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Autora de livro que inspirou 'Nomadland' diz que vida nômade veio para ficar

Jornalista Jessica Bruder passou anos vagando com gente que foi morar em trailers no rescaldo da crise de 2008

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São Paulo

A cineasta Chloé Zhao venceu o Oscar por “Nomadland” com suas imagens algo idílicas da vida na estrada e seus trailers vagando sob a luz recortada de sóis poentes. Não escapou das críticas de que teria escondido sob camadas de cenas líricas as asperezas da vida dos nômades americanos, uma legião de enjeitados pelo capitalismo contemporâneo, empurrados rumo ao subemprego.

Talvez não seja das críticas mais justas. Seja como for, o livro homônimo que inspirou o filme, que chega ao país nesta semana em tradução para o português, dirime essas ambiguidades. A jornalista Jessica Bruder passou anos vagando com gente que recorreu a trailers porque perdeu a casa no rescaldo da crise econômica de 2008 ou que, diante de aposentadorias esquálidas, teve de voltar ao batente.

Ela destrincha, por exemplo, por que essa mão de obra envelhecida soa tão atraente a gigantes como a Amazon, que recruta centenas de idosos para trabalhos braçais em programas vendidos como se fossem acampamentos de verão.

Não que este seja um livro-denúncia. Existe nele uma ode ao desapego material, mas as suas páginas vão além da 
poesia visual de Chloé Zhao.

“Ao escrever ‘Nomadland’, eu queria que ele passasse duas ideias —a de que as pessoas podem ser testadas de uma maneira cruel por um sistema injusto, mas ao mesmo tempo mostrar resistência e sentir
alegria”, afirma Bruder, em entrevista por videoconferência de sua casa, no Brooklyn nova-iorquino.

Sete anos atrás, a jornalista, que tinha passagens por veículos como o New York Times e a revista Wired, escreveu uma reportagem na Harper’s Bazaar chamada “O Fim da Aposentadoria”. O texto começa com o relato de Linda May, sexagenária desempregada que chegara a contemplar o suicídio —foi dissuadida ao notar que teria de matar os seus meigos cachorrinhos também.

Acabou virando uma nômade, e a sua história é uma das que aparecem no filme, narradas à personagem de Frances McDormand. Na trama, a atriz interpreta Fern, uma viúva que decide cortar as raízes e encontra no caminho as pessoas reais do livro —todas ceifadas pelo achatamento dos salários e pela crise da habitação nas eras Obama e Trump.

Entre elas estão Bob Wells, espécie de guru dos nômades, um tipo entre o velho hippie e o rebelde anarquista que corporifica o espírito da obra. Ele prega que é preciso se ver livre da maior das despesas —a da moradia— e que a estrada é uma forma de alento e um ataque a um sistema injusto.

Wells também crê que, ao contrário da Grande Depressão dos anos 1930, essa é uma realidade que veio para ficar.

“As pessoas que encontrei na estrada não pareciam ter essa visão de que as coisas vão se normalizar”, diz Bruder. “De um lado, há os salários estagnados, de outro, uma noção de que o consumo é péssimo para o planeta e de que precisamos viver com menos.”

Ecologia à parte, a vida nos trailers parece guardar muito da essência americana. As casas sobre rodas não deixam de recriar a vida nos subúrbios, só que com motores, como nota a jornalista. “Somos uma nação de imigrantes. E há esse nosso otimismo, que não deixa de ser nocivo às vezes, essa ideia de que sempre podemos encontrar a renovação do outro lado da esquina.”

A pandemia, diz ela, parece ter acelerado o fenômeno do nomadismo, redesenhando a relação entre moradia e trabalho. E há incertezas se os ambiciosos planos econômicos anunciados por Joe Biden vão mudar esse cenário.

“As pessoas estão impressionadas que ele rumou até mais à esquerda do que pensavam e o comparam a Franklin Roosevelt e ao New Deal [que encerrou a crise econômica], mas precisamos ver o quanto isso vai virar atitude de fato.”

Bruder ainda mantém o seu Van Halen, que é como ela batizou o furgão de segunda mão com o qual cruzou as estradas, “as veias da América”, para achar as histórias do seu livro. Aqui, um parênteses –por mais que a autora tenha se embrenhado nos mesmos subempregos temporários que os seus entrevistados e vivido os perrengues de uma casa sobre rodas, ela optou por bem em fugir do relato egocêntrico de suas agruras, num raro gesto de humildade jornalística.

A mesma com que, no volante do espalhafatoso Van Halen em meio ao pesado trânsito de Los Angeles, topou conversar com uma agente de estúdios, interessada em 
levar seu livro aos cinemas.

“Fiquei espantada que alguém pudesse ter interesse em adaptar o livro, porque ele não tem nenhum dos elementos que Hollywood gosta, sexo, drogas ou juventude.”

Nomadland

  • Preço R$ 59,90 (304 págs.)
  • Autor Jessica Bruder
  • Editora Rocco
  • Tradução Ryta Vinagre
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