Descrição de chapéu Perspectivas

Mal-estar e imobilismo espelham desencanto político no cinema

Obras de Adirley Queirós, Gabriela Amaral Almeida e Tiago Mata Machado abordam desconforto com país

Marcelo Miranda

Nos ensaios de “Alegorias do Subdesenvolvimento”, Ismail Xavier define a alegoria cinematográfica como a dimensão expressiva na qual “cada obra é capaz de condensar uma reflexão, às vezes implícita, do cineasta diante da crise (de um projeto de sociedade, de um projeto de cinema)”. 

Ao escrever, durante a década de 1980, sobre filmes brasileiros dos anos 1960 e 1970, o pesquisador mal podia imaginar que suas palavras iriam reverberar na produção atual.

Afinal, quando Ismail vaticina que “as alegorias não se furtaram ao corpo a corpo com a conjuntura brasileira; marcaram muito bem a passagem da ‘promessa de felicidade’ à contemplação do inferno”, ele encontra equivalência numa série de filmes recentes brasileiros que incorporam um profundo mal-estar. 

Das fantasias de Terceiro Mundo num futuro próximo “Branco Sai, Preto Fica” (2014) e “Era uma Vez Brasília” (2017), ambos de Adirley Queirós, passando pela irreverência irônica e festiva de “Sol Alegria” (2018), de Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira, e chegando aos exercícios de desintegração do corpo e da mente “O Animal Cordial” (2018), de Gabriela Amaral Almeida, e “Os Sonâmbulos” (2018), de Tiago Mata Machado, o desconforto com os rumos do país gera obras ásperas, que exigem olhar frontalmente as fraturas de uma sociedade nada cordial.

Ismail parecia falar desses filmes ao escrever que o teor crítico das obras que se valiam de alegorias durante o período mais duro da ditadura militar “não deu ensejo à construção de uma arte harmonizadora, desenhada como antecipação daquela promessa [de felicidade], mas sugeriu, como ponto focal de observação, o terreno da incompletude reconhecida. O melhor do cinema brasileiro recusou a falsa inteireza e assumiu a tarefa incômoda de internalizar a crise”.

Fazer o desconforto ser expressão sem cair no discurso barato: eis o desafio. Utilizando de distopias e alegorias, esses filmes recentes tratam da política em sentido amplo por caminhos diversos e surpreendentes. “Branco Sai, Preto Fica” parte das memórias de um baile funk que terminou em violência policial na periferia de Brasília para refletir sobre as consequências do passado numa comunidade de Ceilândia em futuro incerto e imaginado. 

Apropriando-se, sob a via do sarcasmo, de elementos da ficção científica, Adirley Queirós expõe o esfacelamento social quando o Estado vira as costas para quem está economicamente abaixo de uma linha de corte imaginária que privilegia lucro, grandes empresários e figuras de poder.

Em “Era uma Vez Brasília”, seu filme seguinte, Adirley faz um recuo melancólico similar ao de Glauber Rocha em “Terra em Transe” (1967), depois da nota final de esperança vista em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Produzido durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, o longa-metragem responde com senso de fracasso aos acontecimentos de seu presente. 

As imagens de uma capital federal escura, habitada por personagens quebrados e cabisbaixos, conduzem o filme. De novo a ficção científica aparece, desta vez numa viagem no tempo cujo objetivo é assassinar o presidente Juscelino Kubitschek. A jornada falha, e o protagonista vai parar na época errada, em plena destituição de outra governante.

Distintos dos títulos que reagiam ao regime militar nos anos 1970 —gritados, disruptivos, embaralhados, valorizando a “estética do lixo” como propulsora de seus questionamentos—, os filmes-reação à destituição presidencial de 2016 e à guinada à direita do eleitorado brasileiro que resultou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018 são, em geral, silenciosos e ensimesmados. Desconfiam de seu próprio tempo e são desesperançados em relação ao futuro.

Exceção à quietude é “Sol Alegria”, no qual o procedimento é de emular o tropicalismo e o cinema marginal no road movie de uma caravana familiar que se vale de armas e desbunde para insurgir contra um governo ultrarreligioso e corrupto. 

A relação entre o exagero desbocado, a transgressão do corpo e a formação de uma comunidade que celebra a si mesma com música e festa se dá na crença de que, para falar das dores da realidade, só mesmo pelo exagero do artifício.

O corpo também é levado aos limites (neste caso, da carne) em “O Animal Cordial”. Ambientado num restaurante de classe média paulistana, o filme inicia-se como um conto naturalista de cotidiano e logo mergulha num pesadelo desencadeado por um assalto malsucedido. 

O empresário (Murilo Benício) e a garçonete do lugar (Luciana Paes) equilibram as tensões de uma situação na qual poucos vão sobreviver (e aos que ficarem, resta a crueza do mundo exterior). Sob influência de cineastas delirantes como Mario Bava e Lucio Fulci, a diretora Gabriela Amaral Almeida promove um banho de sangue que alegoriza a cisão percebida no país.

A perplexidade é total, por fim, em “Os Sonâmbulos”, que se expressa pela impossibilidade da política em tempos de intolerância. O diretor Tiago Mata Machado aponta um mundo cada vez mais anestesiado ao totalitarismo. Entre sombras projetadas e bandeiras incendiadas, o filme é a materialização estética de uma energia pulsante que se esvaiu.

Há todo um cinema brasileiro independente que trata da paralisia e do assombro que o limitado recorte de cinco filmes aqui exposto não dá conta de esgotar. Essa produção contemporânea toma para si a desilusão e tenta devolvê-la aos nossos olhos em obras que nos desafiam a encarar desastres ainda longe de se concluírem. 


Marcelo Miranda é crítico, curador e pesquisador de cinema.

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