É preciso descolonizar o imaginário para entender literaturas africanas, reflete professora

Elena Brugioni discute riscos de analisar produção literária do continente a partir de olhar ocidental

Nesta semana, o Ilustríssima Conversa recebe Elena Brugioni, professora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autora do livro “Literaturas Africanas Comparadas: Paradigmas Críticos e Representações em Contraponto”, publicado pela editora da universidade.

Uma das preocupações centrais da pesquisadora é analisar como a ampliação do espaço das literaturas africanas nos circuitos editoriais globais vem sendo acompanhada, em vários casos, da persistência de estereótipos sobre a África e de leituras reducionistas sobre o universo literário do continente.

Partindo dos estudos pós-coloniais —que enfatizam as heranças de dominação e de exploração de antigas metrópoles sobre povos e territórios colonizados em todo o mundo—, o livro aponta a pluralidade da vasta produção literária dos países africanos.

Com nove capítulos, a obra reúne ensaios teóricos e análises de autores que se destacam nas literaturas africanas, com o objetivo de preencher uma lacuna na bibliografia voltada a estudantes sobre o tema no Brasil.

Mulher com fundo cinza
Retrato de Elena Brugioni - Arquivo pessoal

Na conversa com o repórter Eduardo Sombini, Brugioni abordou a recepção, muitas vezes conflituosa, de obras de escritores africanos pela crítica ocidental, como nos casos do nigeriano Chinua Achebe (1930-2013) e do moçambicano Mia Couto (1955-).

A pesquisadora também discutiu a classificação de obras de ficção de países africanos como étnicas ou exóticas pelo meio literário hegemônico e a valorização de gêneros que se distanciam dos padrões estéticos do cânone ocidental, como o realismo mágico e romances de formação que privilegiam a infância.

No final do episódio, Brugioni indicou autores de países africanos com obras disponíveis no Brasil. Veja a lista abaixo:

  • João Paulo Borges Coelho, 65, moçambicano
  • Pepetela, 78, angolano
  • Wole Soyinka, 85, nigeriano
  • Tsitsi Dangarembga, 61, zimbabuana
  • J. M. Coetzee, 80, sul-africano
  • Doris Lessing (1919-2013), britânica, viveu por mais de duas décadas na Rodésia do Sul, atual Zimbábue
  • Nadine Gordimer (1923-2014), sul-africana
  • Naguib Mahfouz (1911-2006), egípcio
  • Abdulai Sila, 62, guineense

O Ilustríssima Conversa também pode ser acessado nos principais aplicativos, como Apple Podcasts, Spotify e Stitcher. Ouvintes podem assinar gratuitamente o podcast nos aplicativos para receber notificações de novos episódios.

O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa Marta Arretche, que discutiu desigualdade e políticas sociais no Brasil; Sérgio Augusto, que debateu os rumos do cinema em meio à pandemia de coronavírus; Sidney Chalhoub, que lembrou a politização de epidemias ao longo da história; Gilberto Nascimento, que tratou do crescimento da Igreja Universal e a ascensão política de Edir Macedo; Eliane Robert Moraes, que discutiu a censura ao sexo nas artes; Sueli Carneiro, que falou sobre a relação entre as questões de raça e gênero no Brasil; Sérgio Adorno, que abordou o surgimento do liberalismo no Brasil; Sidarta Ribeiro, neurocientista que estuda o sono e os sonhos; a antropóloga Lilia Schwarcz; o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro e a economista Laura Carvalho, entre outros.

A lista completa de episódios está disponível no índice do podcast.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.