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Biografia do livro '1984' disseca obra mais famosa de Orwell sem especular

'O Ministério da Verdade' analisa construção e legado do romance mais influente do século 20

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O Ministério da Verdade - Uma Biografia de 1984, o romance de george orwell

  • Preço R$ 89,90 (488 págs.); R$ 44,90 (ebook)
  • Autor Dorian Lynskey
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Claudio Alves Marcondes

Neste ano em que a obra de George Orwell caiu em domínio público e inundou prateleiras físicas e virtuais com novas traduções de “1984”, vieram a reboque experimentos especulativos para imaginar o que o autor cujo sobrenome virou sinônimo de distopia pensaria dos nossos dias de fake news, redes sociais e brexit.

Felizmente, o jornalista britânico Dorian Lynskey não cai nessa armadilha em “O Ministério da Verdade”, que se propõe a ser uma biografia do romance mais conhecido de Orwell, publicado em junho de 1949, sete meses antes da morte do autor.

Sem perder tempo com especulações, ele apresenta uma pesquisa consistente que se vale de diários e cartas não apenas de Orwell, mas também de seus amigos, colegas e desafetos, a fim de iluminar seu caminho desde a partida para combater o fascismo na Guerra Civil Espanhola, em 1937, até o período de 227 dias em que autor e obra-prima coexistiram.

Lynskey ainda expande a visão do leitor com capítulos analíticos sobre três importantes influências para Orwell –o gênero da ficção utópica e distópica, o romance “Nós”, do russo Ievguêni Zamiátin, e H.G. Wells.

Autor de clássicos como “Guerra dos Mundos” e “O Homem Invisível”, Wells é descrito como um planeta que exercia enorme atração gravitacional sobre basicamente qualquer escritor na primeira metade do século 20 que se aventurasse a botar no papel mundos futurísticos, avanços científicos e o poder —às vezes opressor— da tecnologia.

Os diálogos que Orwell travou com esses escritores, sejam em carne e osso em jantares regados a vinho e conhaque, sejam intelectuais em resenhas e ensaios, se transformam em ferramenta de grande valor na mão de Lynskey, que amarra esse feixe de ideias e personalidades numa narrativa clara e bem encadeada.

Como bem lembra o autor na introdução, “1984” é um livro mais conhecido do que lido. E se o risco de ser mal interpretado é inerente a qualquer escritor de uma obra de grande popularidade, ele só aumenta quando se trata de uma sátira política que vaticina que o totalitarismo pode acontecer em qualquer lugar.

ilustração de pés de executivos sobre espécie de labirinto em formas geográficas
Ilustração da artista plástica Regina Silveira para edição especial de '1984', da Companhia das Letras - Divulgação

Com a morte de Orwell, Lynskey analisa a vida pública do romance, novamente mesclando análises literárias e políticas com histórias saborosas sobre as tentativas –geralmente mal-sucedidas– de adaptar o livro para outros formatos, desde o rádio até o cinema, passando pela televisão e até um musical de rock.

A ideia de David Bowie, que se dizia obcecado pelo livro, foi vetada pela viúva de Orwell, e os destroços do projeto acabaram aproveitados no álbum “Diamond Dogs”, de 1974.

Se nos primeiros anos da Guerra Fria "1984" foi sequestrado pela direita anticomunista e louvado como retrato do pesadelo soviético, aos poucos a esquerda também o abraçou como denúncia do poder de um superestado capitalista.

São tantas as camadas que, a depender das circunstâncias históricas, os leitores determinam a mensagem que se destaca. “Durante a Guerra Fria, era um livro sobre totalitarismo. Na década de 1980, virou um alerta sobre as tecnologias de vigilância. Atualmente, ele é sobretudo uma defesa da verdade”, resume Lynskey.

Houve momentos em que a saga de Winston Smith contra o regime do Grande Irmão foi tomada por superada, especialmente nos anos 1990, coincidindo com o “fim da história” propalado por Francis Fukuyama depois do desmonte do bloco socialista.

Em maio de 2001, o historiador Timothy Garton Ash escreveu que “o mundo de ‘1984’ acabou em 1989”. Quatro meses depois, o 11 de Setembro e a narrativa divulgada pelo governo Bush sobre as supostas armas de destruição em massa do Iraque indicaram que não era bem assim.

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