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'Homens Pretos (Não) Choram' soma clichês ao tentar parecer poético

Livro de Stefano Volp sofre da mesma condescendência dos que pensam que literatura é uma peça de defesa

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Luiz Mauricio Azevedo

Crítico literário e pesquisador na FFLCH/USP, é autor de "Estética e Raça: Ensaios sobre a Literatura Negra" (Ed. Sulina)

Homens pretos (não) choram

  • Preço R$ 49,90 (224 págs.)
  • Autor Stefano Volp
  • Editora Harper Collins Brasil

É uma verdade universalmente aceita que todo livro publicado por uma grande casa editorial precise de um crítico literário que o leia, o compreenda e, talvez, o recomende. A expectativa austeniana dessa premissa contrasta com os frustrantes resultados colhidos por quem se dedica à leitura de "Homens Pretos (Não) Choram", obra que ganhou nova edição pela HarperCollins.

O autor, o sudestino Stefano Volp, espalha por 224 páginas a tentativa estulta de transformar em matéria literária as limitações sociais que a realidade concreta impõe aos homens negros. A despeito de seu esforço, o que chega até nós é uma soma de clichês, truísmos e cenas cujo valor se perde na adoção de uma voz autoral que se deseja poética, mas que se apresenta insegura, pueril e sem repertório.

capa de livro
Ilustração de capa de 'Homens Pretos (Não) Choram', livro de Stefano Volp lançado pela HarperCollins - Stefano Volp/Divulgação

Já nas primeiras linhas, o autor deixa muito clara a essência anêmica de seu texto. "Resolvi chamar esses contos de quarentênicos, porque quero me lembrar que, mesmo em meio ao mais profundo caos, é possível florescer", escreve.

Outras passagens soam, no mínimo, ingênuas. "Finalizar a carta com seu nome simbolizava uma despedida da vida. Pelo menos tinha alguém para repassar suas conquistas táteis, mas e as da alma? Quem poderia nomeá-las?" Ou ainda –"500g de afeto/ uma xícara de olho no olho/ uma visita para reconhecimento de ambiente/ uma dose de autoanálise/ uma gota de lágrima/ calor humano a gosto".

Em todos os dez empreendimentos –vá lá, contos– que o autor propõe, sobram formas infantilizadas de retratar a masculinidade sob o mesmo prisma condescendente e incauto dos que pensam que a literatura é uma petição de sursis. A literatura aparece como uma peça de defesa do suposto homem negro ou um habeas corpus preventivo destinado não a refletirmos sobre o que somos, mas a explicar o que somos para quem já deu sucessivas provas de que não deseja nos ouvir.

homem negro encostado em janela
O escritor, roteirista, tradutor e produtor editorial Stefano Volp, autor do livro 'Homens Pretos (Não) Choram', lançado pela HarperCollins - Victor Vieira/Divulgação

A dinâmica da indústria cultural tem nos levado a dar demasiada atenção à presença de autores e de autoras negras no debate cultural na mesma medida em que vilipendia perspectivas analíticas que nos trariam uma exploração mais frutífera do teor estético de seus trabalhos. Foi desse modo que aprendemos a ler Carolina Maria de Jesus porque "é uma autora necessária", e a fetichizar o romance "Homem Invisível", de Ralph Ellison, porque "nossas aulas de moral e cívica falharam em nos contar sobre a terrível invisibilidade negra".

Nosso juízo estético se tornou uma sombra de nossa impotência política. E já há quem pense que não é preciso gastar investimento e tempo esperando de um autor negro um novo livro que seja realmente bom. Basta que se fabrique uma boa recepção, pulando, como em um ato de mágica, do nada para a parte doce da comemoração.

O êxito de autores como Paulo Scott, Ta-Nehisi Coates, Oswaldo de Camargo, Conceição Evaristo, Ladee Hubbard, Colson Whitehead, Kalaf Epalanga, Danez Smith, Alice Walker, Yara Monteiro, Cidinha da Silva, Itamar Vieira Júnior, Jericho Brown, Teresa Cárdenas, Edmilson de Almeida Pereira, Zadie Smith, Luciany Aparecida e Chimamanda Adichie sugere que não há motivos para que se saia por aí publicizando haver ouro onde não há.

De resto, o problema não é a falta de ambição estética em "Homens Pretos (Não) Choram", ou o fato de a obra pertencer às fileiras da literatura de massa. O busílis é ela ser má literatura, aquela que não questiona e também não diverte; aquela para a qual o ato de permanecer na superfície das coisas não é fruto de uma escolha, mas de uma carência.

O fracasso do autor nesse livro não interdita eventuais acertos no futuro. Porém, a estratégia de lançar a obra com paratextos adulatórios de nomes que já provaram seu valor no cenário cultural brasileiro —como Jeferson Tenório e Emicida— reforça a sensação de que talvez essa obra seja importante porque quem a escreveu o é.

Isso, é claro, funciona muito bem para a celebração das mídias sociais, mas não para o ofício literário. A existência de Volp, afinal, merece nosso festejo. A julgar por essa obra, sua literatura ainda não.

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