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Jairo Malta e Isabelle Strobel

Por que Juliette do BBB parece a tropa de choque bolsonarista

Autores apontam as estratégias similares da participante do reality e da extrema direita para confrontar seus oponentes

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Jairo Malta

Designer, fotógrafo e repórter na Folha de S.Paulo. É autor do blog Sons da Perifa.

Isabelle Strobel

É advogada e pesquisadora

[resumo] Apontada como favorita a vencer o BBB, que termina nesta terça-feira (4), Juliette Freire construiu sua ascensão no reality por meio de estratégias similares às usadas pela extrema direita nas redes sociais, como o autoritarismo disfarçado de autenticidade, a propagação deliberada de mentiras, o negacionismo em relação a preconceitos e pandemia e a constante dissimulação, argumentam autores.

Vocês, leitores informados, muito provavelmente já ouviram falar que, na edição deste ano do Big Brother Brasil (Globo), uma das personagens logo tornou-se presença hegemônica na opinião pública.

Diferentemente dos demais, ela se destacou por agir de forma considerada pela audiência como "sem noção" e tão invasiva que questionaram seu comportamento como assédio. Uma canção foi dedicada a ela: "Não surta".

Algumas de suas frases no programa pareciam ter vindo diretamente do gabinete do ódio: "Você acha legal esse estereótipo? Eu não quero que você seja visto como bicha escandalosa", "Racismo não tem cor!", "Eu gosto de pessoas sensíveis, eu gosto de pessoas divertidas, eu gosto de pessoas negras também", "cala a boca travesti sem noção".

Juliette Freire no BBB
Juliette Freire no BBB - Reprodução/Globoplay

Na primeira semana, ela disse a Lucas Penteado: “eu quase que bati em você, sem querer, mas com muita vontade de acertar”.

Estamos falando de Juliette Freire, favorita do jogo e, para azar de Regina Duarte, a nova namoradinha do Brasil. Neste texto, tentaremos analisar quais mecanismos construíram tão rapidamente sua ascensão e em que medida eles se assemelham às estratégias da extrema direita para ocupar o poder.

Tanto Juliette quanto Jair Bolsonaro compartilham do mesmo traço de personalidade que incomoda quando vivemos em sociedade: são pessoas assumidamente autoritárias.

Antes que os fãs emocionados nos acusem de perseguir os ícones, aviso-lhes que basta não sofrer de optofobia, o medo de abrir os olhos, e tudo irá se encaixar.

Em sua autoapresentação, Juliette disse que se considerava bem-humorada, mas podia soar autoritária, o que poderia ser um problema para chegar ao primeiro lugar. Para sorte da sister, e de Bolsonaro, no Brasil isso é uma vantagem. Conforme Datafolha, o índice de apoio a posições autoritárias é de 8.10, numa escala de 0 a 10.

Em uma das provas do BBB, Jogo da Discórdia, Juliette reafirmou essa característica. Contudo, tal como o ex-juiz Sergio Moro, Juliette acrescenta que não é tão autoritária assim, pois, caso alguém tenha um argumento que ela considere bom, está disposta a aceitar.

Outro elo que une o presidente e Juliette é a luta pelo direito de pegar Covid-19: "Você quer se colocar em risco, é um direito seu", uma pérola que levou ao apelido carinhoso "Jairliette", criado nas redes.

Se alguém souber de algum momento em que Bolsonaro tenha chutado o pé fraturado de alguém, tenha pedido desculpas rindo e anunciado "o manco está bem e me perdoou", peço que me informem, pois precisaria estabelecer mais este paralelo com Juliette. Contudo, fica a dúvida se até mesmo Bolsonaro seria capaz dessa monstruosidade com Caio.

Outra ferramenta muito utilizada por Juliette e a extrema direita é a do "caos como método", que se caracteriza por ocultar uma tática com um comportamento errático e confuso.

Os conflitos entre Juliette e Lumena ilustram com clareza isso, pois revelam uma história marcada por distorções, mentiras, barracos e profundo delírio da audiência.

No primeiro raio-x do programa, quadro em que participantes falam com o público, Juliette gravou um vídeo de 1 minuto. No dia seguinte, ficou 16 minutos falando. Isso desequilibrou os colegas, pois o tempo total do quadro precisa ser dividido para todos os participantes, o que daria aos demais competidores pouco tempo de fala. Fora isso, corriam o risco de serem severamente punidos pela produção.

Ao ser questionada sobre o gesto egoísta, Juliette respondeu: "arrombasse a porta".

Depois, tentando apelar ao bom senso, embora suas ações passem ao largo da ponderação, afirmou: "Meu Deus do céu, eu esqueci do tempo!". No entanto, quando se grava o raio-x, há um contador no vídeo e é necessário clicar nele a cada 60 segundos.

Importante frisar ainda que, no raio-X do dia anterior, ela se antecipara: "Eu tô falando muito muito muito muito", pois algum cancelador poderia pensar que ela estaria lançando mão de táticas para desestabilizar os colegas.

Uma coincidência neste episódio foi Lumena desabafar: "Eu tô muito chateada, eu tô segurando muito a minha onda". Juliette provocou: "Pode botar pra fora, vá. Pode botar. Bote". Lumena respondeu: "Você não precisa me dizer o que eu preciso fazer. Estou aqui, de verdade, controlando as minhas emoções".

Esse controle não foi suficiente. A dupla Juliette e Lucas instaurou o caos, traçando a partir dele uma fronteira moral entre apoiadores e inimigos. Tudo com apoio do público e a parcialidade da mídia dos instagrams de fofoca.

Juliette e Lumena conversam após o Jogo da Discórdia - Reprodução/Globoplay

Em um mesmo dia, perguntando se poderia usar vestido branco. Depois, perguntou se Lumena poderia maquiá-la de branco e assim por diante. Lumena respondeu: "Você pode fazer o que você quiser, não me sinto à vontade para legitimar o que você quer fazer".

Na semana seguinte, a cena do vestido foi retomada. Juliette atacou: "Eu elogiei uma roupa de Lumena, mas ela achou que eu estava com inveja ou queria me apropriar". Lumena reagiu e apontou o dedo, dizendo: "Primeiramente, ressignificando a informação que você trouxe: Ela é falsa".

Lumena tinha razão, Juliette estava mentindo. A internet riu e fez piadas com a cena, empresas lucraram com o meme "lumena autorizou?". A cena reverberou tanto a ponto de militantes negras serem apelidadas pejorativamente de "lumenas", o que revela muito sobre a agressividade do racismo e como ele institui um silenciamento.

Outra bandeira comum à extrema direita e a Juliette é a luta contra o estereótipo do branco privilegiado. Lançando questionamentos que poderiam ter saído dos rincões bolsonaristas, a advogada "dá muitas mitadas": "Sabe quem foi que acolheu Lucas? Foi a loirinha do olho azul que as pessoas querem enquadrar como privilegiada [no caso, Sarah Andrade], foi a branquinha que tem cara de dondoca".

Juliette então deslocou o preconceito para outro grupo: "Quando as vulnerabilidades de Lucas apareceram aqui, as pessoas mais machucadas aqui [referindo-se as participantes negros da casa] pum nele!!".

Com uma autodescrição que poderia ser atribuída a Danilo Gentili, Juliette disse: "Sou muito palhaça, pode ser que eu fale uma besteira ou magoe alguém com a minha ironia'.

Na obra "Teoria e Política da Ironia", da crítica Linda Hutcheon, afirma-se que "a ambiguidade pode gerar incompreensão, confusão ou simplesmente imprecisão e falta de claridade na comunicação", o que provocaria irritação em algumas pessoas.

Em sua coluna no Metrópoles, o jornalista Léo Dias conclui exatamente a mesma coisa ao analisar Juliette: "Ela fala demais? Sem dúvidas. Mas seu jeitinho de incomodar os colegas irrita os outros brothers e agrada os fãs. Nem mocinha, nem vilã, ela é a ambiguidade em pessoa".

O filósofo Hegel (1770-1831), ao falar das Juliettes de seu tempo, não poupou farpas: "A invenção dessa ironia deve-se ao senhor Friedrich von Schlegel, que sempre retoma a tagarelice e ainda hoje a repisa em nossos ouvidos".

Ao falar para Juliette o que pensava dela, Viih Tube, outra participante do BBB, expressou carinho semelhante: "Pra mim hoje você foi chata pra c*r*lh*. Do fundo do coração." A mesma paciência também foi demonstrada pelo resignado professor João Luiz: “A Juliette me tira do sério. Que menina chata, ela é muito chata, Camilla. Chata, chata, chata”.

Chegou-se ao ponto de Fiuk pedir a Juliette "seja mais transparente, mais sincera", emendando com "você trabalha com ironia?". Sim, Juliette trabalha com ironia.

Para finalizar, o clássico: "fake news". Na primeira festa, Juliette perguntou a Acrebiano se ele achava que ela falava alto. Ele respondeu: "Pode ser sincero? Você fala, sim". Ela então declarou: "Sim, mas eu vou parar, acho falta de educação quem fala alto". Logo em seguida, ela falou com Caio: "Seu amigo falou que eu falo alto e sou mal-educada".

Tendo muito a ensinar a Steve Bannon, cada desinformação da casa é acompanhada por uma rede de intensa capilaridade na internet que dissemina, distorce e cria fatos que beneficiam a narrativa da liderança de direita.

Por exemplo, resgataram um vídeo do Projota, no qual a internet e a imprensa declararam que o rapper fez comentários xenofóbicos sobre o sotaque da Juliette. Ele, na verdade, estava se queixando do tom de voz que a própria já havia dito ser grosseiro.

Outras mentiras foram usadas para acelerar o processo de ódio. Notícias como "Imagens mostram Karol Conká fumando cigarro de maconha dentro da casa do BBB" e “Já me apresentei em vários lugares, mas o pior de todos foi em Paranaguá, credo, lá só tem gente feia” começam a ser muito propagadas.
Ao incendiar a internet com mentiras, acelerou-se o efeito "manada" (para os sobreviventes de 2018, a "mamadeiradepirocação").

“Não vi a confusão. Como eu poderia julgar sem ver o que estava acontecendo? Desculpa, mas eu tinha que escutar o lado dele”, diz Sarah em defesa de Lucas. Cena digna de declarações nas redes como "Sarah, nossa rainha segue fazendo tudo”.

Menos de um mês depois, ela foi lembrada como uma bolsonarista não arrependida, aglomeradora e, o pior de tudo, protagonista de vídeos medonhos cantando "bom dia amiguinho, como vai amiguinha?". Ao entoar essas canções repetidas vezes desde que saiu, Sarah apenas comprovou que não aprendeu absolutamente nada com a lição "tortura psicológica não é entretenimento".

A escalada e a derrocada de Lucas, somadas à imagem de agressividade que foi depositada em Karol Conká, fez a manada correr para o precipício: Juliette. Quando a participante paraibana se torna o messias, o volume de pessoas pensando e comentando como corretas todas as suas ações faz com que manifestações de opinião contrárias sejam tragadas por essa grande onda.

Quanto às comparações com as técnicas da extrema direita, não seríamos ingênuos de nos esquecer de que elas só se tornaram eficientes por serem apoiadas pelas elites econômicas. No dia 25 de abril, Juliette afirmou ser uma habituée desse mundo. "Eu frequento lugares da alta sociedade em São Paulo, Rio, Brasília."

Além disso, contando com uma equipe de mais de 22 pessoas supostamente trabalhando de graça 24 horas por dia, recebendo apenas amor e fé, a advogada tem o apoio das marcas, que estão brigando para tê-la como garota propaganda.

A nova namoradinha do Brasil é tudo o que as empresas querem: a cara de dondoca e a empatia sempre performada em um belo sorriso. E eis que a história se repete: primeiro como tragédia de novela, depois como farsa de reality.

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