguem na residência do casal.

Belem diz que o maior desafio é saber onde pôr o material de forma segura para que ele perdure. “Não quero carregar esse acervo como se fosse uma tartaruga”, diz ela.

Ela procurou ajuda junto à museologia da Unirio. O instituto teve o apoio da universidade por cinco anos para catalogação. Porém, só cerca de 10% do material está catalogado, sobretudo arranjos de músicas e fotos em papel.

Agora, graças à Lei Aldir Blanc, de ajuda a cultura na pandemia, o instituto, que é também um ponto de cultura, poderá disponibilizar 80 itens do acervo em um site.

Paulo, filho de Tom Jobim, criou em 2001 o Instituto Antonio Carlos Jobim. “Não fazia sentido guardar tudo em um baú para ninguém ver”, diz ele.

A ajuda para as técnicas de catalogação veio da Casa de Rui Barbosa e hoje o instituto, no Jardim Botânico do Rio, também abriga o acervo digital dos músicos Milton Nascimento, Gilberto Gil, Chico Buarque, Dorival Caymmi e Paulo Moura, do arquiteto Lucio Costa e da atriz Marieta Severo.

A catalogação e digitalização do acervo de Tom Jobim, único que o instituto tem a guarda do material físico, foi feita com verba da Rouanet. São fotografias, cartas, arranjos, gravações e objetos do compositor.

Paulo diz que a família nunca pensou em vender o acervo e que gosta de cuidar dele, mas que, um dia, pode ser necessário colocá-lo em outro local. “Temos instituições ótimas, mas tem o medo de que entre um governo diferente e ela desapareça, aí fica o acervo largado num baú qualquer.”

Priscilla Rozenbaum, viúva de Domingos Oliveira, quer dar visibilidade ao acervo do cineasta, morto em 2019, para que sua obra não caia no esquecimento. Domingos já havia digitalizado muito de seu material, como cartas e diários, conta ela.

“Dá aflição ver tudo isso em HDs externos, os DVDs no armário”, diz ela. “Tenho vontade de mostrar para o mundo esse homem que eu amei e que acho genial.”

As instituições existentes, porém, também precisam de verbas, e não podem, sozinhas, dar conta do desafio.

A USP abriga diversos acervos em seus museus e institutos. Um deles é o do Instituto de Estudos Brasileiros, o IEB, que guarda pinturas, desenhos, cartas, documentos e livros de Mário de Andrade, Anita Malfatti, Milton Santos e outros.

Faz parte de sua política comprar e receber doações de artistas e intelectuais. Porém, diz Luiz Armando Bagolin, professor do IEB e ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade, em função de restrições orçamentárias, vem sendo difícil comprar e manter acervos.

“Temos pensado muito antes de receber futuros acervos porque olhamos para nossa capacidade financeira e pensamos se vamos conseguir dar conta”, diz o professor.

O instituto recebe, anualmente, de 30 a 50 pedidos de grandes doações de acervos e bibliotecas pessoais.

O processo para que a oferta seja aceita pode levar até dois anos e envolve visitas técnicas ao local onde o acervo está e avaliação por um conselho formado por professores de todas as áreas da universidade.

Uma vez aceito, o material é tratado com radiação no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares contra ácaros e fungos, e, só depois, é manejado.

Para Bagolin, mais importante do que saber se um acervo está em mãos privadas ou públicas, no Brasil ou fora do país, é saber se ele estará a serviço do interesse público. “Os acervos têm de permanecer gravitando em torno da partilha”, diz. “Não adianta ficar guardado.”

A Funarte, autarquia ligada ao Ministério do Turismo, tem sob sua custódia 320 coleções e arquivos privados, em diversos suportes. Há ali, por exemplo, o acervo dos atores Dina Sfat, Paulo José, Fernanda Montenegro e Fernando Torres e do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha.

O orçamento da Funarte destinado à preservação, registro e difusão de acervo gira em torno de R$ 1 milhão ao ano. Mas, segundo Joelma Ismael, coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa da Funarte, a fundação avalia investimentos para ampliar a capacidade de recepção de acervos.

Sob a guarda do Instituto Moreira Salles, o IMS, estão cerca de 2,5 milhões de itens, entre acervos relacionados à música, literatura, fotografia e iconografia, como cadernos e cartas de Carlos Drummond de Andrade e Carolina Maria de Jesus.

Marcelo Araújo, diretor geral do IMS, diz que o instituto, que é privado, recebe propostas de doações regularmente, de familiares mas também de artistas vivos, e que procura ativamente artistas e detentores de acervos para incorporação.

“Os acervos têm sentido na divulgação pública, para que sejam disponibilizados e possam ser compartilhados com o público, é para isso que devem ser preservados”, diz ele.

Para Araújo, só o trabalho em conjunto de diversos órgãos e instituições pode garantir a preservação da memória do país. “Os desafios e a responsabilidade são imensos, uma instituição sozinha jamais vai dar conta de todas as dimensões disso.”

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